Programa trabalha recuperação ambiental a partir do desenvolvimento do pequeno agricultor

Produtores de uma região de rica biodiversidade e baixo índice de desenvolvimento, na Bahia, recebem assistência, degradação ambiental é reduzida e duas aves consideradas extintas da região são novamente avistadas

EM PERIGO Crejoa macho (Cotinga maculata) Foto Fernando Flores flores

Crejoa macho (Cotinga maculata) Foto: Fernando Flores Flores

As espécies de aves choquinha-de-rabo-cintado (Myrmotherula urosticta) e crejoá-macho na região (Cotinga maculata), endêmicas – ou seja, que só existem naquele local – e ameaçadas de extinção foram recentemente avistadas no Baixo Sul da Bahia, região de mata atlântica, por pesquisadores da Universidade Estadual de Feira de Santana e da instituição Organização de Conservação da Terra (OCT), depois de mais de um ano sem registro de sua presença. O fato foi comemorado pelos pesquisadores, não só pela volta das belas aves, mas por ser considerado um dos indícios dos bons frutos de um programa que trabalha a conservação ambiental alinhada ao desenvolvimento econômico da população.

Trata-se do Programa de Desenvolvimento e Crescimento Integrado com Sustentabilidade do Mosaico de Áreas de Proteção Ambiental do Baixo Sul da Bahia – PDCIS, coordenado e apoiado desde 2003 pela Fundação Odebrecht em onze municípios com baixo índice de desenvolvimento humano e onde vivem 285 mil pessoas. Para promover o desenvolvimento das famílias no meio rural, dar-lhes meios de obterem sua subsistência e perspectivas de crescimento, para que tirem sua renda do ambiente de forma sustentável e ainda para evitar o êxodo rural, o programa procura fomentar os capitais humano (por meio da educação e assistência técnica), produtivo, social e ambiental. Quem explica é o  engenheiro agrônomo Volney Fernandes, diretor executivo da OCT: “É preciso alinhar o desenvolvimento socioeconômico com a questão ambiental. Pois, se não se trabalha a causa, não há recuperação do ambiente”.

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Choquinha-de-rabo-cintado (Myrmotherula urosticta) Foto: Marcel Lemos

A área de proteção ambiental (APA) do Pratigi, onde se concentra o trabalho da OCT, possui cerca de 170 mil hectares, engloba cinco municípios e abriga 86 mil habitantes, dos quais metade está na área rural. Já perdeu – desde 1970, quando se iniciou o seu monitoramento por satélite – quase 38 mil ha de mata atlântica. Entre as fontes do desmatamento a principal era a exploração da madeira. Com a fiscalização para se impedir a atividade, que passou a ser ilegal, e o fechamento das serralherias, além de um trabalho de educação do pequeno agricultor – para que abandonasse determinadas práticas nocivas, como a queimada, adotasse melhor manejo das culturas e melhor gerisse sua propriedade -, a mata foi se recuperando e o desmatamento, apesar de ainda não eliminado, teve sua taxa reduzida para 0,6% em 2014.

O plano de recuperação inclui a orientação sobre o melhor uso do espaço agroflorestal, tendo a cultura do cacau ou da seringueira, por exemplo, como âncora. Gera renda e ainda permite o cultivo consorciado de frutas e grãos, além de criações, para fornecer alimento à família do agricultor.

Paralelamente, é desenvolvido um trabalho educativo com os jovens, para que modernizem a gestão, adotem uma visão empreendedora e enxerguem na atividade rural uma oportunidade de desenvolvimento, motivando-se a ficar. “O objetivo é reverter a lógica do êxodo rural, especialmente entre os jovens, que não viam perspectivas na atividade do pai”, conta o executivo da OCT.

Com a melhoria da gestão das propriedades e do habitat, a fauna foi se recuperando nessa região rica em biodiversidade. “Das cerca de 800 espécies de aves registradas em todos os biomas encontrados no Estado da Bahia (mata atlântica, cerrado e caatinga), quase 400, ou seja, a metade, são encontradas no Pratigi”, orgulha-se Fernandes.

O PDCIS, que foi reconhecido pela ONU em 2010 com o Prêmio ao Serviço Público das Nações Unidas na categoria “Melhorando a participação cidadã nos processos de decisões públicas através de mecanismos inovadores”, trabalha ainda em conjunto com o poder público e três universidades locais. Segundo a Odebrecht, os recursos aportados por todos os envolvidos nas ações desenvolvidas somam cerca de R$ 1 milhão.

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