Ciência em crise, futuro em risco

Maurício Antônio Lopes*

Maurício LopesNum mundo já imerso na economia do conhecimento, o desenvolvimento de capacidade científica e tecnológica se tornou essencial para o futuro das nações. Hoje, é impossível imaginar progresso continuado e sustentável sem geração de conhecimentos que produzam melhorias econômicas, avanços na capacidade dos governos e na qualidade de vida das pessoas. A ciência, que alimenta a capacidade inventiva do homem, se destaca com eventos impressionantes na trajetória humana, desde a prensa de Gutemberg, que nos deu os livros, à máquina a vapor, que iniciou a transformação industrial do século XX, à revolução verde, com plantas mais eficientes, fertilizantes e defensivos que permitiram a multiplicação da produção de alimentos, salvando milhões de pessoas da fome.
Enquanto mudanças políticas e sociais no mundo se dão de modo lento e linear, a mudança científica e tecnológica se dá, cada vez mais, de modo acelerado e exponencial. Da invenção do
telégrafo ao desenvolvimento do primeiro microprocessador foram 140 anos. Daí por diante, os avanços foram alucinantes: computadores cada vez mais possantes, a Internet, telefones celulares, inúmeras aplicações do laser, CDs e DVDs, mídias sociais, cinema 3D, o carro elétrico, drones, clonagem, medicamentos cada vez mais sofisticados e mais, muito mais. Nunca houve momento melhor para estar vivo na história da humanidade do que agora.
Se os avanços que já alcançamos impressionam, o que ainda está por vir assusta e pode até assombrar. A inteligência artificial integrada à robótica irá virar de ponta-cabeça muitas indústrias
tradicionais na próxima década; a computação cognitiva irá revolucionar o diagnóstico de doenças e prover aconselhamento legal com grande precisão, alterando a medicina e a advocacia de forma radical; carros autônomos mudarão a lógica de mobilidade nas cidades, eliminando a profusão de vias e os imensos estacionamentos, com impactos que modificarão tudo, do traçado urbano à indústria de seguros. Energias alternativas e métodos avançados de dessalinização viabilizarão a produção de água potável em grandes quantidades a custos acessíveis. Impressoras 3D permitirão a produção customizada de calçados, roupas, edificações e até de peças de reposição de máquinas e equipamentos sofisticados em lugares remotos.
Diante de mudanças tão aceleradas, como um país se prepara? Como ajusta sua indústria, os serviços, os empregos e a vida das pessoas às incertezas e rupturas que virão do futuro? Uma
resposta óbvia é: investindo em educação e na geração de conhecimento científico e tecnológico!
Nesses tempos fluidos e mutáveis em que vivemos, é preciso que dirigentes e lideranças compreendam que é da ciência que brotam as fontes mais acessíveis e seguras de orientação para
governos, empresas e cidadãos. Cientistas são, em essência, indivíduos treinados a formular perguntas certas, a modelar experimentos e a partir deles tirar conclusões sustentadas em
evidências. Eles são treinados a acessar informações em múltiplas fontes, a compartilhar o que aprendem ao conjunto do conhecimento disponível, para daí extrair e entregar valor para a sociedade. É por isso que o governo dos Estados Unidos conta com uma plataforma independente, denominada Academias Nacionais, composta pelos mais destacados cientistas do país, que produzem centenas de relatórios que orientam decisões do governo dos EUA todos os anos.
O país que falha em investir na geração de conhecimento próprio e em acessar e adaptar, à sua realidade, o conhecimento gerado em outros países condena sua economia, sua indústria e seus
cidadãos a um futuro de dependência, à mercê do colonialismo tecnológico. Nós já vivemos isto no passado. Infelizmente, o Brasil de novo vive este risco, em função da persistente crise econômica que faz minguar, a níveis críticos, os investimentos públicos em pesquisa, ensino e inovação. Com isso, o Brasil pode ver definhar sua capacidade científica e tecnológica, com danos irreparáveis à infraestrutura de inovação e à política de treinamento e retenção de talentos, construídas a duras penas.
É raciocínio usual que, em momentos de crise fiscal, é difícil para a ciência competir por recursos com segurança pública, saúde, educação e outros setores em que há carências e passivos muito sérios. Mas o momento da crise pode ser também o tempo da criatividade e da ruptura no modo de se fazer as coisas. Além da defesa enfática do financiamento público à pesquisa, ao ensino e à inovação, é preciso também buscar fontes alternativas de financiamento. Por exemplo, aqueles em melhor situação econômica deveriam pagar pela Universidade dos seus filhos. E o Brasil poderia se beneficiar muito de legislação que regulamente a formação de fundos patrimoniais, capazes de receber e administrar recursos de desmobilização de patrimônio, de doações de pessoas físicas e jurídicas em benefício da pesquisa e da inovação. A Embrapa pleiteia há anos o direito de criar uma subsidiária que amplie sua capacidade de colaborar com o setor privado, fortalecendo sua presença no mercado de tecnologias, ao mesmo tempo gerando recursos adicionais para seus projetos de pesquisa. A hora é de agir com coragem e criatividade pela ciência e pelo futuro da sociedade brasileira.

*Presidente da Embrapa

Carne forte da porteira para dentro

Por Renato Ponzio Scardoelli*

Renato PonzioEm 2004 e 2005 foram descobertos focos isolados de febre aftosa, enfermidade causada por vírus que acomete bovinos, bubalinos, caprinos, ovinos e suínos, nos estados do Pará, Amazonas, Mato Grosso do Sul e Paraná. Na oportunidade, as ocorrências acarretaram na restrição de importações de carnes por vários países, em especial a Rússia, um de nossos maiores compradores. Isso gerou perda de confiança no produto brasileiro, custou milhões de dólares em divisas e milhares de empregos.

Os focos serviram de alerta para todos os agentes da cadeia, em particular aos pecuaristas, quanto à importância da vacinação do rebanho e ao cumprimento das demais diretrizes da política brasileira para erradicação da febre aftosa. Desde então, não se registraram novos casos da doença. Atualmente, 23 unidades da federação são reconhecidas como zonas livre de aftosa com vacinação. Santa Catarina é o único estado livre da doença sem vacinação, mas uma recente decisão do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) pretende retirar a obrigatoriedade da imunização de todo o território a partir de novembro de 2018 – com o país sendo declarado livre da doença sem vacinação até 2020.

Uma vitória de toda a cadeia produtiva da carne que trará economia de mais R$ 600 milhões por ano para os pecuaristas e novas perspectivas para os mercados exportadores de bovinos e suínos. Vencida a aftosa, a carne brasileira enfrenta agora nova crise, deflagrada pela Operação Carne Fraca da Polícia Federal, que investiga o envolvimento de fiscais do MAPA e empresários do ramo frigorífico em um esquema que liberava licenças e fiscalização irregular de empresas. Entre as acusações, frigoríficos que vendiam carnes com produtos químicos e fora da validade, além de casos “inusitados”, como a inserção de papelão em lotes de frango e carne de cabeça de porco em linguiças.

Postura deplorável que certamente irá macular a imagem de nossos produtos internamente e causará forte reação em países que mantemos relação comercial. Tais desvios devem ser punidos exemplarmente, com a exclusão dos profissionais do quadro de fiscais do MAPA e sanções às empresas envolvidas, para que se preserve o status alcançado pela carne brasileira no mundo.

Atualmente, só as exportações de carne bovina, suína e de frango rendem US$ 12 bilhões por ano, para um mercado diversificado. Somos os maiores exportadores de carne vermelha para a China, com 16 plantas autorizadas e 40 já credenciadas pelo MAPA aguardam aprovação do país asiático. Desta forma, os chineses já consomem 32% da carne bovina comercializada pelo Brasil.

A operação da PF acontece 8 meses após o País acertar com os Estados Unidos a venda de carne bovina in natura, encerrando uma negociação que se arrastava há 18 anos e demandou esforços hercúleos da cadeia produtiva. Existem 14 estados brasileiros aptos a exportar carne para os EUA, sendo 25% da produção concentrada no Mato Grosso. Com mais de 200 milhões de cabeças de bovinos, o Brasil desenvolveu uma pecuária de excelência graças ao trabalho do pecuarista que começa com a escolha da genética bovina, passando pelos sistemas de criação, manejo pré-abate até a expedição do produto final para a indústria. Sem falar que a carne produzida no Brasil é mais saudável porque nossos bovinos são criados a pasto. Isso torna o alimento rico em Ômega 3, um ácido graxo essencial com ação anti-inflamatória em termos de células.

A pecuária nacional também é reconhecida por sua excelência em produzir material genético bovino de alta qualidade. Os criadores brasileiros souberam fazer o dever de casa, a partir de bons programas de seleção e aumento da produção, e hoje conseguem exportar para dezenas de países. Segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio, Exterior e Serviços, as exportações em 2016 movimentaram US$1,5 bilhão e devem aumentar em 20% em 2017.

Esses números demonstram que o produtor faz seu papel, zelando durante anos para fornecer um animal saudável, em perfeita condição sanitária à indústria.

*É jornalista e radialista.