O ouro negro

Em São Paulo, representantes de regiões produtoras de cacau no Brasil e no mundo reuniram-se para discutir a importância da cultura para a cadeia produtiva

cacau

De grande exportador na década de 1990 à posição de importador e sexto produtor do mundo. Quem acompanha de perto o agronegócio, sabe que estamos falando da cultura do cacau no Brasil. Muito exaltado na literatura brasileira, principalmente na obra do baiano Jorge Amado, o fruto passou por um ciclo que foi do auge à derrocada, tendo enfrentado, inclusive o maior problema fitopatológico do estado da Bahia, a vassoura-de-bruxa – atestado juridicamente em 2006 como um ato criminoso de ação humana.

“Hoje representamos somente 5% da oferta global; na década de 80 chegou a 24%. Estamos equiparados ao Equador, o que para nós é um demérito em termos de produção”, disse Luiz Carlos Corrêa Carvalho, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), no Fórum “A importância do cacau no agronegócio”, promovido pelo jornal O Estado de S. Paulo na manhã desta quinta-feira (10), em São Paulo.

“Como um representante da indústria, trago uma meta de ampliação para os próximos cinco anos – um incremento de 100 mil toneladas de cacau. Quem está acostumado a outras commodities como soja e milho, por exemplo, pode achar o número irrisório, mas para terem uma ideia do quanto isso representa, equivale a 1 bilhão de reais em renda bruta. Temos uma oportunidade incrível nas mãos e temos a obrigação de valorizar os benefícios desta cultura, que além de riqueza, nos traz vantagens sociais porque é totalmente dependente de mão de obra; e ambientais, visto que o cacaueiro tem sido usado para a recuperação de áreas degradadas com grande êxito”, disse Eduardo Bastos, diretor executivo da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC).

Além da Bahia, líder em produção de cacau, o Pará vem ganhando destaque e promete ultrapassar o estado nordestino neste ranking. Nos últimos cinco anos, a produção cacaueira do Pará cresceu de 60 mil toneladas ao ano para 115 mil toneladas anuais, número que corresponde a 42% da produção nacional. Houve também uma expansão de 38% da área cultivada desde 2011, quando foi lançado o Programa de Desenvolvimento da Cacauicultura no Pará (Prodecacau). “De 2011 pra cá, geramos uma renda de R$ 600 milhões. Dentro do Programa, temos o objetivo de alcançarmos 240 mil toneladas de cacau até 2023”, disse Hildegardo Nunes, secretário da Agricultura do Estado do Pará. “Para competirmos em pé de igualdade com outros países, é preciso investimento em mecanização e igualdade em relação à mão de obra”, completou.

A produção de cacau divide-se entre a África, com 73%; a América Latina com 17% e a Ásia e a Oceania com 10%. “Só a Costa do Marfim responde a quase 40% da produção global”, disse Eduardo Bastos. “Noventa e cinco por cento da produção total é proveniente de 5 milhões de produtores. A área média dos produtores é de 3,5 hectares, o que mostra o quanto esta cultura é representativa da agricultura familiar”, completou.

Floresta de chocolate

Durante todo o evento, falou-se do cacauzeiro como um grande aliado na recuperação de áreas degradadas. “Precisamos ter uma nova visão sobre isso. É preciso pagar o produtor preservador. No Sul da Bahia, o cacau é produzido em áreas de altíssima biodiversidade. Quanto vale isso? Não estamos medindo? É nisso que precisamos pensar também”, refletiu Eduardo Athayde, do WorldWatch Institute.