Como será o amanhã

Para atender à demanda mundial por alimentos, Brasil terá de superar desafios internos e externos. O futuro do agro foi um dos painéis do Summit Agronegócio Brasil 2017

Summit AgroO Brasil vai conseguir alimentar o mundo? – “Podemos, mas não vamos. E sabe por que? Não temos estratégia para isso”. Foram com essas palavras que Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, embaixador especial da FAO para as Cooperativas e presidente do LIDE Agronegócio, iniciou sua participação no primeiro painel- Tendências: o futuro do Agro – no Summit Agronegócio Brasil 2017, em São Paulo. “Temos como vantagens em relação a outros países, terra, água, mão de obra jovem e tecnologia tropical. Em compensação, nos faltam estratégia administrativa, renda e competência na forma de comunicar a importância do agronegócio”, disse. “Claro que hoje a população urbana já reconhece esta importância, mas o que falta ainda é o setor urbano assumir o agro como sendo dele também. O sucesso do agro é de todos”, completou.

Para Rubens Barbosa, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), o futuro do agro dependerá da superação de desafios internos e externos. “Temos de enfrentar algumas questões. Internamente, necessitamos de uma ampliação da pesquisa, do fortalecimento da Embrapa; o custo Brasil é muito alto, em torno de 26% a 30%; demanda mundial por aumento de produtividade; acesso à tecnologia, inovação; logística e infraestrutura; continuidade de reformas que estão sendo votadas no País. No âmbito externo, temos um acirramento da competição e, por isso, torna-se importante o desenvolvimento da agregação de valor aos nossos produtos; alterações geopolíticas e negociações de acordos comerciais, como por exemplo, entre o Brasil e a União Europeia”, disse.

Já para o deputado federal (PSD-PR), ex-ministro da Agricultura e ex-secretário da Agricultura/PR , Reinhold Stephanes, a maior dificuldade do Brasil está em racionalizar questões. “Temos uma agenda de limitações, mas os extremos não conversam. Um exemplo disso se reflete na questão ambiental, muito insegura ainda”, disse.

Os participantes falaram ainda a respeito do seguro rural. “Tão ou mais importante que o crédito porque dará ao sistema financeiro, garantia de renda. Um desastre no agro é um efeito dominó negativo, não só para a cadeia”, disse Roberto Rodrigues. “Há uma necessidade de participação do Governo neste item. Ficar só a cargo do produtor é pesado, eu diria impraticável porque ainda tem um alto custo”, complementou Tarcísio Hübner, vice-presidente de agronegócios do Banco do Brasil.

 

 

 

Comunicação e organização da cadeia são grandes desafios da pecuária no Brasil

Além dos já conhecidos pelo setor, estes são os dois maiores gargalos que a atividade precisa enfrentar para se desenvolver, de acordo com especialistas

Intercorte 2017Para discutir os desafios da pecuária brasileira e o desenvolvimento sustentável e também comemorar seus 10 anos, o Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS) reuniu no segundo dia (16) da Intercorte 2017 – etapa São Paulo – especialistas, pesquisadores e representantes de instituições do setor. Ao fazer um balanço do ano, os painelistas falaram a respeito dos impactos da crise vivenciada pela atividade e a imagem da carne brasileira no mercado internacional, além da importância do relacionamento entre os elos da cadeia. “Este foi um ano atípico. Temos um futuro aparentemente muito bom pela frente”, disse Sérgio de Zen, do CEPEA (Centro de Pesquisas Econômicas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ).

“Temos tecnologia de sobra pra isso; é só olhar os dados de 1999 a 2015 que apontam um decréscimo de 12% a 15% na área de pastagem no País, enquanto o incremento de produtividade foi de 230%”, destacou Cleber Soares, pesquisador da Embrapa. Para ele, o maior gargalo a ser enfrentado pelo setor, além dos já conhecidos, é a organização da cadeia. “Estamos descolados da economia digital e o GTPS tem papel fundamental neste desafio”, disse. O pesquisador enxerga a comunicação como fator crucial neste processo. “A sociedade não nos reconhece. Apenas 23% dos brasileiros veem ligação entre ciência e tecnologia e produção de alimentos”, lamentou.

“Mesmo com a pecuária atropelada pelas crises deste ano, é possível afirmar que a imagem do agro obteve uma melhora sensível”, afirmou Coriolano Xavier, pesquisador do Núcleo de Estudos do Agronegócio, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Para Xavier, que apontou a pesquisa Plant Project – JH/B2F – Bridge Research – A percepção do campo na cidade, divulgada no último 8/11, durante a HSM Expo 2017, como referência, apesar de dados bastante positivos, o estudo mostra também que 60% dos entrevistados não souberam dizer qual é a grande vocação do Brasil. “Precisamos ser mais assertivos em nossa comunicação. Há muito espaço ainda para o agro crescer com isso e sermos reconhecidos como a grande vocação do Brasil”, disse.

 

 

 

 

 

Potencial de crescimento do agronegócio é forte, mas não pode ser o único setor a ir bem

Com a demanda mundial por alimentos crescente, o agronegócio brasileiro deve continuar se expandindo, concordaram especialistas em debate sobre os desafios e perspectivas do setor. Mas esse crescimento não seria sustentável no médio e longo prazos e reformas são necessárias para equilibrar a economia 

Cristina Rappa

As reformas devem sair e o Brasil deve entrar eixos, acredita Mendonça de Barros (1o à dir.), no debate com Paulo Rodrigues (1o à esq.) e Fava Neves (2o à esq.), e moderado por Carlos Mercante, da Mosaic

“O paradoxo do agronegócio é que ele teve resiliência e permitiu ganhos, enquanto o restante da economia sofria”, afirmou o consultor Alexandre Mendonça de Barros, da MB Agro, logo no início da mesa redonda organizada na manhã desta 4a feira, 31, pela Mosaic Fertilizantes, para discutir o desempenho atual, os desafios e perspectivas do setor.

Segundo Barros, entre um cenário de real enfraquecido e juros altos, favorecendo as exportações de soja e milho, e outro, com a economia se recuperando, com real valorizado, mas taxas de juros e inflação mais baixas, entre outros indicadores favoráveis, o ideal é torcer pelo segundo. Para ele, que usou como exemplo a Argentina, a economia do país fragilizada minaria, com o tempo, as conquistas obtidas pelo agro.

Para a recuperação da economia e o “Brasil entrar nos eixos”,  tanto Mendonça de Barros, como Marcos Fava Neves, professor da FEA/USP-Ribeirão Preto e da consultoria Markestrat, e o produtor Paulo de Araújo Rodrigues, diretor do Condomínio Agrícola Santa Izabel, seus colegas na mesa redonda, foram unânimes em afirmar que as reformas trabalhista e da Previdência, em discussão no congresso, e uma possível fiscal, são fundamentais.

Na avaliação da MB Agro, a agenda reformista deve ir para a frente. “O potencial de crescimento do agro é enorme, mas não dá para ser o único setor que cresce. Aí, correremos o risco de um governo taxar a agricultura, recriar o Funrural…”, completou Mendonça de Barros, temendo por prejuízos ao agronegócio.

Mercado crescente

Fava Neves acredita que, com exceção da laranja (em função da queda mundial da demanda) e do algodão (por concorrência com as fibras sintéticas), todos os demais segmentos do agro devem apresentar crescimento. “Existe mercado grande para as exportações brasileiras”, disse, acrescentando que as compras de nossos grãos pela China, que já dobraram nos últimos dez anos, devem continuar crescendo.

Neves está seguro de que o Brasil tem grandes mercados, mas “a questão é se o agricultor brasileiro vai conseguir expandir sua produção nas condições de custos e preços atuais”.

No que Paulo Rodrigues, representando os agricultores, respondeu: “a agricultura brasileira vai sobreviver de qualquer jeito, mas vai trocar de mãos” se não houver reformas trabalhista e fiscal, e se a situação de insegurança jurídica com relação à aplicação das leis ambientais persistir. Ele lembrou, ainda, a necessidade urgente de resolução dos problemas de infraestrutura logística brasileira, especialmente na armazenagem e no transporte, e citou ainda a melhoria da gestão das propriedades como uma questão fundamental para a sobrevivência do agricultor.

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