Resgate da mata atlântica

Reserva da Suzano Papel e Celulose, na região de Mogi das Cruzes/SP, gerida pelo Instituto Ecofuturo, promove eventos, treinamentos e programas de ecoturismo para sensibilizar a população pela preservação do bioma

Abrir as porteiras de sua RPPN, ou Reserva Particular do Patrimônio Natural, para a comunidade pode ser uma boa alternativa para mantê-la. Se em locais turísticos tradicionais como Bonito/MS, isso já é realidade, com os fazendeiros destinando parte de sua área para a exploração do ecoturismo e, com isso, ajudar a bancar os custos da propriedade e ainda conservar o ambiente, maior patrimônio da região, a prática – ainda incipiente em boa parte do país – também foi adotada no Parque das Neblinas, uma reserva de 6,1 mil hectares nos municípios de Mogi das Cruzes e Bertioga, em plena Serra do Mar.

A área da reserva já foi dominada pelo cultivo de eucaliptos e foi muito degradada nos anos 1940 e 50, com a retirada das árvores para a produção de carvão para uso em siderurgia. Adquirida pela Suzano Papel e Celulose, iniciou em1988 um plano de manejo visando sua recuperação e adequação ao Código Florestal vigente na época, do início dos anos 60. Em 1997, parte da área (1.300 ha) é transformada em reserva.

Quem resgata a história é o engenheiro florestal Paulo Groke, diretor do Instituto Ecofuturo, ONG criada em 1999 nas comemorações dos 75 anos da Suzano e responsável pelo gerenciamento da reserva. “O Parque das Neblinas, inaugurado em 2004, já com 2.800 ha, ganhou nova área da Suzano em 2013, chegando aos atuais 6.100 ha, dos quais 518 são uma RPPN”, conta Groke, também colocando em números os recursos naturais do lugar: 400 nascentes, 238 espécies de aves, 315 de árvores, 59 de anfíbios, 35 de mamíferos e 96 orquídeas. Na área ainda foram realizados 58 trabalhos científicos.

Cristina Rappa

O tangará, uma das aves que podem ser avistadas na reserva

Ecoturismo para sensibilizar

Como a educação ambiental e a sensibilização da comunidade são importantes para a conservação do bioma, a Ecofuturo lançou em 2003 um programa de visitas ao parte, que a partir de então recebe escolas, pesquisadores e pessoas que querem visitar e passar um dia na mata. Entre as atividades que o parque oferece estão: canoagem no rio Itatinga, que corta a reserva e possui corredeiras; passeios de bicicleta, trilhas auto guiadas ou monitoradas a pé, banhos de cachoeira e camping. “Estamos pensando em incentivar a prática de birdwatching aqui, já que a reserva é rica em espécies, cuja relação foi levantada pelo Prof. Reginaldo Donatelli, do Instituto de Biociências da Unesp de Bauru”, anuncia Groke.

Um dos objetivos é que o parque ajude a desenvolver a comunidade local com atividades sustentáveis. Por isso, os monitores são formados na área e são moradores do distrito, que conhecem muito bem a região.

Além disso, é feito o manejo florestal madeireiro e não madeireiro, este com o cultivo do cambuci e da palmeira juçara, para aproveitamento de seus frutos. Os visitantes podem, inclusive, experimentar pratos que levam esses ingredientes.

Mas os principais atrativos, segundo Dias, são o Rio Itatinga e a Mata Atlântica.

Em 2010, criaram o programa Reservas Ecofuturo, que presta assessoria a outras RPPNs

107 bibliotecas comunitárias em 112 estados brasileiros, com a doação de livros cujo acervo é selecionado pelo Fundo Nacional do Livro Infantojuvneil.

 

Serviço:

As  visitas podem ser agendadas por meio dos telefones 4724-0555 e 4724-0556.

Quanto custa? os valores variam: acampar por uma noite custa R$ 40; percorrer uma trilha de 10 km de bicicleta, R$ 60; e canoagem, R$ 95.

Informações: parquedasneblinas@ecofuturo.org.br

 

 

 

 

 

 

Duas realidades

Por Coriolano Xavier*

23.03.2012 - ANDEF Fotos: Tatiana FerroEm 2004, houve um desmatamento de 28.000 km² de floresta na Amazônia. De lá para cá, houve um recuo de 80% no ritmo anual de derrubada da floresta até 2015, quando então cresceu 24%. Em 2016 mais um avanço de 28%, com quase 8.000 km² desmatados, indicando talvez o começo de uma tendência ascendente.

Em relação a 2014, a derrubada de 2016 mostra aumento de 60%. Mais de um terço ocorreu em terras públicas não destinadas (25%) e áreas protegidas (12%); também em áreas privadas (35%) e assentamentos (28%). Mas não é tão simples assim. Por trás desses números se escondem histórias de grilagem de terras públicas, invasão de áreas privadas, extração ilegal, registros falsos, confrontos armados com a fiscalização. Verdadeiros casos de polícia.

E o argumento de que o desmatamento é fator de progresso econômico na região parece não se sustentar muito, segundo dados do Ipam e Imazon¹. Eles mostram que entre 2004 e 2015 o PIB agrícola da Amazônia cresceu de R$ 15 bilhões para R$ 50 bilhões, enquanto a derrubada anual caiu de 28.000 km² (pico histórico) para 7.000 km². Antes disso, o ritmo da derrubada era maior do que a evolução do PIB agrícola.

Como contraponto à pirataria florestal, observa-se na região o crescimento gradual de sistemas agroflorestais tecnificados (em assentamentos ou operações de maior escala), que melhoram progressivamente seus resultados de produtividade e manejo adequado da floresta. Ainda são poucos, mas representam um rompimento com o modelo de desmatamento e criação extensiva, que se esgota em poucos anos e deixa um saldo de solo degradado.

Enquanto isso, a Embrapa Monitoramento por Satélite divulgou em junho um estudo de dados geocodificados do Cadastro Ambiental Rural (CAR)², analisando o impacto da agricultura no meio ambiente, em quase 4 milhões de imóveis rurais cadastrados até dezembro de 2016, em 5.570 municípios. Eles representam 400 milhões de ha e neles foram detectados 170 milhões de ha de vegetação nativa preservada dentro dos imóveis, entre áreas de preservação permanente e reservas legais.

As análises da Embrapa mostram que, no seu conjunto, “os produtores preservam em vegetação nativa uma parcela dos imóveis superior à exigida pelo Código Florestal, que é de no mínimo 20%”. Nas áreas agrícolas do Sul, os agricultores preservam em média 26% das terras, no Sudeste 29% e no Centro-Oeste 49%. Mato Grosso do Sul, Espírito Santo e parte do Nordeste ainda não estão incorporados ao CAR, mas a Embrapa projeta que a tendência das análises tende a se manter em todas as regiões.

São duas realidades bem distintas nessa questão ambiental. De um lado, a surpresa dos estudos da Embrapa, mostrando que estigmatizar a agricultura como vilã da preservação da vegetação nativa pode não ter fundamento. Desrespeitos às regras ambientais pelo país afora serão encontrados, certamente. Mas essa não parece ser a regra. Ao contrário, do ponto de vista da legislação ambiental o agricultor – no seu conjunto – parece estar com saldo positivo.

Já na Amazônia, o desafio ainda é a recorrente pirataria florestal, que acaba sempre virando manchete da mídia internacional. Contra ela a solução parece que passa principalmente pelo fortalecimento de políticas públicas de controle, que estão fragilizadas nesse Brasil de crise e cofres públicos esgotados. Requer também um estímulo maior à reconfiguração tecnológica do agro regional e, talvez, até a criação de incentivos econômicos à proteção do ambiente, pagando por benefícios ecossistêmicos e tornando a preservação mais rentável do que a derrubada predatória da floresta. Tudo isso, é claro, caminhando junto.

Esta é uma boa causa a ser apoiada e propagada pelas lideranças do setor, pois diz respeito a um problema que pode interferir no bolso e no futuro de todos. Afinal, já temos segurança alimentar, o país caminha para ser o maior produtor agrícola mundial e não devemos deixar que queimem a imagem e o conceito do agro brasileiro no mercado internacional.

(1)     Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), in Exame, ed. 5 julho 2017.

(2)    Análises geradas pelo Gruto de Inteligência Territorial Estratégica (Gite), da Embrapa.

*Vice-Presidente de Comunicação do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e Professor do Núcleo de Estudos do Agronegócio da ESPM.

Fundo de investimento para deter desmatamento tropical e impulsionar agricultura é criado em Davos

Parceria público-privada quer proteger cinco milhões de hectares de países que estão trabalhando para reduzir o desmatamento e a degradação de florestas

Redação*

O governo da Noruega está criando um novo fundo de investimentos para agricultura sem desmatamento em países que estão trabalhando para reduzir a degradação de suas florestas e turfeiras. Para tanto, trabalhará em parceria com o Fundo Global para o Meio Ambiente, um programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, com a IDH (Iniciativa de Comércio Sustentável) e com as principais empresas de alimentos e ONGs ambientais.

O principal objetivo do fundo é proteger cinco milhões de hectares de florestas e turfeiras até 2020, área equivalente ao tamanho do território da Costa Rica.

A Noruega anunciou um investimento inicial de US$ 100 milhões e uma meta de capitalização de US$ 400 milhões até 2020, montante que será obtido de outros doadores bilaterais e multilaterais, além do setor privado. Parte deste valor será utilizado para ajudar a produtividade dos pequenos agricultores.

Hoje a agricultura é um dos maiores causadores do desmatamento. De 2000 a 2012 foram desmatados 2,3 milhões de Km² de floresta. Até esse período, os investimentos no aumento da produção agrícola tendiam a favorecer a expansão das florestas tropicais, em vez de intensificar a produção agrícola nas terras aráveis existentes.

A expectativa é de que o fundo proporcione um incentivo para os governos com florestas tropicais por meio de investimentos em países e regiões que protegem as florestas e reduzem as emissões de gases de efeito estufa, como a Aliança para Florestas Tropicais 2020, uma parceria público-privada global para impulsionar ações para cadeiras de suprimento sem desmatamento, organizadas no Fórum Econômico Mundial.

“O futuro do planeta depende de nossa capacidade comum de proteger e restaurar as florestas em uma escala sem precedentes e, ao mesmo tempo, aumentar a produção agrícola para atender às crescentes necessidades globais. Através deste fundo, trabalharemos com os governos, o setor privado e a sociedade civil para que isso aconteça de forma inovadora”, disse Erna Solberg, primeira-ministra da Noruega, durante a Reunião Anual do Fórum Econômico em Davos.

Espera-se que o fundo ajude aos países com florestas a cumprir os compromissos assumidos mediante o Acordo Climático de Paris da ONU e contribua com uma série de Metas de Desenvolvimento Sustentável, tais como redução da pobreza; erradicação da fome; trabalho decente e crescimento econômico; gestão sustentável da água; fim à degradação da terra e perda de biodiversidade, entre outras.

“É extremamente importante unirmos forças para proteger as florestas e as turfeiras e, por consequência, o nosso clima. Estamos muito satisfeitos pelo fundo estar sendo lançado e, o que é essencialmente importante, por termos também o setor provado empenhado nessa causa”, disse Erik Solheim, diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

Os principais membros da indústria global de bens de consumo, como Carrefour, Marks & Spencer, Mars, Metro, Nestlé e Unilever expressaram o seu apoio, assim como o Fórum dos Bens de Consumo e outras associações industriais. A Unilever é a primeira investidora corporativa no fundo, com um aporte de US$ 25 milhões por um período de cinco anos.

O fundo será formalmente criado e incorporado pela IDH como uma entidade jurídica independente ainda este ano.

*Com informações da assessoria da IDH.