Programa prevê recuperação do gado Pantaneiro

Raça bovina de origem europeia, resultado de seleção natural no Pantanal, está ameaçada de extinção e vem sendo estudada por equipe da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS)

Pantaneiro Fazenda São Gerônimo - MT b

Gado Pantaneiro criado na fazenda S. Gerônimo, em Rondonópolis/MT. Divulgação UEMS

O gado Pantaneiro, conhecido popularmente como Cuiabano, corre o risco de se manter vivo apenas em verso-e-prosa, como nas canções regionais em que costuma ser destacado. Isso porque, apesar de seus mais de quatro séculos de existência, nos últimos cem anos (1916 a 2016) sua população caiu de 3 milhões de cabeças para cerca de 500 indivíduos puros.

A chance de recuperação desta raça bovina, resultado do cruzamento e seleção entre animais trazidos pelos colonizadores da América do Sul – espanhóis e portugueses – aparece com o projeto de pesquisa coordenado pelo Núcleo de Conservação de Bovinos Pantaneiros de Aquidauana (Nubopan), da unidade de Aquidauana da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). As pesquisas tiverem início em 2009, com a  aquisição de 15 bezerras recém-desmamadas, adquiridas em sistema de parceria com a Emprapa Pantanal.

Pesquisa genética, feita na Universidade de Córdoba, na Espanha, que detém o maior banco genético bovino do mundo, mostrou que o Pantaneiro tem origem em onze raças europeias puras. “A seleção natural resultou em um animal totalmente adaptado às condições do Pantanal”, explica o Prof. Marcus Vinícius Moraes de Oliveira, coordenador dos estudos.

A origem europeia revela-se na ausência do cupim, na quase falta de umbigo e na presença  de barbela. Outras características da raça, que é bastante resistente ao ambiente alagado do bioma por diversos meses do ano, são os chifres grandes e elegantes, e a pelagem, que muda conforme a época do ano e proporciona um certo mimetismo na paisagem, confundindo os predadores. Por falar em predadores, a característica comportamental desse rebanho, de se agrupar ao sentir a presença do inimigo, o faz levar vantagem diante de possíveis ataques de onças. O que não acontece com o Nelore, por exemplo.

Mas não são os aspectos visuais e comportamentais da raça que levaram ao projeto de conservação. O gado Pantaneiro, além da forte resistência ao ambiente, tem aptidão para produção de carne e leite.

O declínio

Mas, com todas essas qualidades, o que quase levou a raça à extinção?

Um dos fatores foi o chifre vistoso, afirma o Prof. Oliveira, da UEMS. Que dificultava a acomodação nos trens, um dos meios de transporte do rebanho ao centro consumidor na época: São Paulo. Outro seriam as pernas mais curtas, que faziam com que os animais da raça chegassem com mais dificuldade que os Nelore da marcha (comitiva de gado) ao estado do Sudeste. Dessa forma, a pressão do centro consumidor, o mercado paulista, que pagava mais pelo Nelore, desestimulou a criação dos pantaneiros.

Além disso, o touro Pantaneiro, com libido mais alta que o de outras raças e muito territorial, impedia a convivência com os touros Nelore. Isso pode ser comprovado ainda hoje, ao se observar a baixa incidência de animais meio-sangue nelore-pantaneiro em rebanhos Pantaneiros ainda em estado feral. Desta forma, o produtor naquela época só tinha uma opção castrar todos os touros Pantaneiros e introduzir os touros nelore no rebanho de vacas Pantaneiras, para produção dos animais ½ sangue. Assim, por meio de um cruzamento absorvente, pouco a pouco o gado Pantaneiro foi desaparecendo e o nelore tornou-se o principal grupo genético criado atualmente no Pantanal.

Outro fato que corroborou os cruzamentos foi o fato dos ½ sangue nelore-pantaneiro serem corporeamente superiores, zootecnicamente explicado pelo efeito da heterose entre grupos taurinos (bos taurus) e zebuínos (bos índicus).  Todos esses fatores praticamente levaram à quase extinção da raça Pantaneira.

O programa

Cientes do risco, os pesquisadores da Universidade deram início ao projeto. Das 15 fêmeas iniciais, obtidas na Embrapa Pantanal, hoje há quase 140 matrizes, e têm sido feitas parcerias com diversos criadores locais, para multiplicação do rebanho.

Divulgação

Prof. Marcus Oliveira: “O Brasil não pode perder este patrimônio genético”

Identificados esses criadores, há a introdução de touros nas propriedades que mantêm algumas cabeças para produção de leite, a fim de reduzir os problemas de consanguinidade, normais nesses rebanhos isolados e reduzidos.

Perguntado sobre quando termina o projeto e quais seus principais objetivos, o pesquisador responde que o projeto basicamente não tem fim e que vai evoluindo. Quanto aos objetivos, o primeiro é a preservação da raça. “O Brasil não pode perder este patrimônio genético”, enfatiza. O segundo objetivo é oferecer uma opção com bom potencial em termos de produção de carne e leite, e rusticidade, aos criadores de Nelore da região (MT e MS), mas com capacidade de adaptação e boa produção em outras regiões, desde que de clima quente.

O projeto, em que foram gastos R$ 3,5 milhões até agora e que reúne uma rede de professores e pesquisadores da UEMS, Universidade Federal de Goiás (UFG) e Embrapa, conta com uma série de financiadores: os ministérios da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e Educação e Cultura (MEC), o Centro de Pesquisa do Pantanal (CPP), a Rede Pró-Centro Oeste, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Financiadora de Estudos  e Projetos (Finep) e a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (Fundect).

Leia ainda:

Gado Pantaneiro tem dupla aptidão

Fotos: Divulgação UEMS