Duas realidades

Por Coriolano Xavier*

23.03.2012 - ANDEF Fotos: Tatiana FerroEm 2004, houve um desmatamento de 28.000 km² de floresta na Amazônia. De lá para cá, houve um recuo de 80% no ritmo anual de derrubada da floresta até 2015, quando então cresceu 24%. Em 2016 mais um avanço de 28%, com quase 8.000 km² desmatados, indicando talvez o começo de uma tendência ascendente.

Em relação a 2014, a derrubada de 2016 mostra aumento de 60%. Mais de um terço ocorreu em terras públicas não destinadas (25%) e áreas protegidas (12%); também em áreas privadas (35%) e assentamentos (28%). Mas não é tão simples assim. Por trás desses números se escondem histórias de grilagem de terras públicas, invasão de áreas privadas, extração ilegal, registros falsos, confrontos armados com a fiscalização. Verdadeiros casos de polícia.

E o argumento de que o desmatamento é fator de progresso econômico na região parece não se sustentar muito, segundo dados do Ipam e Imazon¹. Eles mostram que entre 2004 e 2015 o PIB agrícola da Amazônia cresceu de R$ 15 bilhões para R$ 50 bilhões, enquanto a derrubada anual caiu de 28.000 km² (pico histórico) para 7.000 km². Antes disso, o ritmo da derrubada era maior do que a evolução do PIB agrícola.

Como contraponto à pirataria florestal, observa-se na região o crescimento gradual de sistemas agroflorestais tecnificados (em assentamentos ou operações de maior escala), que melhoram progressivamente seus resultados de produtividade e manejo adequado da floresta. Ainda são poucos, mas representam um rompimento com o modelo de desmatamento e criação extensiva, que se esgota em poucos anos e deixa um saldo de solo degradado.

Enquanto isso, a Embrapa Monitoramento por Satélite divulgou em junho um estudo de dados geocodificados do Cadastro Ambiental Rural (CAR)², analisando o impacto da agricultura no meio ambiente, em quase 4 milhões de imóveis rurais cadastrados até dezembro de 2016, em 5.570 municípios. Eles representam 400 milhões de ha e neles foram detectados 170 milhões de ha de vegetação nativa preservada dentro dos imóveis, entre áreas de preservação permanente e reservas legais.

As análises da Embrapa mostram que, no seu conjunto, “os produtores preservam em vegetação nativa uma parcela dos imóveis superior à exigida pelo Código Florestal, que é de no mínimo 20%”. Nas áreas agrícolas do Sul, os agricultores preservam em média 26% das terras, no Sudeste 29% e no Centro-Oeste 49%. Mato Grosso do Sul, Espírito Santo e parte do Nordeste ainda não estão incorporados ao CAR, mas a Embrapa projeta que a tendência das análises tende a se manter em todas as regiões.

São duas realidades bem distintas nessa questão ambiental. De um lado, a surpresa dos estudos da Embrapa, mostrando que estigmatizar a agricultura como vilã da preservação da vegetação nativa pode não ter fundamento. Desrespeitos às regras ambientais pelo país afora serão encontrados, certamente. Mas essa não parece ser a regra. Ao contrário, do ponto de vista da legislação ambiental o agricultor – no seu conjunto – parece estar com saldo positivo.

Já na Amazônia, o desafio ainda é a recorrente pirataria florestal, que acaba sempre virando manchete da mídia internacional. Contra ela a solução parece que passa principalmente pelo fortalecimento de políticas públicas de controle, que estão fragilizadas nesse Brasil de crise e cofres públicos esgotados. Requer também um estímulo maior à reconfiguração tecnológica do agro regional e, talvez, até a criação de incentivos econômicos à proteção do ambiente, pagando por benefícios ecossistêmicos e tornando a preservação mais rentável do que a derrubada predatória da floresta. Tudo isso, é claro, caminhando junto.

Esta é uma boa causa a ser apoiada e propagada pelas lideranças do setor, pois diz respeito a um problema que pode interferir no bolso e no futuro de todos. Afinal, já temos segurança alimentar, o país caminha para ser o maior produtor agrícola mundial e não devemos deixar que queimem a imagem e o conceito do agro brasileiro no mercado internacional.

(1)     Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), in Exame, ed. 5 julho 2017.

(2)    Análises geradas pelo Gruto de Inteligência Territorial Estratégica (Gite), da Embrapa.

*Vice-Presidente de Comunicação do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e Professor do Núcleo de Estudos do Agronegócio da ESPM.

Planta da Amazônia pode ser alternativa ao combate do Aedes aegypti

Até o momento, ação do dilapiol, encontrado na Piper aduncum, mostrou-se eficiente nas fases larval e adulta do mosquito

Piper aduncum_foto Felipe Rosa

Piper aduncum – foto de Felipe Rosa

Um estudo realizado pela Embrapa Amazônia Ocidental em parceria com o Instituto Nacional de pesquisas da Amazônia (Inpa) com uma planta nativa da Amazônia – Piper aduncum – vem se mostrando, até o momento, promissor em relação ao combate do mosquito Aedes aegypti, transmissor de doenças como dengue, febre amarela, Chikungunya e Zika vírus. “A pesquisa é extensão de minha tese de doutorado, em que já havia verificado ação do dilapiol em larvas e adultos do mosquito”, disse Ana Cristina da Silva Pinto, coordenadora do estudo. “A partir disso, demos continuidade com a elaboração de formulações e de produtos que poderiam chegar ao mercado como repelente e spray para o ambiente”, completa.

O dilapiol, encontrado em alto teor na Piper aduncum, é uma substância com efeito inseticida e também atividade fungicida, moluscida, acaricida, bactericida e larvicida para diversos organismos. “Os testes com dilapiol mostrou-se eficiente no combate ao mosquito nas fases larval e adulta”, disse.

Francisco Celio e Ana Cristina_foto Siglia Souza

Francisco Célio Maia Chaves e Ana Cristina da Silva Pinto, em laboratório da Embrapa

“Uma característica importante é que somente as desta região (norte da região Amazônica) apresentam de 80% a 90% dessa substância; o que não ocorre em plantas da mesma espécie do Centro-Oeste do País, por exemplo”, explica a pesquisadora. Outro aspecto favorável é sua alta capacidade de rebroto. “Podemos fazer até três cortes na planta ao longo do ano. Há plantas aqui na Embrapa que estamos cortando há cinco anos, sem danos”, contou o engenheiro agrônomo Francisco Célio Maia Chaves, da Embrapa Amazônia Ocidental.

Por se tratar de uma espécie promissora, a Embrapa Amazônia Ocidental vem realizando pesquisas agronômicas para adaptar seu cultivo em escala, bem como realizando estudos com o óleo essencial para seu uso contra pragas na agricultura e também para combater mosquitos transmissores de doenças.

O estudo encontra-se em fase de análise dos produtos em relação à durabilidade e validade. “Isto deve durar cerca de dois anos. Até agora, testamos a ação repelente em humanos e se poderia manchar ou queimar a pele, mas todos os testes clínicos são realizados depois”, informou Ana.

“Mesmo com uma importante demanda no combate do mosquito, a velocidade do trabalho é lenta porque não temos incentivo. Precisaremos de muito apoio, principalmente para análise dos produtos em laboratórios credenciados da Anvisa em etapa posterior”, disse a especialista.

Desmatamento na Amazônia cresce 29% em 2016

De acordo com o Inpe, foram quase 8 mil Km² de devastação

Redação*

fotoO desmatamento na Amazônia teve crescimento de 29% em 2016. O dado é do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A taxa de remoção por corte raso, ou seja, quando há a remoção de toda a vegetação de uma área, foi de quase 8 mil Km² entre agosto do ano passado e julho deste ano, de acordo com o Instituto. O número é alto, visto que o País não atingia a marca de 7 mil Km² desmatados desde 2010.

O Inpe traz também que a maior taxa de desmatamento da Amazônia Legal foi no Pará, mais de 3 mil Km². Mas o Amazonas foi o estado com maior aumento de devastação: 54% superior ao período 2014-2015.

Mato Grosso continua ocupando o segundo lugar da lista, mesmo tendo registrado queda nas taxas, junto ao Acre.

Organizações não governamentais lamentaram os resultados. Para o Greenpeace, por exemplo, a perda de controle ilustra a falta de ambição do governo em lidar com o desafio de cessar a perda de florestas.

Já o Instituto Socioambiental ressaltou que a divulgação do novo dado coloca na berlinda a capacidade do Brasil de cumprir seus compromissos de zerar as derrubadas ilegais no País, até o ano de 2030.

*Com informações da Agência Brasil