Entidades conclamam implementação de biodiesel. Novo estudo da Embrapa, no entanto, aponta as dificuldades do setor

Redação*

Abastecimento-Etanol_0006-300x225Nesta semana, três entidades do setor – Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil (Aprobio) e União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio) reforçaram, por meio de nota, os benefícios do biodiesel para a redução de gases de efeito estufa, óxidos de enxofre e, para melhorar a qualidade do ar e da saúde da população.

Lembrando o Dia Interamericano da Qualidade do Ar (11), as entidades divulgaram estudo realizado pelo Instituto Saúde e Sustentabilidade (ISS) em parceria com o Greenpeace, que diz que a adoção de combustíveis renováveis na frota de ônibus em São Paulo, pode evitar 12,7 mil mortes e gerar uma economia de R$ 3,8 bilhões até 2050.

Ainda de acordo com as instituições do setor, a indústria de biodiesel tem plena capacidade técnica e industrial para atender às necessidades do município de São Paulo na implementação do biocombustível na frota de ônibus.

O que diz a Embrapa

Dificilmente o Brasil conseguirá cumprir a meta de elevar para 18% a participação dos biocombustíveis em sua matriz energética até 2030, compromisso assumido pelo País na Conferência Mundial do Clima de Paris (COP-21).

Isso é o que aponta estudo realizado pela Embrapa Agroenergia, que diz que num cenário otimista mais factível, biodiesel e etanol poderiam responder por, no máximo, 12,3% do total de energia de que o Brasil necessitaria daqui a 13 anos.

A equipe do estudo calculou quanto precisaria aumentar a produção e uso de biodiesel para atender a meta. De acordo com os pesquisadores, com o etanol crescendo 5,1% ao ano, a quantidade de biodiesel adicionada ao diesel teria que subir para 69%, o que exigiria a instalação de mais 395 usinas. Atualmente, a mistura é de 9% e há 43 usinas no Brasil. Mesmo que a taxa de crescimento do etanol fosse o dobro, ainda seria necessário chegar a 48% de biodiesel no diesel e construir 267 novas indústrias para que os dois biocombustíveis, juntos, respondessem por 18% da matriz energética nacional.

Além do alto investimento, a indisponibilidade de matérias-primas e a necessidade de adaptação de motores, de acordo com a Embrapa, inviabilizam tal elevação na mistura de biodiesel ao diesel.

O cenário de crescimento mais factível para o biodiesel é chegar a uma mistura de 15% em 2030, o que exigiria o óleo de 35% da safra de soja brasileira e carrega um desafio grande. Hoje, 41% da produção da oleaginosa é esmagada no País, sendo 15% do óleo obtido destinado às usinas de biodiesel. Os outros 59% são exportados in natura e constituem um dos principais itens da pauta de exportações brasileiras e equilibra a balança comercial.

*Com informações da Abiove e da Embrapa

 

Uso de biodiesel de soja reduz entre 65% e 72% as emissões de gases de efeito estufa

Resultado foi apontado em estudo liderado por pesquisadores da USP, que mediu as emissões de GEE do ciclo de vida do biodiesel de soja brasileiro em substituição ao diesel mineral

Redação*

óleo café_detalhe

O uso de biodiesel de soja em substituição ao diesel mineral é uma contribuição importante para evitar o aquecimento global, constata o estudo “Assessing the greenhouse gas emissions of Brazilian soybean biodiesel production” , coordenado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e recém-publicado na revista científica PLOS ONE.

De acordo com os autores, os resultados obtidos contribuem para a identificação das principais fontes de gases de efeito estufa (GEE) no sistema de produção de biodiesel de soja brasileiro e podem ser utilizados para orientar políticas públicas, além de auxiliar nas tomadas de decisão em relação às estratégias de mitigação do aquecimento global. 

A pesquisa avaliou as emissões de GEE da produção de biodiesel de soja no Brasil, desde a produção agrícola da matéria-prima até o transporte do biocombustível para rotas nacionais e para a Europa. Foram utilizados dados de mais de 200 propriedades de soja associadas à Aprosoja-MT, a Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso, e de indústrias afiliadas à Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais – Abiove e à União Brasileira de Biodiesel e Bioquerosene – Ubrabio . 

A pesquisa

Na pesquisa, houve destaque para as emissões de GEE na produção da soja (insumos e defensivos agrícolas, queima de combustíveis fósseis, restos culturais sobre o solo e uso de energia elétrica), no processamento do grão e na produção do biodiesel (insumos industriais, queima de combustíveis fósseis e uso de energia elétrica) e no transporte envolvido em cada etapa (queima de combustíveis fósseis).

A avaliação indicou que as emissões da etapa agrícola são as mais representativas (42-51%) de todo o ciclo, quando o processamento da soja e a produção do biodiesel ocorrem na mesma unidade industrial, em sistema integrado. Quando a produção industrial ocorre em unidades separadas de produção de óleo e de biodiesel, a maior emissão de GEE está na etapa de produção do biodiesel (46-52%).

As emissões de GEE do ciclo de vida do biodiesel distribuído em rotas domésticas variaram de 23,1 a 28,8 gCO2eq. MJ-1 B100. Já para o biocombustível exportado para a União Europeia, as emissões variaram 26,5 a 29,2 gCO2eq. MJ-1 B100. Os resultados representam reduções de 65% a 72% nas emissões de GEE em relação às emissões do diesel europeu, dependendo da rota de entrega do biodiesel.

Para o pesquisador Carlos Eduardo Cerri, principal autor da publicação, “em cumprimento não apenas ao Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB), que estabelece o uso do B8 (março de 2017), do B9 (março de 2018) e do B10 (março de 2019), mas também em relação à INDC (Pretendida Contribuição Nacionalmente Determinada) do Brasil, apresentada em 2015 durante a Convenção do Clima da ONU/ COP 21, em Paris, o estudo sugere um alto potencial do biodiesel de soja para a melhoria da sustentabilidade ambiental do sistema de economia de base biológica no Brasil, bem como em outros países importadores do biodiesel de soja nacional”.

*com informações da Abiove.

Macaúba é aposta de pesquisadores e empresas para geração de renda e energia

Estudos desenvolvidos pela Embrapa e pela iniciativa privada apontam vantagens para o cultivo da palmeira

macauba_daniela_collares (90)Uma palmeira nativa que pode alcançar até 25 metros de altura, da qual praticamente tudo se aproveita – serve de matéria-prima para produtos de tratamento capilar, cosméticos e fármacos; seus frutos são comestíveis; o endocarpo (parte dura do coco) é usado na produção de carvão ativado utilizado em filtros; o coco também é comestível e fonte de óleo, com diversas aplicações – tem chamado mais atenção de pesquisadores nos últimos 13 anos. A macaúba, também conhecida como bocaiuva, coco-babão e coco-de-espinho é fruto de estudo desenvolvido pela Embrapa em parceria com o World Agroforestry Centre (Icraf). “Esta é uma cultura que vem sendo estudada há muito tempo, na verdade. Toda vez que temos uma crise do petróleo, como na década de 1990, por exemplo, cria-se a necessidade de utilização de alternativas de fontes vegetais”, diz Simone Palma Favaro, engenheira agrônoma e pesquisadora da Embrapa Agroenergia. “Em 2004, esses estudos foram retomados. A macaúba pode ser uma boa fonte de óleo para a produção de biodiesel”, conta Simone.

“Apesar de ser uma espécie chave na natureza, seu desenvolvimento ficou em segundo plano com o cultivo da soja no país”, completa a pesquisadora. A cultura pode ser encontrada de Norte a Sul, mas hoje é cultivada de forma mais organizada em São Paulo, Mato Grosso do Sul, em pequenas comunidades no Nordeste e principalmente em Minas Gerais, de acordo com Simone. “A macaúba desenvolve papel importante à fauna, servindo de alimento para animais ruminantes e pássaros. Não possui substâncias tóxicas e é rica em nutrientes, além de ser uma boa fonte de óleo saudável. Sua polpa e sua amêndoa também são comestíveis. Em relação ao seu potencial para produção de óleo, estima-se uma produtividade de 5000 Kg/ha, superior à do dendê, que é de 3.500 Kg/ha”, destaca.

Para a pesquisadora, as maiores conquistas do estudo referem-se à germinação da semente; ao conhecimento fisiológico da planta; ao melhoramento genético e ao processamento do fruto. “Omacaúba_palmeiras passo mais importante foi o desenvolvimento do processo de germinação da semente, visto que a cada 100 sementes, apenas cinco germinavam. Esse foi um grande avanço feito pela Universidade de Viçosa. A partir dele, as outras questões puderam ser estudadas também”, explica Simone.

“Com o cultivo da macaúba, pode ser organizada uma cadeia produtiva que melhore as práticas de obtenção e de processamento da matéria-prima. Isso, além de gerar produtos com mais qualidade, resulta em maior renda para os produtores”, acredita.

Os experimentos estão sendo conduzidos em dois locais – Parnaíba, no litoral do Piauí, em Barbalha, interior cearense.

Boas perspectivas

“A partir do processo de germinação da macaúba desenvolvido pela Universidade de Viçosa, outras questões surgiram em relação à cultura, que se referiam à produção e ao pacote tecnológico agrícola; não tínhamos respostas”, diz Felipe Morbi, diretor comercial da Soleá e da Acrotech, empresa com base tecnológica, com sede em Viçosa/MG, que comercializa sementes e mudas de macaúba. “Criamos a Soleá em 2011 com o intuito de responder essas questões, com foco na área industrial. Nesta época, já percebemos que o desenvolvimento de uma cadeia produtiva não se sustentaria no extrativismo. Para fortalecer o projeto, adquirimos no ano seguinte, a Acrotech. Com isso, começamos a estudar um protótipo da cadeia de macaúba, que envolve material genético, germinação, produção, processamento e comercialização”, explica Morbi.

De acordo com o diretor, até o final de 2017 terão sido investidos cerca de R$ 50 milhões. “O que nos impressiona é a versatilidade da macaúba. Além dos muitos produtos gerados a partir macaúba 2desta matéria-prima, há n mercados a serem explorados”, anima-se.

“Para montar um pacote tecnológico, buscamos informações com a cadeia do dendê, do coco e de outras espécies. Investimos tempo e dinheiro em pesquisa sobre doenças e pragas, produtividade, viabilidade econômica da cultura e montamos uma frente de trabalho para aproximação de órgãos governamentais e de instituições financeiras”, conta Morbi. “Nosso trabalho é pioneiro. A gente acredita que a cadeia pode se estruturar de maneira forte e organizada”, completa.

“Decidimos fazer todo esse processo internamente e assumir os riscos inerentes ao negócio. Provar que trabalhar com macaúba é bom, na nossa visão, é mais fácil”, diz o diretor. “Já existe um interesse muito grande de produtores. Mas como tudo que é novo, o cultivo da cultura causa curiosidade e medo. Acredito que o negócio deva deslanchar nos próximos dois anos e isso vai abrir oportunidade para que todos invistam”, finaliza.