Caminhos e desafios da agricultura brasileira

Produção orgânica, logística e tecnologia são discutidos em fórum em São Paulo

fórum FolhaO crescimento da agricultura orgânica, logística e infraestrutura e inovações tecnológicas estiveram em pauta no segundo dia de debates do fórum promovido pelo jornal Folha de S.Paulo. Sob o tema principal – Agronegócio Sustentável – o evento reuniu especialistas, gestores e consultores para discutir desafios e soluções para o setor.

“Falar em orgânicos em uma cadeia em que a produção convencional aqui é praticamente inexistente, além de ser um grande desafio, trata-se de um trabalho árduo, difícil”, disse Taissara Martins, gerente da área de Qualidade de Leite Fresco e Desenvolvimento de Fornecedores da Nestlé. De acordo com Taissara, a decisão da empresa em iniciar produção de leite orgânico deveu-se a uma demanda do mercado. “Nosso objetivo é que em 2019 tenhamos uma produção de 30 mil litros de leite por dia. Hoje, temos um produtor e 29 em processo de conversão da produção”, disse.

Com uma experiência de 20 anos, Emerson Giacomelli, coordenador do Grupo Gestor do Arroz Agroecológico, do MST, falou a respeito do legado do orgânico. “Ao longo desses anos, superamos algumas etapas e ainda temos alguns desafios pela frente. Acho que o que precisamos pensar quando se fala em produção orgânica no Brasil é a preocupação com a saúde desses produtores e com a qualidade dos produtos”, disse. “O que queremos deixar para as futuras gerações? Hoje, a agricultura orgânica não tem condições de abastecimento. É necessário planejar, investir em pesquisa, criar incentivos para produção e comercialização destes produtos para que tenhamos condições de evoluir”, concluiu.

Logística e infraestrutura

“Se todos os problemas logísticos aqui no Brasil fossem resolvidos, teríamos 35% a mais em rentabilidade. É absurdo o que se perde e o que se deixa de ganhar”, disse Gustavo Spadotti, analista do Grupo de Inteligência Territorial Estratégica – GITE, da Embrapa.

“Pra se ter uma ideia do quão falho está este sistema, temos um custo operacional em logística equivalente a 12,7% do PIB e o investimento em malha ferroviária, por exemplo, é de apenas 0,18% do PIB”, complementou Paulo Stark, CEO da Siemens Brasil. “É inconcebível pensar que tenhamos evoluído tanto na produção agropecuária e que, para o transporte de nossos produtos ainda usemos tecnologia do século XIX”, disse.

De acordo com os debatedores, o Brasil investe pouco e mal na área. “Precisamos pensar em soluções de maneira integrada. Cada um pensa em si; há cartéis, capitanias hereditárias aqui. Temos de pensar como nação”, ressaltou Spadotti.

Inovações tecnológicas

“Nos anos 1960/1970 tivemos no país um grande êxodo rural. Não há dúvidas de que nosso desenvolvimento tecnológico fez com que isso não se repetisse, garantindo a fixação do homem no campo”, disse Tarcísio Hübner, vice-presidente de Agronegócios do Banco do Brasil.

“Evoluímos muito, mas há uma discrepância no país quanto ao acesso e ao uso de tecnologia e, isso obviamente, atinge os pequenos agricultores. Há muito espaço para crescer, ainda mais num cenário bastante desafiador como os dos próximos anos – crescimento populacional, aumento e concentração de renda e de grandes centros urbanos”, disse Alexandre Alonso Alves, chefe-adjunto do setor de Transferência de Tecnologia da Embrapa.

Além do acesso, os debatedores enfatizaram a questão da democratização da tecnologia. “Acredito que o grande desafio é que a tecnologia funcione para todos, independente do tamanho da propriedade”, disse Heygler de Paula, diretor operacional da startup AgriHub.

 

 

 

Sustentabilidade do agronegócio é discutida em fórum

Promovido pelo jornal Folha de S. Paulo, evento reúne especialistas, representantes de empresas privadas e governamentais para pensar a respeito dos desafios do setor

Fórum FolhaSob o tema Agronegócio Sustentável, o jornal a Folha de São Paulo realizou em São Paulo um fórum de discussões sobre o setor reunindo especialistas, representantes governamentais e de empresas privadas e jornalistas. No primeiro dia, três temas foram abordados – Propostas do Consórcio Interestadual Brasil Central; A imagem do agronegócio brasileiro no exterior e Exportação de alimentos.

“Estamos vivendo um momento de criminalização da política. E não há caminho fora dela. Por isso, o que é pactuado deve ser respeitado, levando-se em conta as liberdades individuais”, disse Pedro Taques, governador de Mato Grosso, ao falar sobre a estratégia de ação do Estado no Consórcio Brasil Central. “Produzir, conservar e incluir. Queremos incorporar famílias de assentamento à agricultura por meio de financiamento, de microcrédito, com o objetivo de fortalecer a agricultura familiar. É por causa dela que nós comemos. Inclusão é fundamental”, disse.

Reforçando o objetivo do Consórcio Brasil Central, criado em julho de 2015 e formado por MT, GO, RO, MA, TO, MS e DF, que é o de fomentar o crescimento individual e regional com base na cooperação entre os chefes da administração pública, o governador de Goiás, Marconi Perillo, falou sobre a agenda de ações do grupo. “Trabalhamos por um mercado comum em relação à sanidade animal e vegetal, segurança pública, incentivos fiscais e questões tributárias. Atuamos em conjunto na captação de recursos federais”, disse. “O problema com a União não é nem de reconhecimento, é de conhecimento mesmo. Não sabem nem o que está acontecendo”, disse ao falar sobre a questão de ampliação das rodovias para escoamento de safra.

Imagem do agro brasileiro

“Dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável estabelecidos pela ONU, destaco dois aqui, que fazem com que o Brasil tenha um papel estratégico e fundamental: segurança alimentar e segurança hídrica, passando, obviamente, pela erradicação da pobreza”, disse Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente (MMA). “Nenhum país no mundo tem uma lei como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Mudamos o patamar e isso foi graças à iniciativa da agricultura brasileira em recuperar passivos”, completou.

“A agricultura tem um papel estruturante nesse caminho sustentável e a força do agro é importante. Não dá pra vilanizar. Não se produz alimento sem floresta. Precisamos, claro, ser mais agressivos em relação a problemas como grilagem, trabalho escravo, desmatamento. Isso tem de acabar”, reforçou Izabella. “Temos de transformar nosso modo de viver. Não é só fazer passeata na Avenida Paulista e usar bolsa de algodão. Aliás, algodão favorece o agronegócio”, ironizou.

Em contrapartida à fala da ex-ministra do MMA, Ciro Campos, analista socioambiental do Instituto Socioambiental (ISA), falou sobre o trabalho de denúncias do ISA em retrocessos ambientais do País. “O agronegócio está envolvido em muitas delas”, disse. “O agro de alta tecnologia é muito diferente do patrimonialista que estoca terras e desmata a Amazônia e o Cerrado. São dois agronegócios que, eventualmente, se fundem no Congresso Nacional e é difícil separá-los, o que prejudica a imagem do setor”, disse Campos.

“Nosso desmatamento ainda é alto. CPI da FUNAI, Renca, o estado de penúria de instituições como o IBAMA, a FUNAI, o ambiente de violência no campo coexistem com os resultados econômicos do setor e isso prejudica o país no avanço como potência mundial”, disse.

“Vamos deixar o Romantismo de lado. Nosso gigantismo depende da Amazônia. Ela é a responsável pelas chuvas na agricultura”, disse Kátia Abreu, senadora pelo Tocantins e ex-ministra da Agricultura. “Precisamos nos atentar ao fato de que 90% dos agricultores no país são de pequeno e médio e porte e somente 11% de todo setor detém tecnologia. Se tivéssemos hoje a tecnologia usada nos anos 1970, teríamos desmatado três vezes mais. O que fizemos ao longo desses anos foi uma verdadeira poupança verde aliada aos altíssimos níveis de produtividade. Isso é algo espetacular”, disse. “Nós somos o único país no mundo com reserva de terra e água e por isso esperam tanto de nós nos próximos anos”, completou Kátia.

Apesar de algumas agruras, acredita Roberto Jaguaribe, presidente da Apex-Brasil, a imagem do país ainda é positiva. “Acho que em grande medida, a imagem que se tem lá fora é produzida internamente. Existe ainda toda uma agricultura retrógrada, que precisa ser combatida. Mas a revolução tecnológica por que passou o Brasil nos últimos 50 anos é algo extraordinário”, concluiu.

Exportação de alimentos

“Nós temos seis ou sete produtos em que o Brasil é líder. Mas temos muitos outros que poderiam ser fonte de receita enorme, como leguminosas e leite”, disse Mauro Zafalon, colunista em agronegócio da Folha de S. Paulo, ao falar da necessidade de reestruturação do setor para caminhar melhor. “O agronegócio vai muito bem, mas precisamos agregar valor aos produtos brasileiros”, reforçou.

“O tema aqui é exportação de alimentos, mas acho importante dizer que somos um exportador de commodities e para que sejamos também de alimentos, temos o desafio de agregação de valor, de estabelecimento de marca”, disse Marcos Jank, presidente da Aliança Agro Ásia-Brasil. “Além disso, temos de ser coerentes com nossa política de exportação e sermos um propagador do livre comércio”, disse ao criticar a política protecionista do país.

 

Bayer lança plataforma digital para conectar produtor de café a comprador

Made in Farm permite a cafeicultores venderem seu produto diretamente a consumidores finais, estabelecimentos comerciais e compradores de café verde

Cristina Rappa

No lançamento da plataforma Made in Farm, degustação do café Recanto, do sul de MG, em restaurante na capital paulista

O agronegócio, que já emprega tecnologia de ponta nas sementes, máquinas e demais insumos, agora inaugura experiência na chamada economia compartilhada. A Bayer do Brasil lançou nesta quarta-feira, 13, em São Paulo, a plataforma Made in Farm, com o objetivo de conectar, em ambiente digital, produtores de café e o mercado consumidor.

A iniciativa da multinacional está alinhada à Rede AgroServices, plataforma colaborativa que permite múltiplas interações entre diferentes atores do agronegócio, criada pela empresa há quase três anos e que funciona por enquanto apenas no Brasil. Pela nova plataforma, o cafeicultor, especialmente os pequenos e médios  produtores de grãos especiais, poderão ter acesso aos grandes centros urbanos e potencializar oportunidades de negócios, comercializar diretamente sua produção, e ainda serem avaliados.

Qualquer semelhança com Mercado Livre, Uber, Airbnb e Booking não são mera coincidência. “O jeito de fazer negócios está mudando e precisamos embarcar nessa”, afirmou o diretor de Acesso ao Mercado da Bayer, Ivan Moreno, que disse não acreditar mais em modelos de negócios baseados apenas em redes tradicionais. “O mundo já está organizado em redes. Quando as ajudamos, temos mais oportunidades de oferecer nossos insumos e nossa inovação”, completou.

Começando com café

Qualquer produtor pode se cadastrar na plataforma, após passar pelo crivo de uma curadoria, para checar se suas práticas são sustentáveis. Por meio do site www.madeinfarm.com.br, o agricultor se cadastra, define preço, conta sua história e negocia diretamente com os interessados. Segundo Moreno, a Bayer não visa lucrar com a plataforma, mas estreitar relacionamento com os agricultores, que já são seus clientes ou não.

O sistema está sendo inaugurado com produtores de café, mas deve se expandir para outras culturas no futuro. Nesta fase inaugural, reuniu os representantes da Fazenda Recanto Machado, de Machado, no sul de Minas, e Missaki Idehara, da Franca Pitanga, misto de restaurante, cafeteria e empório que está sendo aberto no bairro dos Jardins, em São Paulo.

O casal de agrônomos Afrânio e Maria Selma Paiva – da quarta geração de proprietários da fazenda de 425 ha e fundada pela família dela em 1896 – assumiu seu controle nos anos 1990 e decidiu investir em grãos de qualidade e na preservação do ambiente. “Era uma questão de sobrevivência, uma vez que não temos como competir com quem produz em grandes extensões e com colheita mecanizada”, contou Afrânio, explicando a opção pela diferenciação do seu produto e atuação no nicho de cafés especiais.

Meio ambiente e qualidade

O cafezal, que ocupa 170 hectares em região em que a altitude varia entre 950 e 1170 metros, é composto das variedades Mundo Novo, Catuaí Amarelo, Bourbon, Catucaí, Rubi e Bourbon Anão, e rende cerca de 6 mil sacas/ano.  Cerca de 40% da área da propriedade é mantida como Área de Preservação Permanente (APP), o que garantiu ao produto, em 2006, a conquista da certificação internacional Rainforest Alliance.  “Procuramos não interferir no ambiente. Deixamos os pássaros e demais bichos plantarem e ampliarem a mata”, explicou o produtor.

Além da questão ambiental, há a busca constante pela melhoria da qualidade, do plantio à colheita, e na comercialização, área em que contam com a contribuição da filha Paula, formada em Comércio Exterior e jurada de concursos de café.

Na outra ponta da cadeia e comprando o produto da Recanto, está o engenheiro agrônomo Missaki Idehara, com experiência em fazendas, cooperativas, empresas de insumos agrícolas e, agora, em restaurante e cafeteria. “As pessoas estão aprendendo a tomar café de qualidade no Brasil. Por meio desta plataforma, vamos poder comprar micro lotes a partir de 250 gramas, para degustação, o que é vai ser bom”, disse.