Agricultura e ambiente: lá e cá

Por Ciro Antonio Rosolem* 

23.03.2012 - ANDEFFotos: Tatiana FerroLá no Reino Unido os agricultores estão muito preocupados, pois com o tal do Brexit, ou seja, a saída do Reino Unido da União Europeia, vão perder uma parte do subsídio ambiental que recebem. Isso mesmo: não só o Reino Unido, mas toda a União Europeia contribui para a manutenção da vegetação nativa, ou de áreas re-vegetadas, mantidas pelos agricultores em cada um dos países membros. A sociedade paga por um bem fornecido pelos agricultores. Nada mais justo.

Cá, nesta semana o Supremo Tribunal Federal julga Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs), impetradas por membros do Ministério Público, PSOL, PV e ONGS, contra alguns artigos do Código Florestal Brasileiro. Cá, certos promotores, partidos políticos e ONGs se julgam os arautos protetores do ambiente. Serão mesmo? O fato é que o Código Florestal, aprovado por imensa maioria após exaustivos debates públicos, foi reconhecido internacionalmente na Conferência do Clima, em Paris, inclusive por algumas ONGs internacionais. O Cadastro Ambiental Rural e os Programas de Regularização Ambiental, filhotes do Código, têm sido ferramentas fundamentais no controle e ampliação da preservação ambiental. Então estes “do-contra” são contra quem? Contra o agronegócio brasileiro que mantém este país em pé? A invalidação do Código Florestal como vigente trará, novamente, insegurança jurídica para o campo, além de estimular novas ondas de desflorestamento.

Lá, o valor que os agricultores recebem para conservar um hectare de vegetação é maior que o lucro da criação de ovelhas. E, notem, criação de ovelhas é uma atividade tradicional por lá. É mais ou menos assim, produzir trigo é bom, logo em seguida vem preservação ambiental e, daí, criar ovelhas. Dá pra viver disso. Daí a grande preocupação: quem assumirá este custo.

Cá, os produtores rurais mantêm preservados, em propriedades privadas, mais de 20% do território nacional. O que recebem por isso? A pecha de desmatadores. O governo tem sob sua responsabilidade, 13% do território nacional em áreas preservadas, e gasta bilhões com isso. Ou seja, a sociedade brasileira paga, por meio dos impostos, a conservação dos 13% do território. Vale lembrar que a administração pública é ineficiente, cara. Se já pagamos pelos 13%, por que não pagar pelos 20% que estão em propriedades privadas? Esta área tem um valor de mercado muito grande e, além disso, a preservação tem custos. Se estivesse em produção, estas terras estariam gerando renda, aportando dinheiro nas pequenas cidades, gerando empregos e impostos. Não é injusto que os produtores rurais paguem esta conta sozinhos? Será que o resto do mundo está errado?

Cá, é fundamental a proteção e aperfeiçoamento do Código Florestal (já prevista), mas é também fundamental o estudo e implementação do pagamento por serviços ambientais. É bom para a natureza, é bom para a população e, acima de tudo, é justo.

*Vice-Presidente de Estudos do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e Professor Titular da Faculdade de Ciências Agrícolas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (FCA/Unesp Botucatu).

O Brasil na agenda global de desenvolvimento sustentável

por Maurício Antônio Lopes*

Maurício LopesEm setembro de 2015, líderes de 193 países concordaram, sob a coordenação da ONU, em implementar uma ousada agenda de desenvolvimento com o objetivo de garantir um planeta mais próspero, equitativo e saudável até 2030. Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), então definidos, incluem 169 metas em grande diversidade de temas, materializando a evolução e o amadurecimento da discussão global sobre desenvolvimento sustentável desde a década de 90. Na abrangente agenda, se destacam erradicação da pobreza, agricultura e segurança alimentar, educação, saúde, redução das desigualdades, energia, água e saneamento, produção e consumo sustentáveis, mudança do clima, proteção e uso sustentável dos ecossistemas terrestres e dos oceanos, crescimento econômico inclusivo, infraestrutura e industrialização, cidades sustentáveis, governança e estratégias de implementação.

Essa agenda é singular por fornecer uma visão inclusiva e integrada de progresso sustentável – certamente o mais ambicioso plano de promoção do desenvolvimento humano até hoje elaborado. E ele não parte do zero. Os 17 objetivos prometem acelerar os avanços que o mundo tem experimentado nas últimas décadas. Em 1990, quase metade da população do mundo em desenvolvimento tinha menos de US$ 1,25 por dia para viver. O índice caiu para 14% em 2015. O número de pessoas pertencentes à classe média trabalhadora (que vivem com mais de US$ 4 por dia) quase triplicou, em termos globais, desde 1990. Nos países em desenvolvimento, a proporção de pessoas em condição de desnutrição caiu quase metade, de 23,3% , em 1990, para cerca de 13% na ocasião da aprovação dos ODS, em 2015.

Os ODS vão partir desses avanços, com foco nos passivos a serem superados, para ajudar as populações que ainda vivem na pobreza e para construir um mundo mais pacífico, próspero e sustentável. Um aspecto inteligente dessa agenda de desenvolvimento é que a maioria dos alvos pretendidos se complementa e se reforça, para evitar que o progresso em uma área não ocorra às custas de outra, erro comum no passado. Por exemplo, o aumento da produção de alimentos deverá ser buscado em sintonia com a gestão responsável dos recursos naturais; a expansão da energia renovável de base hídrica deverá se dar respeitando o abastecimento de água das populações; e a proteção dos oceanos não deve sufocar o crescimento econômico e o desenvolvimento nas regiões costeiras.

Para isso, a materialização dos ODS exigirá abordagens flexíveis, compartilhamento de conhecimentos entre múltiplas áreas e temas, políticas públicas integradas, além de métricas para avaliação sistemática de progresso e correção de rumos, sempre que necessário. É, portanto, fundamental que os governos, as empresas, as agências de fomento, os bancos multilaterais e a sociedade civil trabalhem em sintonia, reconhecendo a interdependência entre os vários objetivos e desenvolvendo competências e roteiros que permitam navegar no complexo terreno de formulação e melhoria de políticas e estratégias de implementação. Esse processo tem o apoio das Nações Unidas e de múltiplas organizações internacionais de desenvolvimento, que estão trabalhando para fornecer um apoio mais efetivo e coordenado, em especial aos países em desenvolvimento, instados a melhorar de forma urgente as próprias capacidades. O governo brasileiro criou, em 2016, a Comissão Nacional para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que tem o IBGE e o Ipea como assessores técnicos permanentes, e é composta por 16 entidades, oito governamentais e oito da sociedade civil.

Essa é uma agenda extraordinariamente oportuna para o Brasil, país de dimensões continentais que ainda não conseguiu organizar o processo de desenvolvimento a partir do empoderamento dos municípios, onde a vida da nação, de fato, pulsa. Promover o envolvimento e a liderança dos governos municipais é vital para experimentarmos os benefícios dos ODS, que incluem metas como gestão aprimorada para controle de despesas, busca de novas fontes de receita, captação de recursos e fortalecimento da credibilidade do poder público. Esse é o caminho para que nossos municípios prestem serviços básicos em favor da inclusão produtiva, da segurança e da sustentabilidade, que estão no âmago dos ODS.

Diversos objetivos e metas estimulam as empresas privadas a adotarem práticas que conduzam a crescimento econômico sustentado, inclusão social e proteção ambiental, integrando a informação de sustentabilidade em seus relatórios e prestações de conta, para daí auferir lucros e melhoria de imagem. É cada vez mais evidente que o engajamento do setor empresarial na busca por soluções para os grandes desafios da sociedade será elemento decisivo na busca de vantagens competitivas nos mercados. Por isso, o setor privado poderá se tornar elemento muito importante na entrega dos ODS.

Por fim, é importante destacar que as organizações científicas e tecnológicas desempenham papel fundamental na inovação para o desenvolvimento sustentável e, também, na modelagem e na aplicação de métricas para o acompanhamento e a medição de progressos. Como alimentação e agricultura têm relação com praticamente todos os ODS, a Embrapa desenvolve ampla avaliação de sua programação de pesquisa e inovação, mapeando interfaces e sinergias com os ODS e suas metas. É fundamental que as organizações públicas e privadas deem ao Brasil a musculatura necessária para a implementação de robusta estratégia que bem nos posicione nesta importante corrida de superação de obstáculos ao desenvolvimento sustentável até o ano de 2030.

*Presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

Populismo Alimentar

Por Coriolano Xavier*

23.03.2012 - ANDEF Fotos: Tatiana FerroQuando se pensa em marketing do agronegócio e diálogo do setor com a sociedade, é importante tentar ver o mundo da perspectiva das pessoas que hoje questionam, mostram algum temor ou querem saber mais sobre a segurança dos alimentos. Ou mesmo daquelas que se preocupam, autenticamente, com as questões ambientais.

A princípio, suas inquietações podem ser legítimas, mesmo padecendo de equívocos. E se a cadeia produtiva de alimentos não ouvir essas pessoas, sua voz e poder de ação serão cada vez maiores, pois vivemos em uma sociedade midiática e não tem jeito: nossa governança sobre as mídias sociais é limitada e praticar uma comunicação apenas reativa significa perda de eficácia.

Mas não é suficiente apenas ouvir. Será preciso criar posicionamentos e argumentos que respondam às dúvidas e demandas das pessoas. Posicionamentos que agreguem conhecimento e confiança à sua percepção, provavelmente com mensagens diferentes daquelas em geral adotadas até agora pelo setor produtivo.

Mensagens minando crenças arraigadas, mostrando o que se faz agora pela segurança dos alimentos e educando as pessoas sobre as contribuições e relações dos alimentos com a saúde e o bem-estar. Três frentes de diálogo com a sociedade, todas falando em ciência e pautadas pela transparência, se possível sob o signo de estratégias e políticas de comunicação contínua.

Só assim o sistema produtivo alimentar conseguirá construir pontes positivas com as pessoas, a mídia em geral, a academia e formadores de opinião. Assim também poderá neutralizar o caldo cultural que alimenta certo populismo alimentar de detratores que se apoiam no desconhecimento das pessoas sobre a hoje sofisticada tecnologia e economia alimentar.

O populismo alimentar fala o que as pessoas querem ouvir. Reverbera suas inseguranças com os alimentos e sem atitude construtiva. É um discurso dogmático, distante da pluralidade do mercado e carente de evidências consistentes. Às vezes tem até um viés autoritário, criando vilões. E o que o faz emergir é a demora ou falha em dar resposta às dúvidas das pessoas.

Já existem alguns bons exemplos desse marketing educativo do agro, como a iniciativa Nutrientes para a Vida, a campanha “Agro é pop, agro é tech, agro é tudo”, o programa Aplique Bem e o trabalho de marcas cooperativistas de alimentos junto aos consumidores, entre outros. Mas ainda é muito pouco, diante da relevância do nosso agro na economia.

No fundo estamos falando de comunicação contínua e propositiva com a sociedade, servindo inclusive de lastro para o marketing de categorias e marcas de alimentos. Total sinergia. Um novo olhar discutindo estratégias guarda-chuva de imagem para o sistema alimentar, a partir de uma compreensão profunda do que está mudando na cabeça das pessoas.

Mas precisa começar. Por exemplo, construindo uma inteligência consolidada sobre nossa cultura de consumo alimentar, a partir de estudos que já existam sobre as percepções que estão mudando as decisões sobre alimentos, a exemplo do que se faz em mercados mais maduros, como é o caso do Center for Food Integrity (CFI), dos Estados Unidos.

Um espaço (mesmo que virtual) que também pode monitorar as ondas das mídias sociais em torno de temas relacionados à segurança dos alimentos. Depois, dar acesso a essa base de conhecimento para as iniciativas de comunicação educativa com o mercado, inclusive abrindo espaço para uma discussão integrada e permanente (com o agro e a sociedade) para identificar sinergias entre ações singulares. Abaixo ao populismo alimentar.

*Vice-Presidente de Comunicação do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), Professor do Núcleo de Estudos do Agronegócio da ESPM.