Volume de bovinos confinados cresce 5,5% em relação ao ano passado

Dado é da Assocon, que prevê estabilidade no setor para 2018

gadoO número de bovinos em confinamento deve ficar em torno de 3,4 milhões de animais em 2017. A previsão é da Associação Nacional da Pecuária Intensiva (Assocon). O levantamento foi realizado em 1400 unidades e representa um crescimento de 5,5% em relação ao mesmo período do ano passado. “O terceiro trimestre do ano apresentou sinal de firmeza nos preços. Não enxergamos oscilações até o fim do ano”, disse Bruno Andrade, gerente executivo da Assocon. O valor da arroba hoje é cerca de R$ 143.

A Associação realizou o estudo em mais três momentos do ano – em março, cuja estimativa foi de 4 milhões de cabeça, um volume que representaria um aumento de 25% ante o mesmo período de 2016; em junho, com um tímido crescimento de 1% e 3,24 milhões de cabeças e em setembro, com 3,28 milhões, representando um crescimento de 2,5%. “Em junho, a estimativa caiu por conta da Operação Carne Fraca e as delações dos irmãos Batista (JBS) e, no período seguinte, voltou a crescer. Ainda que a intenção de confinamento tenha retomado, outros fatores influenciaram o resultado, como o aumento do preço do milho”, disse Andrade.

Para 2018, a Assocon prevê um cenário de estabilidade. A perspectiva é de que haja entre 3,4 milhões e 3,8 milhões de bovinos confinados. “Prevemos um aumento na oferta de animais. Para quem vai confinar no primeiro semestre, a recomendação é comprar milho agora”, recomenda.

 

 

Cruzamento industrial: falta de critério na reposição de matrizes compromete a sustentabilidade da atividade

Por Rodolffo Assis*

Rodolfo_AssisÉ notório que o rebanho brasileiro tem melhorado a produtividade. Nutrição, sanidade e genética são as bases que sustentam esse avanço. Dentre as ferramentas que mais auxiliaram a melhoria genética nacional, principalmente no Brasil Central, está a inseminação com raças taurinas sobre vacas zebuínas. Números da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (ASBIA) mostram que, a partir de 2013, a comercialização de sêmen da raça Angus superou a da raça Nelore. Para se ter uma ideia da alteração brusca de mercado, cinco anos antes, em 2008, para cada dose vendida de Angus no Brasil, eram comercializadas mais de quatro doses de Nelore.

A maioria deste sêmen de Angus tem como finalidade a utilização sobre vacas Nelore no Brasil Central. O ótimo desempenho dos animais ½ sangue Angus x Nelore é a razão para isto. Este desempenho superior (cerca de 20% em características economicamente importantes) ocorre graças ao que os geneticistas chamam de heterose ou vigor híbrido, definido como o fenômeno pelo qual os filhos provenientes de cruzamentos apresentam melhor desempenho do que a média de seus pais.

É importante lembrarmos que a heterose será mais evidente quanto maior for a distância genética entre os animais cruzados. Este fato deve ser muito bem observado, pois dele se origina boa parte das diferenças nos resultados de cruzamentos.

Sabemos que a diferença genética entre animais zebuínos, como o Nelore, e os taurinos, como o Angus, é de 250 mil a um milhão de anos. É a maior diferença entre os ramos de raças bovinas. Por isso, os ótimos resultados dos cruzamentos de taurinos x zebuínos. Ainda assim, vale ressaltar alguns pontos. Muitos cruzamentos têm sido realizados sobre matrizes que não podem ser definidas como zebuínas. Isso gera uma perda quanto ao resultado da heterose, já que essas matrizes devem possuir algum grau de sangue taurino.

Levantamentos apontam que 80% do rebanho nacional (cerca de 160 milhões de animais) é composto por zebuínos. Se considerarmos que, até recentemente, haviam sido importados 6.262 animais zebuínos para o Brasil, de acordo com o pesquisador Alberto Alves Santiago, podemos concluir que a maioria de nosso rebanho é originada de cruzamento por absorção de zebuínos sobre uma base taurina, principalmente, de raças crioulas. Isso é comprovado por estudos que apontam que 79% dos animais Nelore puros e 73% dos animais Gir puros possuem a base materna (DNA mitocondrial) taurina.

Resultados como esses não devem gerar preocupações excessivas aos selecionadores, pois pouco se colheu produtivamente quando a questão de pureza racial foi tratada como extrema prioridade. Mas devemos conhecer nosso rebanho para tirarmos dele os melhores resultados.

Falta de padronização de matrizes gera falta de padronização de produtos, mesmo que cruzados, provocando diminuição da lucratividade.

Métodos de cruzamento atualmente utilizados  

Pela busca de resultados a curto prazo, muitos pecuaristas têm utilizado o cruzamento terminal em quantidade mal dimensionada, o que pode gerar dificuldades em médio prazo.

Há muitos criadores que utilizam a inseminação apenas com sêmen de touros para cruzamento terminal e no início da estação de monta. Essa estratégia, em geral, faz com que a reposição de matrizes seja de baixa qualidade, pois as bezerras zebuínas estarão nascendo em época pior que as ½ sangue, além de serem filhas de matrizes de pior fertilidade e de touros, via de regra, selecionados com muito menos intensidade que os pais das ½ sangue. Ou seja, há o ganho com heterose em um bom número de animais, mas este ganho não é crescente com o tempo.

Deixar de fazer a seleção na base do rebanho faz com que a nossa melhora de performance se restrinja apenas ao ganho de heterose, o que, em um primeiro momento é bom, mas pode não ser suficiente para nos mantermos competitivos em um cenário que exige melhoria crescente de produtividade.

Alguns pecuaristas recorrem ao mercado para continuar se abastecendo de fêmeas zebuínas, o que economicamente pode ser bom. Mas, mesmo que geneticamente essas fêmeas sejam melhores que as matrizes atuais do rebanho (o que não é comum), contar com isso permanentemente pode ser arriscado. Deve ser considerada também a diminuição do controle sanitário que esta estratégia acarreta.

Para se atingir o máximo de produtividade crescente devemos continuar selecionando a base das matrizes, e não abrir mão do cruzamento. Porém, essa não é uma tarefa muito fácil.

O ideal e o que devemos buscar é ter o máximo da reposição de fêmeas filhas das melhores matrizes com touros de alta qualidade e que sejam do início da estação de nascimento. Garantindo essa base superior poderemos utilizar o cruzamento terminal nas demais matrizes.

O conhecimento e o controle do rebanho, além da obtenção de bons índices reprodutivos e zootécnicos, são necessários para que a pecuária de corte seja uma atividade sustentável economicamente.

*Médico Veterinário pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Especialista em Produção de Gado de Corte pela Rehagro, Técnico Geneplus Embrapa e Técnico de Bovino de Corte da Alta Genetics.

Gado Pantaneiro, genuinamente brasileiro, tem dupla aptidão

Além da rusticidade, essencial para sobreviver no Pantanal, raça, cujos estudos para conservação estão em andamento, produz bem carne e leite

Divulgação

Gado Pantaneiro criado na Fazenda Sta. Teresa da Quinta, no MS. Divulgação UEMS

O programa de recuperação da raça Pantaneiro, coordenado pelo Núcleo de Conservação de Bovinos Pantaneiros de Aquidauana (Nubopan), da unidade de Aquidauana da a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), iniciado e 2009, tem se dedicado agora a identificar e selecionar animais com bom potencial para ganho de peso de produção leiteira, formando assim as linhas de corte e leite.

De origem europeia, esses animais ainda são altamente rústicos. Vindo ao Brasil com os colonizadores, há mais de quatrocentos anos, sofreram intensa seleção natural, o que levou a um gado altamente adaptado às condições ambientais extremas do Pantanal, como elevada tolerância ao calor, aos ecto-endo-parasitas e ao ciclo anual das águas, com períodos intermitentes de seca e alagamentos prolongados.

Todavia, os bovinos Pantaneiros conservaram de seus ancestrais europeus a elevada habilidade materna, a boa capacidade para produção de leite e uma carne diferenciada, macia e com bom marmoreio.

Os experimentos conduzidos no Nubopan verificaram que as novilhas primíparas da raça produzem de 6 a 7 litros de leite/animal/dia (média lactacional). Esta produção não chega perto de uma vaca Jersey ou Holandesa, que produzem de 20 a 25 l/vaca/dia, o que é um número interessante, se se pensar que a produção média de leite no Mato Grosso do Sul está em 2,2 litros/vaca/dia.

Rusticidade

Os marcadores moleculares têm auxiliado os pesquisadores a encontrar a origem da rusticidade do gado Pantaneiro. O gene Thrifty, por exemplo, extremamente raro em bovinos europeus, foi encontrado em 30% da população do Nubopan. “Animal que não se adaptou ao ambiente hostil do Pantanal, morreu. Sobraram somente os resistentes”, explica o Prof. Marcus Vinícius Moraes de Oliveira, coordenador do programa.

Segundo o pesquisador, os animais da raça são os únicos bovinos que conseguem pastorear em regiões alagadas. Também modificaram seu hábito de pastejo, se alimentando nas horas frescas do dia e à noite. A cobertura das fêmeas pelos touros também ocorre normalmente à noite, quando as temperaturas são mais baixas. A pele escura e os pelos claros ainda contribuem para a adaptação às temperaturas elevadas.

Legado

“Buscamos fortalecer as linhagens para que, em breve, os criadores possam, ao abrir catálogos de sêmen, encontrar touros pantaneiros”, diz o pesquisador. “Será um legado aos produtores e mais uma opção de criação dentre as raças hoje no mercado”, completa, afirmando que espera que esta meta seja atingida nos próximos dez anos.

De acordo com Oliveira, neste ano já existe a possibilidade de haver o primeiro tourinho da raça, cujo destaque é a rusticidade – por ser portador do gene Thrifty – em uma central de coleta de sêmen. Até o final do ano, deverão ser finalizadas as seleções das linhagens com vocação para carne e leite.

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