Índice de Confiança do Agronegócio encerra 2017 com otimismo

O quarto trimestre do ano fechou em 100,3 pontos

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) divulgaram que o Índice de Confiança do Agronegócio (IC Agro) fechou o quarto trimestre de 2017 com 100,3 pontos; 1,2 ponto acima em relação ao trimestre anterior. De acordo com a metodologia do estudo, resultados com pontuação acima de 100 correspondem a otimismo e abaixo, demonstram baixo grau de confiança.

“Esse resultado sinaliza uma recuperação dos ânimos que haviam esfriado ao longo do ano, principalmente entre os produtores agrícolas e os fabricantes de insumos. Entre os pecuaristas e as indústrias de forma geral, o nível de desconfiança continuou maior”, disse, em nota, Antonio Carlos Costa, gerente do Deagro da Fiesp.

Segundo a Fiesp, a queda de 4 pontos na confiança da indústria para 99,3 pontos em relação ao trimestre anterior, não significa necessariamente um esfriamento geral dos ânimos, pois o resultado foi influenciado por segmentos específicos da indústria depois da porteira, como as empresas de trading e logística, atividades nas quais as margens de lucro mantiveram-se bastante pressionadas nos últimos tempos. A maioria dos setores que compõem esse grupo (como os de alimentos e sucroenergético) apresentou maior confiança em relação ao trimestre anterior. Já a indústria antes da porteira (insumos agropecuários) apresentou avanço de 0,4 ponto, para 105,2 pontos no encerramento do 4º trimestre.

Houve avanço também para o índice de confiança do produtor agropecuário, que encerrou o 4º trimestre de 2017 em 101,8 pontos, alta de 8,6 pontos ante o anterior. Mas, esse foi o único período do ano em que o indicador para esse segmento ficou na faixa considerada otimista.

Pelos resultados, há mais entusiasmo entre os produtores agrícolas do que entre os pecuaristas. No primeiro caso, o índice subiu 11,1 pontos, chegando a 104 pontos.

Entre os pecuaristas, a confiança ficou praticamente estável. O indicador desse grupo subiu 0,9 ponto, fechando o ano em 95,1 pontos. A falta de ânimo em relação aos custos de produção pesou para manter o indicador num patamar abaixo. Outro aspecto no qual houve perda de confiança foram os preços – a queda mais acentuada entre os produtores de leite do que entre os pecuaristas de corte.

*Com informações da assessoria de imprensa da Fiesp

Agtechs no caminho da inovação agrícola

Mesmo representando um universo pequeno dentro das startups, novos empreendimentos do agro enxergam boas perspectivas de crescimento para este ano

foto - Ernesto Reghran - Pulsar Imagens

Foto: Ernesto Reghran/Pulsar Imagens

“Apesar de não sermos educados a empreender, passamos por um momento em que nunca esteve tão fácil ser empreendedor. Há um movimento crescente de startups hoje. E isso se deve muito ao sucesso que algumas tiveram e também ao período de crise econômica, que se apresenta como uma oportunidade para aqueles com ideias inovadoras”, analisa Maikon Schiessl, diretor do Comitê de Agtechs (startups voltadas ao agronegócio) da Associação Brasileira de Startups (ABStartups). “Hoje a troca de informação é muito maior; é fácil encontrar pessoas que se dispõem a serem mentoras e isso diminui bastante a chance de erro de um novo negócio”, completa.

Schiessl acredita neste exponencial crescimento de startups como um reflexo da própria associação. “Nascemos em 2011 com o objetivo de fomentar startups por meio de colaboração, conhecimento e networking. Em cinco anos, tivemos de criar comitês direcionados aos diversos setores que nos procuram. Hoje, temos mais de 4.200 associados”, conta.

De acordo com último relatório da ABStartups, 86% dos novos empreendedores não recebeu investimento algum. Trinta e oito por cento dos associados têm dois anos de vida, 27%, três anos e 13%, quatro. A região sudeste lidera com maior número de startups, com São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro à frente. Em relação aos interesses, Internet e Educação aparecem com 12%, cada; Comunicação e Mídia, 8% e Agronegócio, somente 2%.

Agro é tech

“Quando falamos em agronegócio, estamos falando de um setor com muitas especificidades. Há um mercado pulverizado em todo o país, mas cada região tem sua característica; o Sul, geralmente, é mais tecnificado, o Nordeste, nem tanto”, diz Schiessl. As startups para este setor têm ou apresentado softwares que auxiliam o produtor na gestão da propriedade ou referem-se a soluções químicas e/ou biológicas.

Enxergando oportunidade em um mercado ainda muito pouco explorado no País, a startup Gênica Inovação Biotecnológica nasceu da união de três expertises – um empresário, um pesquisador e outro, especialista do setor de agronegócio. Criada em 2015, a Gênica oferece biodefensivos. “O ambiente já mostrou sinais de resistência a soluções químicas. Acreditamos no controle de pragas por meio do manejo integrado”, diz Patrick Vilela, engenheiro agrônomo e diretor executivo da startup.

Apesar de a Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCBio) ter projetado um crescimento de 10% a 12% no mercado de biodefensivos no mundo para este ano, a Gênica tem uma expectativa de incremento de 50% em 2018. Em 2017, seu faturamento foi de R$ 5 milhões. “Há uma demanda mundial por menos resíduos químicos nas lavouras. Além disso, as multinacionais já perceberam que só o uso de moléculas não está resolvendo o problema de pragas e, por isso, estão investindo também na solução biológica”, diz Vilela. “O biodefensivo além de ser mais barato, gera lucro ao produtor. Não queremos vender milagre e sim, tecnologia aliada ao conhecimento”, completa.

“Nossas soluções hoje têm maior abertura para cultura de commodities – soja, milho, algodão, café e cana-de-açúcar, mas podem ser usadas para qualquer cultura. Nosso maior desafio é atingir também pequenos e médios produtores”, anseia Vilela. Em 2017, a empresa recebeu um aporte de R$ 6 milhões de uma gestora de fundos de investimento especializada em agronegócio.

Também com uma projeção de crescimento de 50% para este ano, a startup Agritask, de origem israelense e presente no País desde 2015, aposta em software de gestão (com mesmo nome da empresa). “O sistema é extremamente simples e pode ser usado por qualquer um. O Agritask é uma plataforma que une todas as informações importantes para tomada de decisões do produtor”, diz Marcelo Maidantchik, sócio-diretor da Agritask, no Brasil. Até agora, a maior parte dos clientes da empresa concentra-se em Mato Grosso e no Sul do Brasil. “Devemos expandir também no Nordeste e na região do MATOPIBA”, projeta.

 

Agrotóxicos – mitos e verdades

Você certamente já ouviu ou leu que o brasileiro “ingere 5,2 litros de agrotóxico por ano” e que o morango, o pimentão, entre outros alimentos estão contaminados com substâncias tóxicas acima do permitido.

O jornalista Nicholas Vital, autor de “Agradeça aos agrotóxicos por estar vivo”, publicado pela Editora Record, derruba, por meio de dados e estudos científicos, estes e outros mitos relacionados ao uso de pesticidas no campo. Confira o bate-papo que tivemos com ele!

Capa Agradeca aos agrotoxicos por estar vivo CG v2CenárioAgro (CA) Como surgiu a ideia de escrever o livro sobre o uso e a divulgação dos agrotóxicos na agricultura?
Nicholas Vital (NV) A ideia surgiu da minha experiência como jornalista agro. Ao longo da minha carreira, estive em centenas de fazendas e pude constatar que a realidade no campo é bem diferente da que vemos nos jornais e no discurso dos detratores dos agroquímicos. O principal objetivo do livro é equilibrar o debate entre produtos orgânicos e convencionais.

(CA)Em quanto tempo você produziu e escreveu o livro?

(NV) Foram dois anos entre o início da pesquisa e a entrega do material para a Editora Record. Neste período, eu fiz mais de 50 entrevistas com especialistas como engenheiros agrônomos, médicos toxicologistas, biólogos, produtores e estudiosos em geral. Todos os meus argumentos são amplamente fundamentados. São mais de 30 páginas só com referências bibliográficas.

(CA) Apesar de propor um debate mais ponderado; equilibrado em relação aos orgânicos e convencionais, o título do livro é bastante sensacionalista. Não acha que isso reforça a idea de que orgânicos são bons e agrotóxicos maus?

(NV) Não considero o título sensacionalista. Apesar de forte, o título reflete uma realidade: não fossem os defensivos agrícolas, a oferta de alimentos no mundo seria muito menor e, consequentemente, não teria comida para todo mundo. Muitas pessoas julgam a obra apenas pelo título, o que é um erro. A obra desmonta a narrativa dos orgânicos, que apesar de muito bonita, não se sustenta diante da ciência. O livro também aborda os problemas decorrentes do uso incorreto dos agroquímicos, o que infelizmente ainda acontece muito no Brasil. Não sou porta-voz do setor e nem estou aqui para fazer uma defesa incondicional do produto. Minha intenção não é convencer ninguém de nada. O objetivo é apenas mostrar o outro lado da história para que os consumidores tomem as suas decisões com base na ciência — e não no marketing do medo que vemos hoje em dia.

(CA) Além do interesse de mercado, a que você atribui a falta de informação a assuntos ligados ao campo pela população urbana?

(NV) A população é cada vez mais urbana e distante da produção de alimentos. Como o agro é um setor que tradicionalmente não se comunica bem, existe muita desinformação, mesmo entre as pessoas mais instruídas. As pessoas temem os agrotóxicos porque não entendem bem o que são esses produtos, não sabem a importância deles para a produção de alimentos e não têm ideia da preocupação com a segurança ao longo do desenvolvimento dessas substâncias. O nome “agrotóxico”, utilizado exclusivamente no Brasil (no restante do mundo é pesticida), também não ajuda. Assim, os defensivos têm uma imagem muito negativa, o que acaba sendo explorado por pessoas que têm interesses comerciais na venda de orgânicos. Veja bem: se não existisse um “vilão”, ninguém aceitaria pagar até o triplo do preço por um produto orgânico.

(CA) Em seu ponto de vista, por que a população em geral não tem restrições quanto ao uso da biotecnologia na Medicina e/ou na Indústria Farmacêutica, mas sim quando se trata de produção de alimentos?

(NV) Porque não entendem que, no fundo, é a mesma coisa. Muitas das fabricantes de remédios também produzem agroquímicos. Os defensivos nada mais são do que os remédios das plantas. Quando uma pessoa pega uma micose, faz um tratamento à base de fungicidas. Quando está na praia sendo atacada por pernilongos, não pensam duas vezes antes de usar um inseticida. Agora, quando esses produtos são usados nas lavouras, para curar as plantas de fungos ou evitar o ataque de insetos, são vistos como um problema. O princípio ativo dessas substâncias, em geral, é o mesmo. Na minha opinião, isso se deve a um problema de percepção de risco por parte das pessoas, causado por pura falta de conhecimento.

(CA) Como você enxerga a comunicação feita pelas empresas de agroquímicos?

(NV) As empresas investem em comunicação voltada para o público de interesse delas, ou seja, os agricultores. Nas áreas urbanas, a comunicação é prejudicada pelas limitações impostas pela legislação, que não permite comerciais em programas que não sejam voltados ao público rural. Assim, você nunca vai ver uma propaganda de um agroquímico no intervalo da novela das 8. Por outro lado, as propagandas de orgânicos estão por toda parte — feitas não pelos produtores, mas pelos varejistas, os que mais lucram com essa história. Os programas de culinária também vivem falando da tal “alimentação natural”. A dona de casa não tem acesso ao outro lado da história e acaba achando que os orgânicos são bons e os convencionais perigosos, o que é um erro.

(CA) O mercado de orgânicos tem crescido ano a ano e, com ele, o discurso de que somente este produto é alimento bom, limpo e justo. Quanto disto é verdadeiro? É possível atender à demanda mundial por alimentos com orgânicos?

(NV) As vendas de orgânicos crescem 30% ao ano, mas sobre uma base muito pequena. Trata-se de um mercado de R$3 bilhões no Brasil. Pode parecer muito, mas não é nada dentro do agronegócio brasileiro. O Valor Bruto da Produção (VPB) no Brasil supera os R$500 bilhões. Ou seja, os orgânicos representam cerca de 0,5% do mercado. Mesmo nos países mais desenvolvidos, essa participação também é modesta. Na Dinamarca, considerada a nação mais orgânica do mundo, a participação não chega a 8%. Nos EUA, é de 5%. Orgânicos demandam mais terras e mão de obra para serem produzidos, por isso são mais caros. Trata-se de um produto voltado para os mais ricos. A população em geral não tem acesso. Na minha opinião, seria impossível alimentar o mundo exclusivamente com orgânicos.

(CA) Quem espera atingir com o livro?

(NV) O objetivo é levar a informação para o maior número de pessoas possível, tanto no campo quanto nas cidades. Apesar de tratar de um assunto árido e muitas vezes técnico, a linguagem utilizada no livro é simples e acessível a todos. Trata-se de um tema de extrema importância e que ainda é pouco discutido pela sociedade. O livro vem para estimular esse debate. Mais uma vez, não quero convencer ninguém de nada, apenas mostrar o assunto sob um outro ponto de vista, baseado na ciência e não na ideologia. Toda história tem dois lados, até mesmo a dos agrotóxicos.

Serviço

Agradeça aos agrotóxicos por estar vivo
Nicholas Vital
Ed. Record | 252 páginas | Reportagem
Preço sugerido | R$ 39,90