Sempre tem um herói

Por Coriolano Xavier*

23.03.2012 - ANDEF Fotos: Tatiana FerroSucesso em nosso meio rural e referência de eficiência no exterior, o Sistema Campo Limpo de logística reversa mudou o paradigma de responsabilidade com as embalagens de agroquímicos, pós-consumo, na agricultura brasileira.

Hoje, essa iniciativa é uma reserva brasileira de conhecimento em recolhimento e descarte ambientalmente correto de embalagens, inclusive com potencial de contribuição para outros programas que surjam no Brasil, sob o guarda-chuva da Política Nacional de Resíduos Sólidos (de 2010), que impõe às cadeias produtivas da economia a responsabilidade de dar destinação adequada aos resíduos sólidos produzidos.

Desde 2002, quando começou a funcionar, o Sistema Campo Limpo já evitou o descarte indevido de mais de 360 mil toneladas de embalagens e, hoje, encaminha para reciclagem ou incineração 94% das embalagens devolvidas pelos agricultores. Enquanto isso, países como França, Canadá, Espanha e Alemanha estão com recolhimento na casa dos 70%-80%, Japão com 50% e os Estados Unidos bem mais atrás, na faixa de 35%.

Sob uma perspectiva histórica, é possível creditar o sucesso desse programa, em primeiro lugar, à legislação que instaurou a determinação de se devolver e recolher as embalagens dos defensivos agrícolas adquiridos pelos produtores rurais (Lei 9.974/2000). A subsequente conscientização dos produtores também foi decisiva, assim como a liderança da indústria em todo o processo e o suporte essencial dos canais de comercialização de insumos, no campo.

O Sistema Campo Limpo reúne cerca de uma centena de empresas fabricantes de defensivos, cinco mil distribuidores e cooperativas em todo o Brasil, 12 recicladores e três incineradores. Estrutura que é alimentada por uma malha de mais de 400 unidades de recebimento de embalagens, distribuídas em 25 Estados e no Distrito Federal. Esta rede retira do campo embalagens usadas em aproximadamente 55 milhões de hectares cultivados.

A gestão operacional desse complexo aparato de logística reversa está a cargo do InpEV – Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias, representante das indústrias de  agroquímicos.  Uma operação cuja força está no fato de integrar efetivamente os elos da cadeia comercial de defensivos agrícolas, da fábrica ao produtor rural – e também o poder público, que fiscaliza o sistema de destinação, emite licenças para as unidades de recebimento e apoia os esforços de conscientização do agricultor.

Costuma-se dizer que em cadeias produtivas não existem heróis. No caso do Sistema Campo Limpo isso é concreto, pois os segmentos da cadeia de produção agrícola, no antes e no dentro da porteira, mergulharam no desafio de fazer a logística reversa dos defensivos em um país continental e dar um passo à frente para a sustentabilidade no campo. E deu certo, muito certo. Mas nesta história, na verdade, tem sim um herói: o agronegócio. 

*Vice-Presidente de Comunicação do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), Professor do Núcleo de Estudos do Agronegócio da ESPM.

A quase infinita proteção dos consumidores em relação aos riscos toxicológicos dos alimentos

Por Decio Luiz Gazzoni*

Decio GazzoniAs regras de comércio internacional são cada vez mais restritivas em relação à segurança dos alimentos. Considera-se um alimento seguro quando a presença de contaminantes físicos, químicos ou biológicos situa-se abaixo dos limites fixados em lei. Um limite pode ser a ausência total, se assim determinar a legislação.

O agronegócio brasileiro necessita adaptar-se com rapidez a este novo ambiente mercadológico, porque esta não é apenas uma exigência dos países importadores, ela também está presente no mercado doméstico.

Existem diversas ações destinadas a monitorar a segurança dos alimentos no Brasil. Em dezembro de 2011, a ANVISA divulgou o resultado das análises de resíduos de agrotóxicos, realizadas em 2.488 amostras de frutas e hortaliças, como parte do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA). Foi verificado que 1,6% das amostras apresentavam limites de resíduos acima do permitido pelas normas brasileiras. Os resultados do PARA permitem reflexões sobre a segurança dos alimentos produzidos no Brasil.

Embora não sejam os únicos, três dos principais parâmetros da Ciência da Toxicologia envolvidos na temática de inocuidade química dos alimentos são: 1) Dose Letal 50 (DL50) – dose que mata 50% das cobaias em testes científicos; 2) Limite máximo de resíduos (LMR) – quantidade máxima de agrotóxico legalmente aceita no alimento; 3) Ingestão Diária Aceitável (IDA) – quantidade máxima do agrotóxico que, ingerida diariamente, durante toda a vida, não oferece risco à saúde, à luz dos conhecimentos científicos atuais. Portanto, uma amostra enquadra-se ou não nas disposições legais do país. Por oportuno, no caso do PARA, 1,6% das amostras ultrapassaram o LMR legalmente estabelecido no Brasil.

Parâmetros
Como se estabelece a IDA? Em testes científicos, doses crescentes são administradas a cobaias. Para os cálculos de segurança, considera-se a maior dose que não causou alterações metabólicas perceptíveis, nos organismos em teste. Estabelecida esta dose, ela é dividida pelo fator 100, ou seja, a IDA representa apenas 1% da dose que não causou qualquer problema de saúde em cobaias, nos experimentos científicos. Normalmente a dose que não causou qualquer problema toxicológico equivale a 1-10% da dose que ocasionou alguma alteração. Logo, a IDA representa 0,1-0,01% da dose que poderia, eventualmente, ocasionar algum problema de ordem toxicológica. A lógica de dividir por 100 a dose que não causou qualquer problema objetiva garantir a proteção dos consumidores de alimentos de qualquer risco toxicológico.

Como se estabelece o LMR? É o valor máximo de resíduo de agrotóxico admitido legalmente em um alimento, considerando a aplicação adequada de uma substância química (seguindo todas as Boas Práticas Agronômicas), desde sua produção até o consumo. Levando em consideração a IDA, o LMR não oferece risco à saúde, à luz dos conhecimentos atuais, mesmo se esta dose for ingerida diariamente, durante toda a vida.

Como exemplo ilustrativo, suponhamos um agrotóxico aplicado em maçã, que tenha uma DL50 de 500mg/kg de peso vivo (seja moderadamente tóxico, de acordo com a Portaria Nº 3 de 16/1/92 da Secretaria Nacional de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde), e que o limite máximo de resíduo (LMR) seja de 0,05 mg/kg de maçã. Para que houvesse 50% de probabilidade de intoxicação de uma população de peso médio de 70 kg, seria necessário ingerir 35.000 mg/pessoa (70kg x 500 mg/kg). Supondo que todas as maçãs tivessem o resíduo máximo de 0,05 mg/kg (50 ppb), cada pessoa, pesando 70kg, deverá consumir 700 toneladas de maçã (35.000 mg ÷ 0,05 mg/kg). Se esta população ingerir apenas maçãs, à razão de 2 kg/pessoa/dia, seriam necessários quase 1.000 anos para atingir a dose que, teoricamente, poderia conferir 50% de probabilidade de esta pessoa ser afetada pelo agrotóxico. Lembrando que, após poucos dias, o organismo se encarrega de eliminar a quase totalidade deste resíduo.

Precisão das análises
O contínuo aprimoramento dos métodos de análise, e dos equipamentos de detecção de resíduos, já permite identificar substâncias químicas na ordem de uma parte por trilhão (1 ppt). Fazendo uma analogia, 1 ppt equivaleria a identificar a presença de uma determinada substância química, em que apenas uma gota dela fosse lançada em uma piscina cheia de água, tendo esta piscina dimensões de 100 m de comprimento por 100 m de largura e profundidade de 5 metros. O resíduo na maçã, do exemplo acima, seria de 50.000 ppt, o que equivaleria a detectar uma gota de uma substância dispersa em 1.000 litros de água.

Logo, quanto mais precisos forem os métodos de análise de resíduos de substâncias químicas, maior será a probabilidade de detecção de resíduos de substâncias químicas, o que imporá exigências cada vez maiores nas cadeias de produção de alimentos, em especial em um ambiente fortemente competitivo e com constantes recaídas protecionistas, como é o mercado internacional de produtos agrícolas. 

*Membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), Engenheiro Agrônomo e pesquisador da Embrapa Soja

Refúgio estruturado, um aliado das tecnologias Bt

Por Ana Paula Maranhão*

Ana Paula MaranhãoO potencial brasileiro para o agronegócio é reconhecido internacionalmente. O clima favorável que temos por aqui, somado ao know-how que é passado de pai para filho em famílias de agricultores e às novas tecnologias de agricultura digital, impulsionam a produção e melhoram os resultados a cada safra. Para consultores e especialistas, são esses resultados que têm contribuído para segurar a economia e o PIB do Brasil. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a agropecuária brasileira cresceu 15,2% no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período em 2016.

Dentre as culturas que mais cresceram, o milho, ao lado da soja, ocupa posição de destaque na expansão da atividade agrícola no Brasil. Com a proximidade da safrinha de milho, chega o momento de discutir práticas de Manejo Integrado de Pragas (MIP), a fim de reduzir possíveis danos econômicos e maximizar a produtividade na lavoura, sobretudo para as tecnologias Bt.

Sabe-se que insetos resistentes podem estar presentes na população antes da utilização de quaisquer métodos de controle. Por isso, é extremamente importante que boas práticas sejam adotadas para evitar a proliferação de insetos resistentes à tecnologia Bt. No Brasil, o MIP deve ocorrer de forma sistemática, adotando-se estratégias efetivas de controle de pragas no sistema produtivo das culturas de milho (o mesmo vale para soja e algodão).

Preservar a tecnologia Bt é uma responsabilidade de todos e deve ser compartilhada por cada elo da cadeia produtora de grãos e fibras. Isso significa que toda vez que um desses elos faz a sua parte, e, principalmente, fomenta as boas práticas do MIP, contribui para retardar a seleção de insetos resistentes. O aumento de insetos resistentes pode ocasionar grandes prejuízos financeiros e, principalmente, colocar em risco a longevidade e eficiência das biotecnologias.

Alguns pilares que compõem o MIP são essenciais para o manejo do milho em estágios iniciais da cultura. É o caso do refúgio estruturado. Com este método, é possível retardar a seleção de insetos resistentes ao manter uma população de pragas susceptíveis/sensíveis às proteínas Bt, para que ela possa acasalar com indivíduos resistentes e transmitir a suscetibilidade do Bt a gerações futuras.

Assim, torna-se possível prolongar a longevidade das tecnologias para que elas possam auxiliar nos altos índices de produtividade por mais tempo. Mas como isso é feito na prática? Para milho, recomenda-se que 10% da área total de plantio seja destinada ao refúgio (milho não Bt), com distância máxima de 800 metros entre culturas Bt e não Bt.

A evolução da resistência de pragas é o maior desafio para o uso de culturas que expressam proteínas Bt. Sem as práticas de Manejo Integrado de Pragas, essa tecnologia pode sofrer redução em sua eficácia e, consequentemente, na produtividade das lavouras. Assim, o plantio de refúgio estruturado é a principal ferramenta para evitar que isso aconteça e, para preservar os benefícios e facilidades trazidos pelo uso de biotecnologias. É essencial que essa boa prática seja feita de maneira correta, uma vez que estas tecnologias contribuem diretamente para o modelo de agricultura que temos hoje.

*é engenheira agrônoma, formada pela Universidade Federal de Lavras (UFLA) e gerente de Proteção a Biotecnologias e Estratégias de Refúgio da Monsanto.