Fortalecer o ABC

Por Coriolano Xavier*

23.03.2012 - ANDEF Fotos: Tatiana FerroDesde que foi criado, em 2010, o Programa ABC para financiamento da agricultura de baixo carbono nunca apresentou 100% de desempenho, comparando recursos ofertados e contratados. Já bateu 90% em 2012/13, mas recuou depois: na safra 2015/16 a contratação foi de 68% (R$2 bilhões) e caiu mais em 2016/17, ficando em 63% (R$1,8 bilhão). Essa redução vem sendo atribuída às incertezas da crise brasileira, à elevação dos juros e à atratividade de outras linhas de crédito. Mas, é bem provável que seja tudo isso e mais um pouco.

Em abril deste ano, o Observatório ABC divulgou estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) que corrobora isso¹. O trabalho foi conduzido em área do Mato Grosso e pesquisou a percepção de produtores rurais, técnicos e agentes financeiros sobre as condições de acesso, pagamento e desenvolvimento de projetos dentro do Programa ABC. Nesse estudo, os pesquisadores detectaram vários pontos que podem estar alimentando certo desinteresse pelo programa.

Um dos fatores é sua perda de competitividade nos juros, que começaram em 5,5% ao ano e hoje chegam a 8,5% — nível superior ao do Pronaf (agricultura familiar). Em áreas onde a maioria dos produtores já tem acesso a esta modalidade, automaticamente cai a atratividade do ABC, que também perde apelo para linhas como o FCO. Isso foi observado na região estudada pela FGV, em que o Pronaf era alternativa viável para cerca de 80% dos produtores.

Os agricultores também percebem o programa como complexo, burocrático, demorado, com muito vai e vem do processo. Vários mostram baixo conhecimento das características e benefícios do ABC, sem contar a natural instabilidade na margem dos produtores, que pode impactar sua capacidade de endividamento. Pecuaristas com falta de alternativa de vendas e suinocultores afetados pela crise dos grãos foram dois exemplos recentes deste fator inibidor.

Tais pontos já colocam de cara dois bons desafios para fortalecer o marketing educativo do ABC. Conciliar melhor sustentabilidade ambiental e econômica na difusão do programa, enfatizando bem esta última, pois sem ela não há sustentabilidade operacional. E também pensar em mecanismos mais eficazes de comunicação com todos os elos do sistema – produtor, técnico e agente financeiro, principalmente o primeiro, que é o cliente final.

Outros caminhos para melhorar o desempenho do ABC são apontados pela pesquisa. Por exemplo, resgatar o atrativo dos juros, criar modelos de projeto, dividir em etapas, ampliar o alcance do programa entre pequenos produtores, investir em multiplicadores, envolver mais as cooperativas, sindicatos, associações, prefeituras e escolas. A elas acrescentaria, ainda, a mídia. Um desafio a ser solucionado com ações integradas e conectadas de fato com as várias realidades de produção.

O Programa ABC é jovem. Precisa tempo para amadurecer. Tem por alvo mudar modelos de produção, algo diferente de custeio ou compra de bem específico, cujo financiamento já está assimilado pela cultura do campo.  O ABC é estratégico.  Importante para a competitividade futura do nosso agro, também para os compromissos do Brasil no acordo global sobre mudança do clima. Tem que ser levado adiante com equilíbrio e aperfeiçoamento contínuo.

(1)      “Identificação e Análise dos Desafios dos Produtores Rurais na Adoção de Tecnologias Voltadas à Emissão de Baixo Carbono, Via Programa ABC”, estudo de caso em Alta Floresta/MT, projeto do Observatório ABC, realização do Centro de Agronegócio da FGV (GV Agro).

* Coriolano Xavier é Vice-Presidente de Comunicação do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), Professor do Núcleo de Estudos do Agronegócio da ESPM.

Amazônia Legal pode ter agricultura sustentável, mostra estudo

Técnicos do Observatório ABC indicam práticas agroambientais para aproveitamento dos 74 milhões desmatados na região. Estudo mostra que intensificação levou ao aumento da produção com redução do desmatamento

Morguefile

Cacau é uma das culturas que podem ser integradas dentro dos sistemas agroflorestais, na região

Da constatação de que há 74 milhões de hectares desmatados por corte raso na Amazônia surgiu a ideia-mãe do Projeto Amazônia – Propostas para a exploração agrícola sustentável: “modificar essa área de forma inteligente, mantendo a região produtiva e conservando seus recursos naturais”, explicou Eduardo D. Assad, pesquisador da Embrapa, coordenador da sub-rede Clima e Agricultura da Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima), do Ministério de Ciência e Tecnologia e Inovação, e professor do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas, o GV Agro. O projeto foi apresentado na comemoração dos 10 anos do GV Agro, que coordena o Observatório ABC, na sexta-feira 18, em São Paulo.

O estudo mapeou 772 municípios da Amazônia Legal, como Paragominas, São Feliz do Xingu (PA), Alta Floresta (MT) e Porto Velho (RO), onde foram observados os maiores índices de desmatamento até o início dos anos 2000, quando o governo começou a tomar medidas mais sérias para conter sua expansão, como a punição dos desmatadores. Um dos motivos, bem pragmático, foi o temor de que barreiras tarifárias fossem impostas dificultando as exportações de produtos brasileiros, como a carne e a soja.

Uma das primeiras medidas foi checar se a agropecuária era de fato a grande vilã de derrubada da mata nativa. No cruzamento dos dados do desmatamento com o Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE) da região, foi observado um índice máximo de redução de 15% das reservas naturais das propriedades, o que derrubou alguns mitos de que eram os proprietários rurais os grandes causadores de desmatamento, contou Assad.

Pecuária saindo na frente

O projeto ainda apontou que de 1990 a 2015 houve intensificação agrícola, com incremento do uso de tecnologia, resultando no aumento da produção com redução do desmatamento. A resposta da pecuária foi bem forte, mostraram os dados, com um incremento de 125% na produção do rebanho bovino, seguido pelo ovino (100%) e pela avicultura (82%).

Em Alta Floresta, por exemplo, passou-se de 0,16 unidade cabeça de gado (ua)/ha em 1990, para 0,83 ua/ha em 2014. O aumento da intensificação permitirá que atinja a 2,47 ua. “Há uma nova geração de jovens pecuaristas tocando os negócios da família e incrementando o uso de novas tecnologias”, revelou Assad, celebrando a chegada, um dia, da “carne carbono neutro”.

O pesquisador informou ainda que o estudo mostrou que o índice de vulnerabilidade social (IVS) desses 772 municípios apontou uma melhoria na qualidade de vida e das condições de vida da população desses locais nos últimos anos, quando houve incremento da produção e redução do desmatamento.

Levando em consideração que há presença dos biomas cerrado (15% da área) e pantanal (1%) na Amazônia Legal, sobram, segundo Assad, 45 milhões de hectares que são passíveis de receber sistemas agrícolas dento do Plano Agricultura de Baixo Carbono (ABC), além de 9 milhões de cabeças de gado, “sem desmatar nada e ainda reduzindo a emissão de gases do efeito estufa”.

Retorno econômico

O estudo ainda apontou a viabilidade econômica das atividades na região, sendo que a pecuária (11% de retorno) e, especialmente, os sistemas integrados (13,7%) têm os melhores resultados, se comparados com a agricultura solteira (9,9%)

O passo seguinte foi identificar modelos de produção adaptados ao Plano ABC – que engloba práticas como o plantio direto, a recuperação de pastagens e a integração-lavoura-pecuária-floresta (ILPF) – e a recomendação do aproveitamento total da área e do tempo, com emprego de safra-safrinha-pasto-floresta, em prol de uma produção com baixa emissão de gases do efeito estufa.

Outra medida tomada pelos técnicos foi realizar o zoneamento forrageiro, com o objetivo de indicar as variedades que mais se adaptam às condições da região. Os técnicos recomendam o plantio de amendoim, que fixa nitrogênio, na recuperação de pastagens e, assim, reduzir custos de adubação; o cultivo de milho, soja, arroz e feijão para a produção de grãos; e o plantio de algumas espécies arbóreas, como eucalipto, paricá e teca, para o reflorestamento integrado. Já entre os sistemas agroflorestais possíveis há muitas possibilidades, como café-cacau-castanha, cacau-paricá e pimenta-açaí-castanha.

Os desafios agora são dar escala a essas integrações e a transferência de tecnologia na região, disse Assad, para quem a extensão rural deve acontecer via políticas públicas, assim como o pagamento por serviços ambientais, a implantação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e a revisão do crédito agrícola.

“Estamos aprendendo com a natureza, auxiliados pela ciência, a promover desenvolvimento”, afirmou em depoimento no evento o ex-ministro da Agricultura Alysson Paolinelli.

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Encontros acontecerão em Unaí, Patos de Minas e Araxá

Redação*

fazenda-300x225O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Banco do Brasil e Sicoob promovem três encontros em março do projeto ABC Cerrado, voltado à agricultura de baixa emissão de carbono.

Serão três seminários de sensibilização de produtores rurais e de técnicos agrícolas em Minas Gerais. Com o objetivo de difundir, incentivar e sensibilizar os agricultores na adoção de tecnologias de redução de emissões de gases de efeito estufa, os encontros acontecerão em Unaí (10), Patos de Minas (15) e Araxá (17).

O Plano ABC indica seis práticas sustentáveis – recuperação de áreas degradadas, integração lavoura-pecuária-floresta, sistema de plantio direto, fixação biológica de nitrogênio, florestas plantadas e tratamento de resíduos animais – e faz parte do compromisso do Brasil em reduzir as emissões de gases de efeito estufa, assumido na 15ª Conferência das Partes na Dinamarca, em 2009.

Para inscrições e outras informações, escreva para abc@senarminas.org.br ou ligue para (31) 3074-3080.

*Com informações do Mapa