Carne do Pantanal ganha protocolo de certificação

Criado pela ABPO, procedimento é o primeiro no Brasil a incluir conservação ambiental em selo de raças bovinas

Expedição WWF-Brasil - Pantanal

A Associação Brasileira de Produtores Orgânicos (ABPO) e o WWF-Brasil uniram-se para anunciar o “Protocolo de Carne Sustentável”, que quer garantir origem e rastreabilidade de animais em toda cadeia produtiva da região pantaneira e a padronização de seus processos. “Este protocolo é uma sistematização do modelo tradicional do pantaneiro, que ocupa a região há mais de 200 anos com pecuária. Este trabalho permitiu que 82% do Pantanal fosse preservado”, disse Eduardo Afonso de Cruzeto, diretor financeiro da ABPO. “O pantaneiro é o grande responsável pela preservação da maior área úmida do planeta. Ele soube adaptar sua atividade ao ciclo das águas, de cheia e vazante, que caracteriza o bioma. Isso por si só já é sustentável”, acrescentou Júlio César Sampaio, coordenador do Programa Cerrado Pantanal do WWF-Brasil.Expedição WWF-Brasil - Pantanal

“Nós temos o sonho de levar a carne pantaneira ao maior número de consumidores. E também de fazer com que isso seja mais rentável para o produtor. Somos uma gestora de processo de negócios”, disse Leonardo Leite de Barros, presidente da ABPO. De acordo com ele, todos os associados (18 membros e 22 propriedades) hoje são capazes de cumprir o protocolo que estabelece a adoção de boas práticas produtivas como ajuste de lotação de pastagens para evitar compactação, perda de nutrientes e desequilíbrio do solo; a não utilização de produtos químicos no solo; utilização de pastagens nativas do Pantanal; proteção de recursos hídricos e recuperação de áreas degradadas, por exemplo. Além da preocupação com o bem-estar animal durante todo o processo, os bois têm identificação individual, com informações com o ano em que nasceu, raça, fazenda, tipo de nutrição e intervenções. O procedimento é o primeiro no país a inserir a conservação ambiental em certificação de raças bovinas.

Expedição WWF-Brasil - PantanalPara Jorge Antônio Ferreira de Lara, chefe geral da Embrapa Pantanal, é possível expandir o modelo de produção de carne do Pantanal para outras regiões. “Não terá o mesmo encanto, mas é praticável. No Cerrado, por exemplo, que teve metade de sua área desmatada pelo cultivo de soja, milho, algodão etc, onde a carga residual de insumos no solo é alta, não se conseguirá produzir algo com a mesma qualidade e exuberância”, explica. “Para o pantaneiro, produzir carne sustentável é algo natural;o bioma determinou isso”, disse o pesquisador.

Mercado

A comercialização do produto certificado por este protocolo será feita, inicialmente, pela Korin, alimentos orgânicos. “Até que o preço do frango orgânico se tornasse mais acessível ao consumidor, passaram-se cerca de 15 anos. Acredito que com a carne não será muito diferente”, disse Reginaldo Morikawa, diretor geral da Korin. Para ele, a carne produzida no Pantanal deve seguir os mesmos passos da produção de algumas frutas, associadas a determinadas regiões do Brasil, como o melão de Mossoró/RN. “As pessoas são bem intencionadas, mas não têm dinheiro, por enquanto, para pagar o preço”, completa.

A empresa, que tem no mercado produtos com os selos “orgânico” e “sustentável”, iniciou a produção de carne em 2015 com 5 toneladas por mês. “Começamos testando com 22 animais. Hoje, produzimos em torno de 100 toneladas por mês. A expectativa é dobrar esse volume em dois anos”, anseia o diretor.

O “Protocolo de carne sustentável” é auditado pelo Instituto Biodinâmico (IBD) e fiscalizado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), sob a responsabilidade da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

 

 

 

Gado Pantaneiro, genuinamente brasileiro, tem dupla aptidão

Além da rusticidade, essencial para sobreviver no Pantanal, raça, cujos estudos para conservação estão em andamento, produz bem carne e leite

Divulgação

Gado Pantaneiro criado na Fazenda Sta. Teresa da Quinta, no MS. Divulgação UEMS

O programa de recuperação da raça Pantaneiro, coordenado pelo Núcleo de Conservação de Bovinos Pantaneiros de Aquidauana (Nubopan), da unidade de Aquidauana da a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), iniciado e 2009, tem se dedicado agora a identificar e selecionar animais com bom potencial para ganho de peso de produção leiteira, formando assim as linhas de corte e leite.

De origem europeia, esses animais ainda são altamente rústicos. Vindo ao Brasil com os colonizadores, há mais de quatrocentos anos, sofreram intensa seleção natural, o que levou a um gado altamente adaptado às condições ambientais extremas do Pantanal, como elevada tolerância ao calor, aos ecto-endo-parasitas e ao ciclo anual das águas, com períodos intermitentes de seca e alagamentos prolongados.

Todavia, os bovinos Pantaneiros conservaram de seus ancestrais europeus a elevada habilidade materna, a boa capacidade para produção de leite e uma carne diferenciada, macia e com bom marmoreio.

Os experimentos conduzidos no Nubopan verificaram que as novilhas primíparas da raça produzem de 6 a 7 litros de leite/animal/dia (média lactacional). Esta produção não chega perto de uma vaca Jersey ou Holandesa, que produzem de 20 a 25 l/vaca/dia, o que é um número interessante, se se pensar que a produção média de leite no Mato Grosso do Sul está em 2,2 litros/vaca/dia.

Rusticidade

Os marcadores moleculares têm auxiliado os pesquisadores a encontrar a origem da rusticidade do gado Pantaneiro. O gene Thrifty, por exemplo, extremamente raro em bovinos europeus, foi encontrado em 30% da população do Nubopan. “Animal que não se adaptou ao ambiente hostil do Pantanal, morreu. Sobraram somente os resistentes”, explica o Prof. Marcus Vinícius Moraes de Oliveira, coordenador do programa.

Segundo o pesquisador, os animais da raça são os únicos bovinos que conseguem pastorear em regiões alagadas. Também modificaram seu hábito de pastejo, se alimentando nas horas frescas do dia e à noite. A cobertura das fêmeas pelos touros também ocorre normalmente à noite, quando as temperaturas são mais baixas. A pele escura e os pelos claros ainda contribuem para a adaptação às temperaturas elevadas.

Legado

“Buscamos fortalecer as linhagens para que, em breve, os criadores possam, ao abrir catálogos de sêmen, encontrar touros pantaneiros”, diz o pesquisador. “Será um legado aos produtores e mais uma opção de criação dentre as raças hoje no mercado”, completa, afirmando que espera que esta meta seja atingida nos próximos dez anos.

De acordo com Oliveira, neste ano já existe a possibilidade de haver o primeiro tourinho da raça, cujo destaque é a rusticidade – por ser portador do gene Thrifty – em uma central de coleta de sêmen. Até o final do ano, deverão ser finalizadas as seleções das linhagens com vocação para carne e leite.

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Raça bovina de origem europeia, resultado de seleção natural no Pantanal, está ameaçada de extinção e vem sendo estudada por equipe da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS)

Pantaneiro Fazenda São Gerônimo - MT b

Gado Pantaneiro criado na fazenda S. Gerônimo, em Rondonópolis/MT. Divulgação UEMS

O gado Pantaneiro, conhecido popularmente como Cuiabano, corre o risco de se manter vivo apenas em verso-e-prosa, como nas canções regionais em que costuma ser destacado. Isso porque, apesar de seus mais de quatro séculos de existência, nos últimos cem anos (1916 a 2016) sua população caiu de 3 milhões de cabeças para cerca de 500 indivíduos puros.

A chance de recuperação desta raça bovina, resultado do cruzamento e seleção entre animais trazidos pelos colonizadores da América do Sul – espanhóis e portugueses – aparece com o projeto de pesquisa coordenado pelo Núcleo de Conservação de Bovinos Pantaneiros de Aquidauana (Nubopan), da unidade de Aquidauana da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). As pesquisas tiverem início em 2009, com a  aquisição de 15 bezerras recém-desmamadas, adquiridas em sistema de parceria com a Emprapa Pantanal.

Pesquisa genética, feita na Universidade de Córdoba, na Espanha, que detém o maior banco genético bovino do mundo, mostrou que o Pantaneiro tem origem em onze raças europeias puras. “A seleção natural resultou em um animal totalmente adaptado às condições do Pantanal”, explica o Prof. Marcus Vinícius Moraes de Oliveira, coordenador dos estudos.

A origem europeia revela-se na ausência do cupim, na quase falta de umbigo e na presença  de barbela. Outras características da raça, que é bastante resistente ao ambiente alagado do bioma por diversos meses do ano, são os chifres grandes e elegantes, e a pelagem, que muda conforme a época do ano e proporciona um certo mimetismo na paisagem, confundindo os predadores. Por falar em predadores, a característica comportamental desse rebanho, de se agrupar ao sentir a presença do inimigo, o faz levar vantagem diante de possíveis ataques de onças. O que não acontece com o Nelore, por exemplo.

Mas não são os aspectos visuais e comportamentais da raça que levaram ao projeto de conservação. O gado Pantaneiro, além da forte resistência ao ambiente, tem aptidão para produção de carne e leite.

O declínio

Mas, com todas essas qualidades, o que quase levou a raça à extinção?

Um dos fatores foi o chifre vistoso, afirma o Prof. Oliveira, da UEMS. Que dificultava a acomodação nos trens, um dos meios de transporte do rebanho ao centro consumidor na época: São Paulo. Outro seriam as pernas mais curtas, que faziam com que os animais da raça chegassem com mais dificuldade que os Nelore da marcha (comitiva de gado) ao estado do Sudeste. Dessa forma, a pressão do centro consumidor, o mercado paulista, que pagava mais pelo Nelore, desestimulou a criação dos pantaneiros.

Além disso, o touro Pantaneiro, com libido mais alta que o de outras raças e muito territorial, impedia a convivência com os touros Nelore. Isso pode ser comprovado ainda hoje, ao se observar a baixa incidência de animais meio-sangue nelore-pantaneiro em rebanhos Pantaneiros ainda em estado feral. Desta forma, o produtor naquela época só tinha uma opção castrar todos os touros Pantaneiros e introduzir os touros nelore no rebanho de vacas Pantaneiras, para produção dos animais ½ sangue. Assim, por meio de um cruzamento absorvente, pouco a pouco o gado Pantaneiro foi desaparecendo e o nelore tornou-se o principal grupo genético criado atualmente no Pantanal.

Outro fato que corroborou os cruzamentos foi o fato dos ½ sangue nelore-pantaneiro serem corporeamente superiores, zootecnicamente explicado pelo efeito da heterose entre grupos taurinos (bos taurus) e zebuínos (bos índicus).  Todos esses fatores praticamente levaram à quase extinção da raça Pantaneira.

O programa

Cientes do risco, os pesquisadores da Universidade deram início ao projeto. Das 15 fêmeas iniciais, obtidas na Embrapa Pantanal, hoje há quase 140 matrizes, e têm sido feitas parcerias com diversos criadores locais, para multiplicação do rebanho.

Divulgação

Prof. Marcus Oliveira: “O Brasil não pode perder este patrimônio genético”

Identificados esses criadores, há a introdução de touros nas propriedades que mantêm algumas cabeças para produção de leite, a fim de reduzir os problemas de consanguinidade, normais nesses rebanhos isolados e reduzidos.

Perguntado sobre quando termina o projeto e quais seus principais objetivos, o pesquisador responde que o projeto basicamente não tem fim e que vai evoluindo. Quanto aos objetivos, o primeiro é a preservação da raça. “O Brasil não pode perder este patrimônio genético”, enfatiza. O segundo objetivo é oferecer uma opção com bom potencial em termos de produção de carne e leite, e rusticidade, aos criadores de Nelore da região (MT e MS), mas com capacidade de adaptação e boa produção em outras regiões, desde que de clima quente.

O projeto, em que foram gastos R$ 3,5 milhões até agora e que reúne uma rede de professores e pesquisadores da UEMS, Universidade Federal de Goiás (UFG) e Embrapa, conta com uma série de financiadores: os ministérios da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e Educação e Cultura (MEC), o Centro de Pesquisa do Pantanal (CPP), a Rede Pró-Centro Oeste, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Financiadora de Estudos  e Projetos (Finep) e a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (Fundect).

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Fotos: Divulgação UEMS