Gado Pantaneiro, genuinamente brasileiro, tem dupla aptidão

Além da rusticidade, essencial para sobreviver no Pantanal, raça, cujos estudos para conservação estão em andamento, produz bem carne e leite

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Gado Pantaneiro criado na Fazenda Sta. Teresa da Quinta, no MS. Divulgação UEMS

O programa de recuperação da raça Pantaneiro, coordenado pelo Núcleo de Conservação de Bovinos Pantaneiros de Aquidauana (Nubopan), da unidade de Aquidauana da a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), iniciado e 2009, tem se dedicado agora a identificar e selecionar animais com bom potencial para ganho de peso de produção leiteira, formando assim as linhas de corte e leite.

De origem europeia, esses animais ainda são altamente rústicos. Vindo ao Brasil com os colonizadores, há mais de quatrocentos anos, sofreram intensa seleção natural, o que levou a um gado altamente adaptado às condições ambientais extremas do Pantanal, como elevada tolerância ao calor, aos ecto-endo-parasitas e ao ciclo anual das águas, com períodos intermitentes de seca e alagamentos prolongados.

Todavia, os bovinos Pantaneiros conservaram de seus ancestrais europeus a elevada habilidade materna, a boa capacidade para produção de leite e uma carne diferenciada, macia e com bom marmoreio.

Os experimentos conduzidos no Nubopan verificaram que as novilhas primíparas da raça produzem de 6 a 7 litros de leite/animal/dia (média lactacional). Esta produção não chega perto de uma vaca Jersey ou Holandesa, que produzem de 20 a 25 l/vaca/dia, o que é um número interessante, se se pensar que a produção média de leite no Mato Grosso do Sul está em 2,2 litros/vaca/dia.

Rusticidade

Os marcadores moleculares têm auxiliado os pesquisadores a encontrar a origem da rusticidade do gado Pantaneiro. O gene Thrifty, por exemplo, extremamente raro em bovinos europeus, foi encontrado em 30% da população do Nubopan. “Animal que não se adaptou ao ambiente hostil do Pantanal, morreu. Sobraram somente os resistentes”, explica o Prof. Marcus Vinícius Moraes de Oliveira, coordenador do programa.

Segundo o pesquisador, os animais da raça são os únicos bovinos que conseguem pastorear em regiões alagadas. Também modificaram seu hábito de pastejo, se alimentando nas horas frescas do dia e à noite. A cobertura das fêmeas pelos touros também ocorre normalmente à noite, quando as temperaturas são mais baixas. A pele escura e os pelos claros ainda contribuem para a adaptação às temperaturas elevadas.

Legado

“Buscamos fortalecer as linhagens para que, em breve, os criadores possam, ao abrir catálogos de sêmen, encontrar touros pantaneiros”, diz o pesquisador. “Será um legado aos produtores e mais uma opção de criação dentre as raças hoje no mercado”, completa, afirmando que espera que esta meta seja atingida nos próximos dez anos.

De acordo com Oliveira, neste ano já existe a possibilidade de haver o primeiro tourinho da raça, cujo destaque é a rusticidade – por ser portador do gene Thrifty – em uma central de coleta de sêmen. Até o final do ano, deverão ser finalizadas as seleções das linhagens com vocação para carne e leite.

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