Da toca para sua mesa

Pedro Paulo Diniz fala sobre o desafio de produzir orgânico em larga escala no Brasil

Entre correr contra o tempo e passar a respeitá-lo segundo as leis da natureza, Pedro Paulo Diniz, filho do conhecido empresário brasileiro Abílio Diniz, percorreu um longo caminho. Depois de morar por 11 anos na Europa atuando como piloto de Fórmula 1, resolveu voltar ao Brasil para cuidar de uma fazenda pertencente à família desde 1970 e transformá-la em uma área de produção de orgânicos. “Eu já era consumidor e passei a olhar um pouco mais pra isso e buscar informações”, conta. “Sabia que o desafio seria grande, mas não imaginava o tamanho da encrenca”, brinca.

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Para que a fazenda, com 2.300 hectares, localizada no município de Itirapina a 204 Km de São Paulo, recebesse a certificação de orgânica, três anos se passaram. “Iniciamos o processo de conversão em 2009 e somente em 2012 demos início à produção de alimentos”. A Fazenda da Toca, batizada assim por abrigar uma gruta, produz lácteos, sucos e ovos orgânicos. Inicialmente direcionados à marca Taeq, pertencente ao Grupo Pão de Açúcar, há pouco mais de um ano, está disponível em empórios, padarias e supermercados produtos da marca que levam o nome da propriedade.

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Na Fazenda da Toca, bananeira, laranjeira, eucalipto e braquiária formam um sistema simbiótico de agricultura

“Nosso desafio é mostrar que é possível produzir alimento orgânico em larga escala, com respeito à natureza e à biodiversidade. E sem extremismos; acreditamos no caminho do meio”, diz o empresário. Administrada sob os princípios do sistema agroflorestal, em que na mesma área é possível estabelecer consórcios entre espécies de importância econômica, frutíferas e hortaliças, por exemplo, a fazenda tem capacidade produtiva de 3.500 L de leite por dia, aproximadamente 20 mil ovos e conta ainda com o cultivo de limão, manga, laranja, tangerina, goiaba, entre outras culturas.

fazenda-da-toca_03É de lá que também saem os produtos que preenchem as prateleiras dos supermercados e abastecem a Mondial Brands, empresa que os distribui com excluvidade para a Grande São Paulo para o segmento de hotéis, panificadoras, restaurantes, cafeterias e empórios. Isso porque na fazenda também está localizada a unidade fabril que processa e embala os sucos, os molhos de tomate, queijos, requeijão e ovos da marca. “Entre funcionários e colaboradores, são aproximadamente 180 pessoas. Desse total, 52 famílias moram aqui”, diz Fernando Bicaletto, diretor comercial da Fazenda da Toca.

 

Sustentabilidade

Além do certificado orgânico do IBD (Inspeções e Certificações Agropecuárias e Alimentícias), a Fazenda da Toca também recebeu o selo EcoSocial concedido pelo mesmo órgão. “Somos também uma empresa do sistema B”, conta Bicaletto.

O Sistema B, no qual B se refere aos benefícios sociais que empresas podem oferecer, surgiu em 2006 nos Estados Unidos. Lá, as companhias certificadas são chamadas de B Corporation, em que B se refere a benefit corporation.

Trata-se de um movimento global que busca criar um ecossistema de Empresas B, que têm como missão redefinir o conceito de sucesso nos negócios, trocando a máxima do lucro acima de tudo por lucro com benefícios socioambientais.

O Sistema chegou à América Latina em 2011 e no Brasil, em 2013. Até agora, 49 empresas brasileiras pertencem ao movimento. Além da Fazenda da Toca, Natura e AMMA Chocolates são algumas delas.

A Fazenda ainda abriga o Instituto Toca, associação sem fins lucrativos que atua nas áreas de Educação, Saúde Integral, Cultura e Meio Ambiente. “Na escola (Toca do Futuro), trabalhamos com 45 crianças, de dois a seis anos de idade; a maioria, filho de funcionários que moram aqui. Os projetos desenvolvidos pelo Instituto são direcionados à comunidade rural local e também do entorno “, diz Fernanda Freire, coordenadora de visitas e eventos da Fazenda da Toca.

O faturamento da Fazenda da Toca em 2015 foi R$ 20 milhões. “Ainda não temos lucro. A expectativa é de que consigamos fechar a conta em 2017″, anseia Fernando Bicaletto.

“Trabalhar com agricultura respeitando os princípios da biodiversidade requer um investimento alto, mas vale a pena”, finaliza Pedro Paulo Diniz.

Agricultura orgânica

galinhas_fazenda da tocaPara ser considerado orgânico, um produto ou alimento tem de ser produzido em um ambiente de produção orgânica, que tem como base de seu processo princípios agroecológicos que contemplam o uso responsável do solo, da água, do ar e dos outros recursos naturais, com respeito às relações sociais e culturais.

Não são utilizados fertilizantes sintéticos solúveis, agrotóxicos e transgênicos.