Pesquisa estuda alternativas para reduzir uso de drogas em bovinos de leite

Projeto conduzido pela Embrapa testa produtos homeopáticos e fitoterápicos, entre outros. Objetivo é reduzir riscos de resistência de bactérias e parasitas, além dos resíduos nos subprodutos

Redação*

Foto: Manuela Bergamim/Embrapa

Manter comedouros e bebedouros limpos é importante para prevenir doenças nos bezerros. Foto: Manuela Bergamim/Embrapa

Preocupados com o uso inadequado ou indiscriminado de medicamentos veterinários na produção animal, que pode aumentar os riscos associados à resistência aos antibióticos e antiparasitários e as chances de surgimento e propagação de bactérias e parasitas resistentes, pesquisadores da Embrapa Pecuária Sudeste têm estudado o uso de homeopatia, fitoterapia, adição de mineral e manejo biológico no controle de três doenças do gado leiteiro, como diarreia de bezerros, carrapato e mastite. Esses tratamentos alternativos, aliados a boas práticas de manejo, têm apresentado resultados promissores, sendo que algumas pesquisas já foram concluídas, como homeopatia e utilização de zeólita, um tipo de mineral, para controle da diarreia em bezerros.

“Normalmente, as doenças dos bovinos são tratadas com antibióticos. Mas a maioria das bactérias ou parasitas já está bastante resistente aos medicamentos. A tendência é a droga veterinária não funcionar ou funcionar parcialmente”, explica, em nota, a pesquisadora Ana Carolina Chagas, da Embrapa. Segundo ela, quando isso ocorre, muitos produtores aumentam a dose do medicamento, diminuem o intervalo de aplicação ou não respeitam o período de carência do abate ou de venda do leite. “Há risco de intoxicação animal e resíduos de drogas veterinárias nos alimentos”, diz.

Homeopatia para diarreia

Em experimento inicado em 2015, foi aplicada, preventivamente, homeopatia, aliada a zeólita, no tratamento de bezerros da raça Holandeza ou Holandês com Jersey. Cerca de 25% dos animais tratados por meio da homeopatia preventiva não apresentaram nenhum caso de diarreia no período investigado. Nos outros dois grupos, todos os animais tiveram uma ocorrência, pelo menos, de diarreia no transcorrer da pesquisa.

Além da saúde e bem-estar, o resultado reflete diretamente no bolso, com economia em torno de R$ 10 por indivíduo só com uso de medicamentos, de acordo com os pesquisadores da Embrapa. “Além disso, não se pode ignorar a otimização do tempo com mão de obra e contratação de profissionais. E o mais importante foi a prevenção. “Conseguimos prevenir e reduzir o uso de antibióticos”, afirma Teresa Alves.

O grupo que recebeu o mineral zeólita não apresentou redução nos casos de diarreia. No entanto, a análise de amostras do intestino delgado, por meio de Microscopia Eletrônica de Varredura (MEV), demonstrou melhor preservação do epitélio intestinal, diminuindo a frequência de diarreia.

Manejo adequado

Outra medida importante e que contribui muito para redução da diarreia em bezerros é o manejo adequado, como garantir que o animal receba o colostro nas primeiras seis horas de vida.

A higiene também pode evitar a doença. Deve-se higienizar comedouro, bebedouro e todos os equipamentos usados para fornecimento de leite. Em caso de mamadeira, deve-se utilizar um bico para cada bezerro ou lavar antes de dar a outro filhote, para evitar a transmissão dos microrganismos.

Outra ação de extrema importância é separar os animais para evitar contato entre eles para não ocorrer contaminação cruzada. Os animais que apresentam sintomas da doença devem ser isolados para não transmitir aos outros. É importante o acompanhamento de um médico veterinário em casos de contaminação do rebanho.

É recomendado controlar a contaminação do local onde os filhotes ficam, pois a umidade e a sujeira aumentam a proliferação dos agentes transmissores. “Deve-se estar atento aos fatores que aumentam o risco de ocorrência da diarreia, tais como estação de nascimento, peso pós-parto e necessidade de tratamento para outras doenças antes de duas primeiras semanas de vida dos bezerros”, ressalta Ana Carolina.

Essas atitudes, associadas às medidas preventivas, reduzem significativamente as chances de o bezerro ser infectado com a doença e reduzem os prejuízos físicos e financeiros que a diarreia pode causar. Os pesquisadores se dedicam agora a avaliar o uso de medicamentos homeopáticos para prevenção de mastite e controle de carrapato.

As condições climáticas brasileiras favorecem a reprodução de parasitas, a proliferação de bactérias e de organismos que causam doenças em animais. Tal fato, segundo a pesquisadora Ana Carolina, contribui para o uso intenso de drogas veterinárias. Na maioria das vezes, o tratamento com medicamentos é realizado sem consulta a especialistas e de forma indiscriminada. Alternativas – como a fitoterapia, a homeopatia e o uso de minerais – podem contribuir para a melhoria da saúde animal e, ainda, reduzir a utilização de antibióticos e antiparasitários, prolongando a vida útil dos produtos comerciais hoje disponíveis e diminuindo os riscos da resistência e contaminação ambiental.

Sistema de cria em estacas 

A diarreia está entre as principais causas de morte de bezerras, trazendo prejuízos para os produtores de leite, tanto pela perda de futuras vacas como pela necessidade de utilização de medicamentos. Uma técnica que já é empregada no Uruguai e vem sendo testada pela Embrapa Pecuária Sul está alcançando bons resultados na diminuição da incidência de diarreia: o sistema de cria em bezerras em estacas. Nesse sistema, a bezerra é apartada da mãe logo após o nascimento e presa em uma estaca em local sombreado com árvores ou sombrite. Com uma corda de cerca de 2,5 metros, o animal tem espaço para se movimentar e o leite é servido em balde colocado em um arco próximo à estaca. Na primeira semana, ainda começam a ser oferecidos concentrados em pequena quantidade, e feno, que fica no espaço entre duas estacas.

De acordo com a pesquisadora Renata Suñe, o fato de as bezerras não estarem em contato direto com outros animais – como nos sistemas convencionais de cria – diminui muito a incidência de diarreia causada por contágios. “Quando o animal fica doente, o tratamento é individualizado, diminuindo a necessidade de uso de medicamentos de forma mais ampla”, explica. Em sistemas convencionais, a aglomeração de animais e a umidade que pode estar no local onde são mantidos são determinantes na incidência de diarreias e pneumonias. Isso leva a um baixo desempenho dos animais, além de gastos com medicamentos e prejuízos com a morte de bezerras.

Para avaliar a aplicação desse sistema, foram instaladas três Unidades de Referências Tecnológicas (URTs) no município de Santana do Livramento (RS). Segundo Renata, além da diminuição de diarreia e do uso de medicamentos, outra vantagem com a cria de bezerras em estacas é um maior ganho de peso, que tem sido de 28%, em média, quando comparado aos sistemas convencionais.

Para Nilton Soares Garcia, pequeno produtor de leite e proprietário da fazenda onde está instalada uma das URTs, a primeira experiência com a adoção do sistema foi bastante positiva. “O que mais me chamou a atenção foi o desenvolvimento da bezerra. Em quatro meses desde que começamos, o animal teve um ganho de peso bem maior e vai poder entrar no sistema de produção mais cedo”, ressaltou Garcia.

*com informações da Embrapa.