Planta da Amazônia pode ser alternativa ao combate do Aedes aegypti

Até o momento, ação do dilapiol, encontrado na Piper aduncum, mostrou-se eficiente nas fases larval e adulta do mosquito

Piper aduncum_foto Felipe Rosa

Piper aduncum – foto de Felipe Rosa

Um estudo realizado pela Embrapa Amazônia Ocidental em parceria com o Instituto Nacional de pesquisas da Amazônia (Inpa) com uma planta nativa da Amazônia – Piper aduncum – vem se mostrando, até o momento, promissor em relação ao combate do mosquito Aedes aegypti, transmissor de doenças como dengue, febre amarela, Chikungunya e Zika vírus. “A pesquisa é extensão de minha tese de doutorado, em que já havia verificado ação do dilapiol em larvas e adultos do mosquito”, disse Ana Cristina da Silva Pinto, coordenadora do estudo. “A partir disso, demos continuidade com a elaboração de formulações e de produtos que poderiam chegar ao mercado como repelente e spray para o ambiente”, completa.

O dilapiol, encontrado em alto teor na Piper aduncum, é uma substância com efeito inseticida e também atividade fungicida, moluscida, acaricida, bactericida e larvicida para diversos organismos. “Os testes com dilapiol mostrou-se eficiente no combate ao mosquito nas fases larval e adulta”, disse.

Francisco Celio e Ana Cristina_foto Siglia Souza

Francisco Célio Maia Chaves e Ana Cristina da Silva Pinto, em laboratório da Embrapa

“Uma característica importante é que somente as desta região (norte da região Amazônica) apresentam de 80% a 90% dessa substância; o que não ocorre em plantas da mesma espécie do Centro-Oeste do País, por exemplo”, explica a pesquisadora. Outro aspecto favorável é sua alta capacidade de rebroto. “Podemos fazer até três cortes na planta ao longo do ano. Há plantas aqui na Embrapa que estamos cortando há cinco anos, sem danos”, contou o engenheiro agrônomo Francisco Célio Maia Chaves, da Embrapa Amazônia Ocidental.

Por se tratar de uma espécie promissora, a Embrapa Amazônia Ocidental vem realizando pesquisas agronômicas para adaptar seu cultivo em escala, bem como realizando estudos com o óleo essencial para seu uso contra pragas na agricultura e também para combater mosquitos transmissores de doenças.

O estudo encontra-se em fase de análise dos produtos em relação à durabilidade e validade. “Isto deve durar cerca de dois anos. Até agora, testamos a ação repelente em humanos e se poderia manchar ou queimar a pele, mas todos os testes clínicos são realizados depois”, informou Ana.

“Mesmo com uma importante demanda no combate do mosquito, a velocidade do trabalho é lenta porque não temos incentivo. Precisaremos de muito apoio, principalmente para análise dos produtos em laboratórios credenciados da Anvisa em etapa posterior”, disse a especialista.

Desmatamento na Amazônia cresce 29% em 2016

De acordo com o Inpe, foram quase 8 mil Km² de devastação

Redação*

fotoO desmatamento na Amazônia teve crescimento de 29% em 2016. O dado é do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A taxa de remoção por corte raso, ou seja, quando há a remoção de toda a vegetação de uma área, foi de quase 8 mil Km² entre agosto do ano passado e julho deste ano, de acordo com o Instituto. O número é alto, visto que o País não atingia a marca de 7 mil Km² desmatados desde 2010.

O Inpe traz também que a maior taxa de desmatamento da Amazônia Legal foi no Pará, mais de 3 mil Km². Mas o Amazonas foi o estado com maior aumento de devastação: 54% superior ao período 2014-2015.

Mato Grosso continua ocupando o segundo lugar da lista, mesmo tendo registrado queda nas taxas, junto ao Acre.

Organizações não governamentais lamentaram os resultados. Para o Greenpeace, por exemplo, a perda de controle ilustra a falta de ambição do governo em lidar com o desafio de cessar a perda de florestas.

Já o Instituto Socioambiental ressaltou que a divulgação do novo dado coloca na berlinda a capacidade do Brasil de cumprir seus compromissos de zerar as derrubadas ilegais no País, até o ano de 2030.

*Com informações da Agência Brasil

 

Amazônia Legal pode ter agricultura sustentável, mostra estudo

Técnicos do Observatório ABC indicam práticas agroambientais para aproveitamento dos 74 milhões desmatados na região. Estudo mostra que intensificação levou ao aumento da produção com redução do desmatamento

Morguefile

Cacau é uma das culturas que podem ser integradas dentro dos sistemas agroflorestais, na região

Da constatação de que há 74 milhões de hectares desmatados por corte raso na Amazônia surgiu a ideia-mãe do Projeto Amazônia – Propostas para a exploração agrícola sustentável: “modificar essa área de forma inteligente, mantendo a região produtiva e conservando seus recursos naturais”, explicou Eduardo D. Assad, pesquisador da Embrapa, coordenador da sub-rede Clima e Agricultura da Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima), do Ministério de Ciência e Tecnologia e Inovação, e professor do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas, o GV Agro. O projeto foi apresentado na comemoração dos 10 anos do GV Agro, que coordena o Observatório ABC, na sexta-feira 18, em São Paulo.

O estudo mapeou 772 municípios da Amazônia Legal, como Paragominas, São Feliz do Xingu (PA), Alta Floresta (MT) e Porto Velho (RO), onde foram observados os maiores índices de desmatamento até o início dos anos 2000, quando o governo começou a tomar medidas mais sérias para conter sua expansão, como a punição dos desmatadores. Um dos motivos, bem pragmático, foi o temor de que barreiras tarifárias fossem impostas dificultando as exportações de produtos brasileiros, como a carne e a soja.

Uma das primeiras medidas foi checar se a agropecuária era de fato a grande vilã de derrubada da mata nativa. No cruzamento dos dados do desmatamento com o Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE) da região, foi observado um índice máximo de redução de 15% das reservas naturais das propriedades, o que derrubou alguns mitos de que eram os proprietários rurais os grandes causadores de desmatamento, contou Assad.

Pecuária saindo na frente

O projeto ainda apontou que de 1990 a 2015 houve intensificação agrícola, com incremento do uso de tecnologia, resultando no aumento da produção com redução do desmatamento. A resposta da pecuária foi bem forte, mostraram os dados, com um incremento de 125% na produção do rebanho bovino, seguido pelo ovino (100%) e pela avicultura (82%).

Em Alta Floresta, por exemplo, passou-se de 0,16 unidade cabeça de gado (ua)/ha em 1990, para 0,83 ua/ha em 2014. O aumento da intensificação permitirá que atinja a 2,47 ua. “Há uma nova geração de jovens pecuaristas tocando os negócios da família e incrementando o uso de novas tecnologias”, revelou Assad, celebrando a chegada, um dia, da “carne carbono neutro”.

O pesquisador informou ainda que o estudo mostrou que o índice de vulnerabilidade social (IVS) desses 772 municípios apontou uma melhoria na qualidade de vida e das condições de vida da população desses locais nos últimos anos, quando houve incremento da produção e redução do desmatamento.

Levando em consideração que há presença dos biomas cerrado (15% da área) e pantanal (1%) na Amazônia Legal, sobram, segundo Assad, 45 milhões de hectares que são passíveis de receber sistemas agrícolas dento do Plano Agricultura de Baixo Carbono (ABC), além de 9 milhões de cabeças de gado, “sem desmatar nada e ainda reduzindo a emissão de gases do efeito estufa”.

Retorno econômico

O estudo ainda apontou a viabilidade econômica das atividades na região, sendo que a pecuária (11% de retorno) e, especialmente, os sistemas integrados (13,7%) têm os melhores resultados, se comparados com a agricultura solteira (9,9%)

O passo seguinte foi identificar modelos de produção adaptados ao Plano ABC – que engloba práticas como o plantio direto, a recuperação de pastagens e a integração-lavoura-pecuária-floresta (ILPF) – e a recomendação do aproveitamento total da área e do tempo, com emprego de safra-safrinha-pasto-floresta, em prol de uma produção com baixa emissão de gases do efeito estufa.

Outra medida tomada pelos técnicos foi realizar o zoneamento forrageiro, com o objetivo de indicar as variedades que mais se adaptam às condições da região. Os técnicos recomendam o plantio de amendoim, que fixa nitrogênio, na recuperação de pastagens e, assim, reduzir custos de adubação; o cultivo de milho, soja, arroz e feijão para a produção de grãos; e o plantio de algumas espécies arbóreas, como eucalipto, paricá e teca, para o reflorestamento integrado. Já entre os sistemas agroflorestais possíveis há muitas possibilidades, como café-cacau-castanha, cacau-paricá e pimenta-açaí-castanha.

Os desafios agora são dar escala a essas integrações e a transferência de tecnologia na região, disse Assad, para quem a extensão rural deve acontecer via políticas públicas, assim como o pagamento por serviços ambientais, a implantação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e a revisão do crédito agrícola.

“Estamos aprendendo com a natureza, auxiliados pela ciência, a promover desenvolvimento”, afirmou em depoimento no evento o ex-ministro da Agricultura Alysson Paolinelli.

Leia ainda:

Adoção do sistema ILPF atinge 11,5 milhões de hectares, mostra pesquisa