Cruzamento industrial: falta de critério na reposição de matrizes compromete a sustentabilidade da atividade

Por Rodolffo Assis*

Rodolfo_AssisÉ notório que o rebanho brasileiro tem melhorado a produtividade. Nutrição, sanidade e genética são as bases que sustentam esse avanço. Dentre as ferramentas que mais auxiliaram a melhoria genética nacional, principalmente no Brasil Central, está a inseminação com raças taurinas sobre vacas zebuínas. Números da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (ASBIA) mostram que, a partir de 2013, a comercialização de sêmen da raça Angus superou a da raça Nelore. Para se ter uma ideia da alteração brusca de mercado, cinco anos antes, em 2008, para cada dose vendida de Angus no Brasil, eram comercializadas mais de quatro doses de Nelore.

A maioria deste sêmen de Angus tem como finalidade a utilização sobre vacas Nelore no Brasil Central. O ótimo desempenho dos animais ½ sangue Angus x Nelore é a razão para isto. Este desempenho superior (cerca de 20% em características economicamente importantes) ocorre graças ao que os geneticistas chamam de heterose ou vigor híbrido, definido como o fenômeno pelo qual os filhos provenientes de cruzamentos apresentam melhor desempenho do que a média de seus pais.

É importante lembrarmos que a heterose será mais evidente quanto maior for a distância genética entre os animais cruzados. Este fato deve ser muito bem observado, pois dele se origina boa parte das diferenças nos resultados de cruzamentos.

Sabemos que a diferença genética entre animais zebuínos, como o Nelore, e os taurinos, como o Angus, é de 250 mil a um milhão de anos. É a maior diferença entre os ramos de raças bovinas. Por isso, os ótimos resultados dos cruzamentos de taurinos x zebuínos. Ainda assim, vale ressaltar alguns pontos. Muitos cruzamentos têm sido realizados sobre matrizes que não podem ser definidas como zebuínas. Isso gera uma perda quanto ao resultado da heterose, já que essas matrizes devem possuir algum grau de sangue taurino.

Levantamentos apontam que 80% do rebanho nacional (cerca de 160 milhões de animais) é composto por zebuínos. Se considerarmos que, até recentemente, haviam sido importados 6.262 animais zebuínos para o Brasil, de acordo com o pesquisador Alberto Alves Santiago, podemos concluir que a maioria de nosso rebanho é originada de cruzamento por absorção de zebuínos sobre uma base taurina, principalmente, de raças crioulas. Isso é comprovado por estudos que apontam que 79% dos animais Nelore puros e 73% dos animais Gir puros possuem a base materna (DNA mitocondrial) taurina.

Resultados como esses não devem gerar preocupações excessivas aos selecionadores, pois pouco se colheu produtivamente quando a questão de pureza racial foi tratada como extrema prioridade. Mas devemos conhecer nosso rebanho para tirarmos dele os melhores resultados.

Falta de padronização de matrizes gera falta de padronização de produtos, mesmo que cruzados, provocando diminuição da lucratividade.

Métodos de cruzamento atualmente utilizados  

Pela busca de resultados a curto prazo, muitos pecuaristas têm utilizado o cruzamento terminal em quantidade mal dimensionada, o que pode gerar dificuldades em médio prazo.

Há muitos criadores que utilizam a inseminação apenas com sêmen de touros para cruzamento terminal e no início da estação de monta. Essa estratégia, em geral, faz com que a reposição de matrizes seja de baixa qualidade, pois as bezerras zebuínas estarão nascendo em época pior que as ½ sangue, além de serem filhas de matrizes de pior fertilidade e de touros, via de regra, selecionados com muito menos intensidade que os pais das ½ sangue. Ou seja, há o ganho com heterose em um bom número de animais, mas este ganho não é crescente com o tempo.

Deixar de fazer a seleção na base do rebanho faz com que a nossa melhora de performance se restrinja apenas ao ganho de heterose, o que, em um primeiro momento é bom, mas pode não ser suficiente para nos mantermos competitivos em um cenário que exige melhoria crescente de produtividade.

Alguns pecuaristas recorrem ao mercado para continuar se abastecendo de fêmeas zebuínas, o que economicamente pode ser bom. Mas, mesmo que geneticamente essas fêmeas sejam melhores que as matrizes atuais do rebanho (o que não é comum), contar com isso permanentemente pode ser arriscado. Deve ser considerada também a diminuição do controle sanitário que esta estratégia acarreta.

Para se atingir o máximo de produtividade crescente devemos continuar selecionando a base das matrizes, e não abrir mão do cruzamento. Porém, essa não é uma tarefa muito fácil.

O ideal e o que devemos buscar é ter o máximo da reposição de fêmeas filhas das melhores matrizes com touros de alta qualidade e que sejam do início da estação de nascimento. Garantindo essa base superior poderemos utilizar o cruzamento terminal nas demais matrizes.

O conhecimento e o controle do rebanho, além da obtenção de bons índices reprodutivos e zootécnicos, são necessários para que a pecuária de corte seja uma atividade sustentável economicamente.

*Médico Veterinário pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Especialista em Produção de Gado de Corte pela Rehagro, Técnico Geneplus Embrapa e Técnico de Bovino de Corte da Alta Genetics.

Pequenos produtores do ES investem em genética para aprimorar produção de queijo

O investimento em inseminação, iniciado há dois anos, já apresenta resultado na primeira geração de 104 bezerras. A expectativa é elevar a produção de 15 para 20 kg de leite/animal/dia e, com isso, expandir a venda de queijos

Maria Clara, filha da produtora, e as novas bezerras, fruto de inseminação

Maria Clara, filha da produtora, e as novas bezerras, fruto de inseminação

Há 10 anos, a advogada Karla Lievore teve que tomar uma decisão que mudaria sua vida: atender aos apelos do pai e largar a profissão em Vitória/ES, para ir ajudar a família a tocar o rebanho e o laticínio, em Colatina, no interior do estado. Refratária inicialmente, logo ela não se arrependeu da decisão e, há dois anos, teve que tomar outra: investir no melhoramento genético do rebanho, se o objetivo era incrementar o negócio de queijos. Outra decisão que está se mostrando acertada.

A família, de ascendência italiana, sempre lidou com leite e queijos, desde que Karla se entende por gente. O pai, caçula de treze irmãos, com mais vocação para o agronegócio, foi comprando a parte dos irmãos. E foi tocando o negócio com a esposa, também filha de italianos, e um dos três filhos, Hiran, técnico agropecuário, até adoecer e precisar de mais ajuda. Foi aí que chamou a filha, advogada, e o filho, veterinário.

Quem decidiu “voltar às origens”, no final, foi a filha, que já começou se empenhando na conquista dos registros municipal e estadual para a agroindústria dos queijos. Obtidos os registros, passaram a atender diversas praças e hoje os cerca 800 queijos (de 500 g cada) – dos tipos Minas frescal prensado e ricota Puína, uma tradição italiana – produzidos diariamente, são comercializados com a marca Reserva dos Imigrantes em pouco mais de 80 estabelecimentos, entre padarias e supermercados, na região da Grande Vitória.

A cunhada Andreza, esposa de Hiran, ajuda a sogra na produção dos queijos. A ricota Puína, por exemplo, de receita italiana, diferencia-se das demais por levar apenas soro puro, o que a torna bastante leve e cremosa.

Crescimento

Queijo Reserva dos ImigrantesAlém de passarem a comprar o leite de vizinhos, a produção própria também foi aumentando ao longo desses dez anos, passando de 250 litros/dia para 1.200 litros/dia agora, com um pequeno decréscimo neste ano, por conta da seca que atingiu o estado.

Mesmo assim, havia a necessidade de incrementar mais a produção leiteira. Nessa hora, entrou em campo a tecnologia da empresa ABS e os Lievore apostaram na inseminação das vacas mestiças com sêmen de touros da raça holandesa PO. A intenção é chegar aos poucos a animais com ¾ de sangue girolando e 7/8 totalmente adaptados às altas temperaturas e ao relevo acentuado da região. “Em função das nossas condições aqui na região, que demanda maior resistência, animais fortes e com boas pernas e cascos, não é possível ter um rebanho puro,” explica Karla.

A decisão – inicialmente criticada até pelos vizinhos, que questionavam a necessidade de investimento em tecnologia por parte de pequenos produtores – já se mostrou acertada com a avaliação das 104 primeiras bezerras. “Percebemos pelo acabamento dos animais em termos de úbere, pernas, garupa e pelagem”, comemora Karla, acrescentando que o principal benefício deve aparecer dentro de um ano e meio, quando a produção de leite começar a crescer, indo dos 15 kg/vaca/dia para 20 kg/vaca/dia.

Karla: "Estou muito feliz com a decisão de optar pelo agronegócio"

Karla: “Estou muito feliz com a opção pelo agronegócio”

Cada bezerra que nasce é uma alegria. “Cuido delas como se fossem minhas filhas”, afirma Karla, que é mãe de Maria Clara e Lorenzo. As crianças vibram com as bezerras, assim com o priminho Luís Otávio, filho de Hiran e Andreza. E os vizinhos, presentes ao Dia de Campo organizado na propriedade dos Lievore no ano passado, já começam a se entusiasmar com a ideia de investir mais em tecnologia.

Perguntada se acredita que há dez anos fez uma boa escolha em sua vida, Karla não hesita: “Estou muito feliz com a minha opção pelo agronegócio e, especialmente, de levar adiante o negócio da família”.