Brasil deve valorizar sua marca e seu patrimônio ambiental

Recomendação foi feita por especialistas durante o 15º Congresso Brasileiro do Agronegócio, promovido pela ABAG, nesta 2a feira (08), com o tema “Liderança e Protagonismo”. Economista pede fim da insegurança regulatória e menos interferência do Estado

Cristina Rappa

O embaixador Marcos Azambuja, ladeado por Marcelo Furtado, Zeina Latif e Roberto Rodrigues, e o moderador, jornalista Fernando Lopes : “a dimensão do agro é que deu grandeza ao Brasil”

“Há uma oportunidade imensa de cooperação entre a diplomacia e quem trabalha no campo, o agricultor”, afirmou o embaixador Marcos Azambuja em sua apresentação no 15º Congresso Brasileiro do Agronegócio, promovido pela Associação Brasileira do Agronegócio – ABAG, nesta segunda-feira (08) em São Paulo, com o tema “Liderança e Protagonismo. Para o embaixador, a área de comércio exterior do Brasil deve voltar a trabalhar “sem preconceito ideológico e em busca dos melhores negócios a fazer”, e procurar agregar patrimônio intelectual, ou seja, marca, a seus produtos.

“A dimensão do agronegócio é o que deu grandeza ao Brasil. Tanto que o Brasil entrou em recessão, mas o agro não. Ele continuou crescendo, apesar de não manter os patamares anteriores”, completou o embaixador.

Já o engenheiro químico Marcelo Furtado, representante da Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, que tem como proposta fomentar a agricultura sustentável, e diretor-executivo do Instituto Arapyaú, participante do mesmo painel de Azambuja, deu ênfase à necessidade de se investir na economia de baixo carbono, destacando o papel fundamental do agro nesse processo. “O Brasil tem de recompensar e reconhecer aqueles que fazem a lição de casa direito”, afirmou, criticando a prorrogação do prazo final de entrega do CAR, o Cadastro Ambiental Rural, pelos produtores.

Para Furtado, o país deve valorizar seu patrimônio ambiental e a recuperação de áreas degradadas é boa para todos: “a economia, o ambiente e as pessoas”. A seu ver, um dos grandes desafios atuais é pensar como engajar os jovens a permanecerem no campo e a participarem do agro. “Sem educação, não dá para aproveitar e engajar o jovem no campo”, sugere. “O agro tem que criar uma relação de conexão com o jovem”.

Furtado pediu ainda tratamento e políticas diferenciadas ao pequeno produtor, sob risco de exclusão de grande parte do setor produtivo na agricultura.

E a economista Zeina Latif, da XP Investimentos, também debatedora no mesmo painel, reclamou da insegurança regulatória e jurídica, que afastaria os investidores do agronegócio brasileiro. “Não dá para ficarmos presos naquela agenda do passado”, reforçou, pedindo que o Estado interfira menos, seja mais moderno e eficiente, tenha relações trabalhistas mais flexíveis, para o “agro ser realmente protagonista.

Programa de cooperação internacional prevê investir na cadeia da carne no Brasil

Liderado pela Carbon Trust e financiado pela Embaixada Britânica no Brasil, projeto quer aliar conscientização, assistência técnica e financiamento, com o objetivo de aumentar a produtividade e reduzir o impacto ambiental gerado pelo setor

Cristina Rappa pecuária

Reunindo representantes do Governo brasileiro, empresas do setor de carne e organizações com expertise técnica, a Carbon Trust, consultoria britânica de estímulo à economia de baixo carbono, apresentou na tarde desta terça-feira (12) um Programa de Eficiência de Recursos na cadeia da carne para o País. “Hoje temos diversas iniciativas que visam uma utilização mais eficiente dos recursos dessa cadeia, como o Plano ABC, ferramentas de financiamento do Banco do Brasil e do BNDES, além de programas da Embrapa e da iniciativa privada que fomentam a adoção de boas práticas em fazendas. O que observamos é que existem fatores limitantes a essas iniciativas, como excesso de burocracia nos processos, especialmente para a liberação do crédito, falta de capacidade técnica, barreiras culturais e ainda a falta de integração entre elas”, diz João Lampreia, gerente da Carbon Trust no Brasil.

Para isso, a consultoria, que finalizou essa fase de desenho e estruturação do programa, que tem como proposta combinar conscientização sobre a adoção de boas práticas, assistência técnica e financiamento, busca agora financiadores nacionais e internacionais para a captação de US$ 120 milhões, dos quais US$ 100 milhões em empréstimos concessionais internacionais e US$ 20 milhões em recursos não reembolsáveis nacionais ou internacionais – que envolveriam atividades de comunicação, assistência técnica, coordenação e gestão.

O Programa atuará em cinco principais áreas – pecuária de corte, transporte boiadeiro, processamento, transporte refrigerado e varejo. “Pelo estudo que fizemos, o projeto geraria maiores resultados em atores de médio porte da cadeia, e a região onde deveremos concentrar maiores esforços corresponde ao cinturão do desmatamento, no norte do Mato Grosso”, diz Lampreia, informando que o Programa espera atingir 2 mil produtores, 50 unidades processadoras, 50 supermercados, e recuperar 200 mil hectares de pastagens degradadas. Com isso, espera-se uma redução da emissão de 16 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2). “Vale lembrar que há muitas iniciativas porteira adentro, mas que queremos trabalhar também porteira afora. Tudo pode e deve caminhar junto. Todos os braços dessa cadeia podem se beneficiar. A oportunidade é igual para todos”, complementa.

“O Brasil tem um papel central na redução de emissão de carbono e tem o poder de convocar outros países neste trabalho, por sua posição geográfica, histórica e econômica”, diz Thomas Giblin, economista sênior da Embaixada Britânica no Brasil, financiadora do Programa. Como capacitação e crédito são grandes entraves históricos para o desenvolvimento das atividades agropecuárias, o programa prevê justamente focar nesses pontos. “É uma oportunidade para melhorar a eficiência do setor no Brasil”, afirma, por sua vez, Simon Retallack, gerente da Carbon Trust para América Latina.

Impacto ambiental

De grande importância para a economia do País, que é o maior exportador mundial de carne bovina, o setor gera, porém, um impacto ambiental muito alto. Segundo dados do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) de 2015, a pecuária é diretamente responsável por 17% das emissões de gases de efeito estufa no Brasil, além de ser uma das causas de desmatamento e de degradação de terras contínuos, que segundo a SEEG respondem por mais de 24% do impacto do País sobre as mudanças climáticas. Com o aumento da eficiência dos criadores e a recuperação de pastagens degradadas, não haverá necessidade de desmatar áreas de florestas para aumentar a produção de carne brasileira. “O Programa está alinhado com o compromisso assumido pelo Brasil na COP21 em Paris”, diz Lampreia. Na ocasião, o governo brasileiro se comprometeu em reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 43% até 2030.

Como os consumidores, especialmente dos países desenvolvidos, estão cada vez mais preocupados com a origem dos produtos que consomem e o impacto socioambiental que eles causam, adotar as boas práticas preconizadas pelos parceiros da Carbon Trust pode abrir novos mercados e facilitar a comercialização da nossa carne, acredita Retallack.