Manejo integrado é caminho possível para o controle de pragas, acredita Arysta

O mercado mundial de produtos biológicos para o controle de pragas, os biodefensivos, tem registrado índices de crescimento cinco vezes superiores ao da indústria de defensivos químicos. A tendência é a mesma no Brasil, motivada por fatores como resistência de pragas, necessidade de reduzir custos de produção e apelo do consumidor por alimentos livres de resíduos químicos. Alinhada a essa tendência, a Arysta LifeScience tem apostado cada vez mais na associação dos químicos com os biológicos em seu portfólio.

Leia na entrevista com o engenheiro agrônomo Lucas Rona, gerente LatAm Pronutiva da empresa:

Lucas

O senhor poderia nos explicar o conceito de saúde vegetal e como a Arysta o enxerga?

Há uma demanda cada vez mais forte por alimentos e isto não se refere somente à quantidade, mas também à qualidade e que o produto seja fruto de uma agricultura sustentável.
O alimento que todos querem deve ter menos resíduo químico e é melhor do ponto de vista nutricional. Assim, o conceito de saúde vegetal desenvolvido pela Arysta aqui no Brasil enxerga que alimento deve ser cuidado desde o cultivo até à mesa do consumidor.

De uns anos pra cá, a indústria química tem voltado seus olhos e até investido em soluções biológicas em seu portfólio. Você enxerga o manejo integrado como um caminho natural do setor?

Não posso falar por toda a indústria. Há indústrias de soluções biológicas que se voltam somente para o orgânico, por exemplo. O que posso dizer é que a Arysta já vem trabalhando com essa associação – químicos e biológicos – há 10 anos. Não de uma forma tão sistemática como agora, mas desde essa época sempre apresentamos a combinação como uma solução, que se mostra mais eficaz, do ponto de vista da proteção de cultivos; do menor uso de defensivos químicos e, consequentemente, melhora no manejo de resíduos; de maior produtividade e maior tempo de prateleira do produto.
Em relação a custo, o que precisamos analisar é quanto se gasta por unidade produzida. Em culturas como a cana-de-açúcar, pudemos observar uma redução de até 90% dos custos de produção, na associação com os biológicos.

Os biológicos crescem no mundo a uma taxa de 15% ao ano, cerca de cinco vezes mais do que os defensivos químicos, segundo dados da ABCBio, a associação do setor; mas ainda representam cerca de 1% desse mercado de controle de pragas. Como vão chegar ao campo, de fato, como uma solução?

Alf Ribeiro

Vendas de biológicos crescem 15% a.a.

Há ainda muito trabalho a se fazer com os agricultores e a própria cadeia também precisa se voltar mais para isso. A tecnologia no campo é uma realidade cada vez mais presente. Associados a isso, os custos cada vez mais altos, o acesso ao crédito mais difícil, além de uma demanda crescente por alimentos livres de resíduos químicos, como já citei, são fatores que levam o produtor rural a buscar soluções que lhe deem o máximo do potencial genético de uma planta e, ao mesmo tempo, lhe garantam mais rentabilidade. É aí que os biológicos entram. É um mercado muito pequeno, mas que vem crescendo de forma exponencial (cerca de 15% ao ano) e, por isso, vem se consolidando como uma tendência.

Que tipo de cultivo tem adotado mais o uso de biológicos no campo?

Em virtude do tamanho de seu mercado, a soja tem utilizado mais essa solução.

Além da aposta no controle biológico, a Arysta LifeScience, participa de uma iniciativa de proteção às abelhas, que são forte aliadas da agricultura, pela polinização. O senhor poderia falar um pouco dessa iniciativa?

A Arysta é  signatária do Compromisso 2020,  com um plano de metas até o ano de 2020 elaborado pelo projeto Colmeia Viva®, iniciativa do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg) que estimula a valorização da proteção racional dos cultivos, serviço de polinização realizado pelas abelhas, proteção da biodiversidade e respeito à apicultura.

O tema traz muita preocupação e sua solução exige a união de forças dos vários agentes da cadeia da produção e alimentos, com muito comprometimento e responsabilidade. Além de participar do Colmeia Viva® , a Arysta lançou há 10 anos o programa Aplique Bem, que já treinou mais de 60 mil agricultores em todo Brasil sobre a importância da aplicação correta e responsável de defensivos agrícolas.

* com Sílvia Sibalde. 

Foto do entrevistado: Divulgação/Arysta; foto de pulverização: Alf Ribeiro.

 

Manutenção da diversidade florestal contribui para aumentar em até 25% a produvidade do açaí

Estudo mostra que presença de polinizadores – como abelhas, moscas, besouros e vespas – encontrados na floresta, resulta em maior produtividade, em comparação com plantio apenas da variedade comercial

Redação*

Cristiano Menezes/Embrapa

Abelha sem ferrão alimenta-se em flor de açaí. Foto: Cristiano Menezes

A diversidade de insetos polinizadores em áreas de açaizais pode responder por um acréscimo de até 25% na produção de frutos de açaí em cada planta. A relação entre floresta nativa, presença de polinizadores e produção do açaí é a principal conclusão de artigo publicado pelo pesquisador Alistair Campbell, pesquisador visitante na Embrapa Amazônia Oriental e na Universidade Federal do Pará, em Belém (PA), e seus colaboradores na revista Journal of Applied Ecology.

A pesquisa comparou os polinizadores e a produção de frutos de açaí em 18 áreas no delta do rio Amazonas, desde açaizais nativos nas várzeas com diferentes graus de intervenção até monocultivos em terra firme. Observou-se que as flores do açaí são visitadas por cerca de 200 espécies de insetos, das quais mais de 100 são polinizadores potenciais, ou seja, visitam tanto as flores masculinas como as femininas. Esse grupo inclui abelhas, moscas, besouros e vespas.

“Nas áreas de açaizais nativos com manejo de alto impacto, onde restaram apenas as palmeiras de açaí, a quantidade e a diversidade de polinizadores é menor”, afirma Campbell. “Em razão disso, a produção de frutos também diminui, pois a polinização das flores do açaí é altamente dependente do serviço prestado pelos insetos”, conclui o pesquisador.

Entre os polinizadores do açaí, o artigo mostra também que as abelhas nativas são as que mais sofrem com a diminuição da diversidade florestal. De acordo com a pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental Márcia Maués, que também assina o artigo, a riqueza de abelhas está altamente relacionada à diversidade de espécies florestais, principalmente por conta da alta dependência das abelhas pelas árvores maiores para construção de seus ninhos. Além disso, na floresta são encontradas flores ao longo do ano, para manter colônias perenes. “Diferente dos outros insetos, as abelhas dependem exclusivamente do pólen e do néctar para se alimentar ao longo de todo o ciclo de vida”, explica Márcia.

Manejo de mínimo impacto

A palmeira do açaí (Euterpe oleracea Mart.) é nativa das áreas de várzea do delta do rio Amazonas, onde ocorre em abundância. O fruto roxo, rico em antioxidantes, é um alimento tradicional nas comunidades da Amazônia e apresenta uma procura crescente em função das suas propriedades funcionais. A cada ano cerca de 1 milhão de toneladas de açaí são produzidas no estado do Pará.

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Área de várzea com açaizal manejado, em Abaetetuba (PA). Foto: Alistair Campbell

A demanda crescente garante bons preços ao fruto e o ribeirinho busca elevar a produção das áreas de açaizais por meio da eliminação das demais espécies, convertendo a várzea em uma “floresta de açaí”. Os autores do artigo concluem que essa conversão de florestas nativas da área de várzea em monoculturas de açaí pode trazer consequências negativas tanto para as comunidades de polinizadores quanto a produção de açaí na região amazônica.

A descoberta bate com o que propõe a tecnologia “Manejo de mínimo impacto para produção de frutos em açaizais nativos“, desenvolvida pela Embrapa para as áreas de várzea do delta do rio Amazonas e que recomenda que haja uma proporção adequada entre o número de touceiras de açaí e demais espécies florestais.

*com informações da Embrapa Amazônia Oriental

A dizimação das abelhas e seus impactos

Artigo publicado pela Science destaca dez diretrizes para elaboração de políticas públicas voltadas à preservação de polinizadores

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Carmem Pires, pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e umas das autoras do artigo publicado pela Science

Um fenômeno observado em 2006 nos Estados Unidos e, posteriormente, em alguns países da Europa, vem intrigando cientistas e chamando a atenção de autoridades e da sociedade civil, como um todo – o declínio das populações de polinizadores. O distúrbio do colapso das colônias (Colony Collapse Disorder – CCD) refere-se à dizimação em massa de populações de abelhas, problema hoje que ocorre em diversos países do mundo. Acredita-se que o CCD é causado por uma combinação de fatores – nutrição, manejo, patógenos, parasitas e o uso indiscriminado de agrotóxicos.

A edição online da revista norte-americana Science deste mês destaca artigo que aponta dez prioridades de políticas públicas para proteger os polinizadores. Baseado em um estudo coordenado pela Plataforma Intergovernamental para Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), que reuniu especialistas do Reino Unido, Brasil, Suécia, México, Austrália, Argentina e Japão, o tema será discutido agora em dezembro em Cancun, no México, na 13ª Conferência das Partes da Convenção da Diversidade Biológica (COP/CDB). “O que sugerimos são medidas de mitigação para proteger esses polinizadores e garantir um futuro mais saudável e sustentável”, diz Carmem Pires, uma das autoras do artigo e também pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia.

Associada a outros insetos e animais, as abelhas têm responsabilidade direta no aumento da produtividade agrícola, visto que cerca de 70% das plantas utilizadas para o consumo humano dependem de polinização. “Aqui no Brasil, não temos dados oficiais; não há monitoramento. O que temos são relatos de casos similares de enfraquecimento e colapso de abelhas nos estados de São Paulo e Santa Catarina. Mas as causas não foram identificadas”, conta Carmem.

No País, das 141 espécies de plantas cultivadas para uso na alimentação humana, produção animal, biodiesel e fibras, aproximadamente 60% ou 85 espécies dependem da polinização animal. Isso sem contar a produção de mel, que movimenta cerca de R$ 300 milhões por ano. “O impacto da dizimação desses insetos é devastador. Precisamos sensibilizar produtores com dados que apontem uma relação direta entre estes polinizadores e a produtividade agrícola. Faz-se necessário fortalecer serviços de extensão a esses produtores, capacitar técnicos para estas questões. Qualquer política pública adotada para este problema pode impactar”, alerta a pesquisadora.

Medidas de mitigação

As dez diretrizes sugeridas no artigo publicado pela Science para auxiliar Governos na elaboração de políticas públicas voltadas à preservação de polinizadores são:abelha-iii

1 – Aprimorar os padrões regulatórios de pesticidas;

2 – Promover o manejo integrado de pragas (MIP);

3 – Incluir efeitos indiretos e subletais na avaliação de riscos de culturas geneticamente modificadas;

4 – Regular o movimento dos polinizadores manejados entre os países;

5 – Desenvolver incentivos, tais como seguros, para incentivar os agricultores a utilizar serviços ecossistêmicos, como polinização, ao invés de agroquímicos;

6 – Reconhecer a polinização como insumo agrícola nos serviços de extensão;

7 – Apoiar sistemas agrícolas diversificados;

8 – Conservar e restaurar os habitats de polinizadores nas paisagens agrícolas e urbanas;

9 – Desenvolver o monitoramento de polinizadores a longo prazo;

10 – Financiar pesquisas participativas para intensificar o uso de práticas de agricultura orgânica.