O Brasil na agenda global de desenvolvimento sustentável

por Maurício Antônio Lopes*

Maurício LopesEm setembro de 2015, líderes de 193 países concordaram, sob a coordenação da ONU, em implementar uma ousada agenda de desenvolvimento com o objetivo de garantir um planeta mais próspero, equitativo e saudável até 2030. Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), então definidos, incluem 169 metas em grande diversidade de temas, materializando a evolução e o amadurecimento da discussão global sobre desenvolvimento sustentável desde a década de 90. Na abrangente agenda, se destacam erradicação da pobreza, agricultura e segurança alimentar, educação, saúde, redução das desigualdades, energia, água e saneamento, produção e consumo sustentáveis, mudança do clima, proteção e uso sustentável dos ecossistemas terrestres e dos oceanos, crescimento econômico inclusivo, infraestrutura e industrialização, cidades sustentáveis, governança e estratégias de implementação.

Essa agenda é singular por fornecer uma visão inclusiva e integrada de progresso sustentável – certamente o mais ambicioso plano de promoção do desenvolvimento humano até hoje elaborado. E ele não parte do zero. Os 17 objetivos prometem acelerar os avanços que o mundo tem experimentado nas últimas décadas. Em 1990, quase metade da população do mundo em desenvolvimento tinha menos de US$ 1,25 por dia para viver. O índice caiu para 14% em 2015. O número de pessoas pertencentes à classe média trabalhadora (que vivem com mais de US$ 4 por dia) quase triplicou, em termos globais, desde 1990. Nos países em desenvolvimento, a proporção de pessoas em condição de desnutrição caiu quase metade, de 23,3% , em 1990, para cerca de 13% na ocasião da aprovação dos ODS, em 2015.

Os ODS vão partir desses avanços, com foco nos passivos a serem superados, para ajudar as populações que ainda vivem na pobreza e para construir um mundo mais pacífico, próspero e sustentável. Um aspecto inteligente dessa agenda de desenvolvimento é que a maioria dos alvos pretendidos se complementa e se reforça, para evitar que o progresso em uma área não ocorra às custas de outra, erro comum no passado. Por exemplo, o aumento da produção de alimentos deverá ser buscado em sintonia com a gestão responsável dos recursos naturais; a expansão da energia renovável de base hídrica deverá se dar respeitando o abastecimento de água das populações; e a proteção dos oceanos não deve sufocar o crescimento econômico e o desenvolvimento nas regiões costeiras.

Para isso, a materialização dos ODS exigirá abordagens flexíveis, compartilhamento de conhecimentos entre múltiplas áreas e temas, políticas públicas integradas, além de métricas para avaliação sistemática de progresso e correção de rumos, sempre que necessário. É, portanto, fundamental que os governos, as empresas, as agências de fomento, os bancos multilaterais e a sociedade civil trabalhem em sintonia, reconhecendo a interdependência entre os vários objetivos e desenvolvendo competências e roteiros que permitam navegar no complexo terreno de formulação e melhoria de políticas e estratégias de implementação. Esse processo tem o apoio das Nações Unidas e de múltiplas organizações internacionais de desenvolvimento, que estão trabalhando para fornecer um apoio mais efetivo e coordenado, em especial aos países em desenvolvimento, instados a melhorar de forma urgente as próprias capacidades. O governo brasileiro criou, em 2016, a Comissão Nacional para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que tem o IBGE e o Ipea como assessores técnicos permanentes, e é composta por 16 entidades, oito governamentais e oito da sociedade civil.

Essa é uma agenda extraordinariamente oportuna para o Brasil, país de dimensões continentais que ainda não conseguiu organizar o processo de desenvolvimento a partir do empoderamento dos municípios, onde a vida da nação, de fato, pulsa. Promover o envolvimento e a liderança dos governos municipais é vital para experimentarmos os benefícios dos ODS, que incluem metas como gestão aprimorada para controle de despesas, busca de novas fontes de receita, captação de recursos e fortalecimento da credibilidade do poder público. Esse é o caminho para que nossos municípios prestem serviços básicos em favor da inclusão produtiva, da segurança e da sustentabilidade, que estão no âmago dos ODS.

Diversos objetivos e metas estimulam as empresas privadas a adotarem práticas que conduzam a crescimento econômico sustentado, inclusão social e proteção ambiental, integrando a informação de sustentabilidade em seus relatórios e prestações de conta, para daí auferir lucros e melhoria de imagem. É cada vez mais evidente que o engajamento do setor empresarial na busca por soluções para os grandes desafios da sociedade será elemento decisivo na busca de vantagens competitivas nos mercados. Por isso, o setor privado poderá se tornar elemento muito importante na entrega dos ODS.

Por fim, é importante destacar que as organizações científicas e tecnológicas desempenham papel fundamental na inovação para o desenvolvimento sustentável e, também, na modelagem e na aplicação de métricas para o acompanhamento e a medição de progressos. Como alimentação e agricultura têm relação com praticamente todos os ODS, a Embrapa desenvolve ampla avaliação de sua programação de pesquisa e inovação, mapeando interfaces e sinergias com os ODS e suas metas. É fundamental que as organizações públicas e privadas deem ao Brasil a musculatura necessária para a implementação de robusta estratégia que bem nos posicione nesta importante corrida de superação de obstáculos ao desenvolvimento sustentável até o ano de 2030.

*Presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

O ouro negro

Em São Paulo, representantes de regiões produtoras de cacau no Brasil e no mundo reuniram-se para discutir a importância da cultura para a cadeia produtiva

cacau

De grande exportador na década de 1990 à posição de importador e sexto produtor do mundo. Quem acompanha de perto o agronegócio, sabe que estamos falando da cultura do cacau no Brasil. Muito exaltado na literatura brasileira, principalmente na obra do baiano Jorge Amado, o fruto passou por um ciclo que foi do auge à derrocada, tendo enfrentado, inclusive o maior problema fitopatológico do estado da Bahia, a vassoura-de-bruxa – atestado juridicamente em 2006 como um ato criminoso de ação humana.

“Hoje representamos somente 5% da oferta global; na década de 80 chegou a 24%. Estamos equiparados ao Equador, o que para nós é um demérito em termos de produção”, disse Luiz Carlos Corrêa Carvalho, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), no Fórum “A importância do cacau no agronegócio”, promovido pelo jornal O Estado de S. Paulo na manhã desta quinta-feira (10), em São Paulo.

“Como um representante da indústria, trago uma meta de ampliação para os próximos cinco anos – um incremento de 100 mil toneladas de cacau. Quem está acostumado a outras commodities como soja e milho, por exemplo, pode achar o número irrisório, mas para terem uma ideia do quanto isso representa, equivale a 1 bilhão de reais em renda bruta. Temos uma oportunidade incrível nas mãos e temos a obrigação de valorizar os benefícios desta cultura, que além de riqueza, nos traz vantagens sociais porque é totalmente dependente de mão de obra; e ambientais, visto que o cacaueiro tem sido usado para a recuperação de áreas degradadas com grande êxito”, disse Eduardo Bastos, diretor executivo da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC).

Além da Bahia, líder em produção de cacau, o Pará vem ganhando destaque e promete ultrapassar o estado nordestino neste ranking. Nos últimos cinco anos, a produção cacaueira do Pará cresceu de 60 mil toneladas ao ano para 115 mil toneladas anuais, número que corresponde a 42% da produção nacional. Houve também uma expansão de 38% da área cultivada desde 2011, quando foi lançado o Programa de Desenvolvimento da Cacauicultura no Pará (Prodecacau). “De 2011 pra cá, geramos uma renda de R$ 600 milhões. Dentro do Programa, temos o objetivo de alcançarmos 240 mil toneladas de cacau até 2023”, disse Hildegardo Nunes, secretário da Agricultura do Estado do Pará. “Para competirmos em pé de igualdade com outros países, é preciso investimento em mecanização e igualdade em relação à mão de obra”, completou.

A produção de cacau divide-se entre a África, com 73%; a América Latina com 17% e a Ásia e a Oceania com 10%. “Só a Costa do Marfim responde a quase 40% da produção global”, disse Eduardo Bastos. “Noventa e cinco por cento da produção total é proveniente de 5 milhões de produtores. A área média dos produtores é de 3,5 hectares, o que mostra o quanto esta cultura é representativa da agricultura familiar”, completou.

Floresta de chocolate

Durante todo o evento, falou-se do cacauzeiro como um grande aliado na recuperação de áreas degradadas. “Precisamos ter uma nova visão sobre isso. É preciso pagar o produtor preservador. No Sul da Bahia, o cacau é produzido em áreas de altíssima biodiversidade. Quanto vale isso? Não estamos medindo? É nisso que precisamos pensar também”, refletiu Eduardo Athayde, do WorldWatch Institute.

Açúcar em debate

Produção de açúcar no mundo deve crescer de 8,5 milhões a 13,5 milhões de toneladas para 2017/2018, projeta LMC International

seminario-internacional-do-acucarReunindo líderes de importantes países produtores de açúcar no mundo, a LMC International e a Canaplan, com o apoio da Abag, realizaram em São Paulo ontem (7), o Seminário Internacional do Açúcar para traçar um panorama deste mercado e discutir desafios e soluções à demanda crescente pelo produto.

“A perspectiva para 2017/2018 é de que tenhamos um incremento de 8,5 milhões a 13,5 milhões de toneladas de açúcar no mundo”, projetou Martin Tood, diretor gerente da LMC International. Neste contexto de aumento de produção, Tood falou também sobre as expectativas para cada um dos países ou blocos representados. “No Brasil, o crescimento deve ser em torno de 1 milhão de toneladas; fechando a produção entre 39 milhões e 40 milhões de toneladas”, disse. “Na Índia, a produção deve aumentar em até 3,5 milhões de toneladas, passando para 26 milhões de toneladas. A Tailândia deve subir em 2,5 milhões de toneladas sua produção e, com isso atingir 12,5 milhões de toneladas; e a União Europeia também deve ter crescimento parecido, ultrapassando, assim, sua produção em 20 milhões de toneladas”, completou.

China

A China também foi alvo de discussão no evento. Apesar de ter capacidade para incremento em produção, o país crescerá ainda mais como importador. “Lá os produtores têm preferência por outras culturas pelo altíssimo custo de produção e pela escassa mão de obra. Por outro lado, o governo mantém uma política de preço atraente para que as pessoas permaneçam no campo”, disse Gareth Forber, diretor de Pesquisa de Açúcar, da LMC International.

“A consequência foi que os chineses absorveram mais importações. Na China Ocidental, há um déficit de 6 milhões de toneladas. O que não sabemos é como o país vai atender a isso; com estoque ou com mais importações?”, questiona Forber. “Há um estoque na China de 7 milhões de toneladas de açúcar, que está sendo liberado. Mas não há uma política clara de quanto será liberado pelo governo”, disse.