Cientistas sequenciam o genoma do ipê-roxo

Estudo pode contribuir para o rastreamento e combate à exploração clandestina da madeira de uma das árvores brasileiras mais belas e emblemáticas, além de ser ferramenta para preservação do Cerrado

Redação*

Evandro Novaes

Ipê-roxo: além de bonito, madeira de alta qualidade.

Cientistas da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e da Universidade Federal de Goiás (UFG) sequenciaram, pela primeira vez, o genoma de uma espécie nativa do Cerrado: o ipê-roxo (Handroanthus impetiginosus). Os estudos tiveram início em 2013 e os resultados foram publicados em dezembro na revista científica GigaScience, da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Admirada por sua beleza, a árvore do ipê-roxo fornece ainda uma madeira densa, de alta qualidade, resistente ao ataque de insetos e à ação do fogo, o que a faz ser conhecida hoje como o novo mogno. Daí ser atraente para a indústria, sendo ideal para a fabricação de pisos, decks e assoalhos.

Além disso, devido à produção e ao armazenamento de compostos químicos de interesse para a área de saúde, é uma árvore bastante visada para exploração de produtos medicinais. No Brasil, uma fração significativa da sua exploração madeireira acontece clandestinamente, sem manejo certificado.

É aí que entra a pesquisa genômica. De acordo com os cientistas da Embrapa, uma possível aplicação do sequenciamento do ipê-roxo é auxiliar órgãos ambientais na análise forense para combater a exploração clandestina de madeira. A genotipagem pode auxiliar os órgãos ambientais a rastrearem as árvores exploradas ilegalmente.

Segundo o pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, o físico Orzenil Silva-Junior, primeiro autor do artigo, o ipê-roxo foi escolhido por sua importância ecológica no bioma, por já contar com informações técnicas importantes (caracterização molecular e análise filogeográfica preliminares), e também pelo grande acervo de material biológico adquirido graças à ampla coleta realizada no início da pesquisa pela professora Rosane Collevatti, do Laboratório de Genética & Biodiversidade da UFG. Orzenil explica que o sequenciamento do ipê-roxo não teria sido possível sem a expertise desse grupo com espécies nativas do Cerrado. “Trabalham há anos na compreensão da distribuição das populações da espécie, a partir de dados ecológicos, demográficos, geográficos e genéticos”, diz.

O estudo teve apoio financeiro da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), além da rede NEXTREE FAP-DF/Pronex, liderada pelo cientista da Embrapa.

Ferramentas para a conservação de espécies nativas

O sequenciamento do genoma de espécies nativas do Cerrado otimiza e reduz os custos de conservação em todas as etapas, começando pela coleta de material genético, explica Orzenil. No caso do ipê-roxo – espécie encontrada nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste do Brasil, estendendo-se até a Bolívia e regiões secas dos Andes no Peru até o México, com um número de subgrupos geneticamente diversos – as ferramentas genômicas podem auxiliar a racionalizar a coleta, reduzindo custos e esforços, permitindo a organização das ações de acordo com o conhecimento da diversidade genética dessa árvore.

Para a conservação e uso sustentável do ipê-roxo, o conhecimento molecular pode ajudar a selecionar genótipos, além de evitar redundância.

A equipe comemora ter conseguido estabelecer uma plataforma de alto desempenho para genotipagem de espécies de Handroanthus, abrindo caminho para a análise genética de outras espécies nativas do Cerrado. “Está claro, atualmente, que cada genoma conta uma história particular, mas o conhecimento adquirido facilita os novos desafios, especialmente no campo da análise. Em menos de quatro anos, já temos uma base de ativos biológicos para investigar variantes genéticas descobertas em cerca de 17 mil de 28 mil genes bem anotados no genoma da espécie”, afirma o pesquisador da Embrapa. Estudos com outras plantas do Cerrado, como caju, mangaba, baru, cagaiteira e a ameaçada dedaleiro, já foram iniciados.

Avanços genômicos sobre espécies nativas do Cerrado representam mais uma esperança para este bioma, que, depois da Mata Atlântica, é o ecossistema brasileiro que mais sofreu alterações com a ocupação humana. Hoje, apenas 0,85% do Cerrado encontra-se oficialmente em unidades de conservação. Cerca de 80% já foram modificados pelo homem em decorrência da expansão agropecuária, urbana e construção de estradas e somente 19,15% da área mantém a vegetação original.

• com informações da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia.

 Foto de Evandro Novaes/Divulgação Embrapa.