Amazônia Legal pode ter agricultura sustentável, mostra estudo

Técnicos do Observatório ABC indicam práticas agroambientais para aproveitamento dos 74 milhões desmatados na região. Estudo mostra que intensificação levou ao aumento da produção com redução do desmatamento

Morguefile

Cacau é uma das culturas que podem ser integradas dentro dos sistemas agroflorestais, na região

Da constatação de que há 74 milhões de hectares desmatados por corte raso na Amazônia surgiu a ideia-mãe do Projeto Amazônia – Propostas para a exploração agrícola sustentável: “modificar essa área de forma inteligente, mantendo a região produtiva e conservando seus recursos naturais”, explicou Eduardo D. Assad, pesquisador da Embrapa, coordenador da sub-rede Clima e Agricultura da Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima), do Ministério de Ciência e Tecnologia e Inovação, e professor do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas, o GV Agro. O projeto foi apresentado na comemoração dos 10 anos do GV Agro, que coordena o Observatório ABC, na sexta-feira 18, em São Paulo.

O estudo mapeou 772 municípios da Amazônia Legal, como Paragominas, São Feliz do Xingu (PA), Alta Floresta (MT) e Porto Velho (RO), onde foram observados os maiores índices de desmatamento até o início dos anos 2000, quando o governo começou a tomar medidas mais sérias para conter sua expansão, como a punição dos desmatadores. Um dos motivos, bem pragmático, foi o temor de que barreiras tarifárias fossem impostas dificultando as exportações de produtos brasileiros, como a carne e a soja.

Uma das primeiras medidas foi checar se a agropecuária era de fato a grande vilã de derrubada da mata nativa. No cruzamento dos dados do desmatamento com o Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE) da região, foi observado um índice máximo de redução de 15% das reservas naturais das propriedades, o que derrubou alguns mitos de que eram os proprietários rurais os grandes causadores de desmatamento, contou Assad.

Pecuária saindo na frente

O projeto ainda apontou que de 1990 a 2015 houve intensificação agrícola, com incremento do uso de tecnologia, resultando no aumento da produção com redução do desmatamento. A resposta da pecuária foi bem forte, mostraram os dados, com um incremento de 125% na produção do rebanho bovino, seguido pelo ovino (100%) e pela avicultura (82%).

Em Alta Floresta, por exemplo, passou-se de 0,16 unidade cabeça de gado (ua)/ha em 1990, para 0,83 ua/ha em 2014. O aumento da intensificação permitirá que atinja a 2,47 ua. “Há uma nova geração de jovens pecuaristas tocando os negócios da família e incrementando o uso de novas tecnologias”, revelou Assad, celebrando a chegada, um dia, da “carne carbono neutro”.

O pesquisador informou ainda que o estudo mostrou que o índice de vulnerabilidade social (IVS) desses 772 municípios apontou uma melhoria na qualidade de vida e das condições de vida da população desses locais nos últimos anos, quando houve incremento da produção e redução do desmatamento.

Levando em consideração que há presença dos biomas cerrado (15% da área) e pantanal (1%) na Amazônia Legal, sobram, segundo Assad, 45 milhões de hectares que são passíveis de receber sistemas agrícolas dento do Plano Agricultura de Baixo Carbono (ABC), além de 9 milhões de cabeças de gado, “sem desmatar nada e ainda reduzindo a emissão de gases do efeito estufa”.

Retorno econômico

O estudo ainda apontou a viabilidade econômica das atividades na região, sendo que a pecuária (11% de retorno) e, especialmente, os sistemas integrados (13,7%) têm os melhores resultados, se comparados com a agricultura solteira (9,9%)

O passo seguinte foi identificar modelos de produção adaptados ao Plano ABC – que engloba práticas como o plantio direto, a recuperação de pastagens e a integração-lavoura-pecuária-floresta (ILPF) – e a recomendação do aproveitamento total da área e do tempo, com emprego de safra-safrinha-pasto-floresta, em prol de uma produção com baixa emissão de gases do efeito estufa.

Outra medida tomada pelos técnicos foi realizar o zoneamento forrageiro, com o objetivo de indicar as variedades que mais se adaptam às condições da região. Os técnicos recomendam o plantio de amendoim, que fixa nitrogênio, na recuperação de pastagens e, assim, reduzir custos de adubação; o cultivo de milho, soja, arroz e feijão para a produção de grãos; e o plantio de algumas espécies arbóreas, como eucalipto, paricá e teca, para o reflorestamento integrado. Já entre os sistemas agroflorestais possíveis há muitas possibilidades, como café-cacau-castanha, cacau-paricá e pimenta-açaí-castanha.

Os desafios agora são dar escala a essas integrações e a transferência de tecnologia na região, disse Assad, para quem a extensão rural deve acontecer via políticas públicas, assim como o pagamento por serviços ambientais, a implantação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e a revisão do crédito agrícola.

“Estamos aprendendo com a natureza, auxiliados pela ciência, a promover desenvolvimento”, afirmou em depoimento no evento o ex-ministro da Agricultura Alysson Paolinelli.

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GVAgro prepara proposta de modernização da política agrícola

Documento está sendo elaborado pelo ex-ministro Luís Carlos Guedes Pinto e deverá ser entregue ao ministério da Agricultura até março de 2016

Marcos Santos/Agência USP

Seguro de renda é uma das áreas que o agro precisa desenvolver

O Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (GVAgro) está preparando um documento, que será entregue ao Ministério da Agricultura, com um amplo plano de modernização da política agrícola do País, com foco na proteção da renda do produtor rural.

Foi o que revelou o coordenador do GVAgro, o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, durante o seminário “Ajustes no Agro Brasileiro para maior Inserção Global”, promovido pelo PENSA/USP (Centro de Conhecimento em Agronegócios da Universidade de São Paulo), na sexta-feira (13), em São Paulo (SP).

“O trabalho está sendo coordenado pelo ex-ministro Luís Carlos Guedes Pinto e deverá ser entregue até março de 2016”, disse Rodrigues. Guedes Pinto foi o sucessor de Rodrigues no ministério, bem como também registra passagem na vice-presidência de Agronegócios do Banco do Brasil.

Segundo Rodrigues, o agronegócio brasileiro precisa desenvolver um efetivo programa de seguro de renda. “Mas ainda estamos longe disso, até porque a área coberta por seguro contra questões climáticas é baixíssima.”

De acordo com o ex-ministro, o maior problema do agronegócio é institucional, porque os principais desafios do setor estão fora da alçada de resolução do Ministério da Agricultura. Entre eles, Rodrigues citou gargalos relativos à infraestrutura logística e de armazenagem, segurança jurídica, defesa sanitária, pesquisa & desenvolvimento, política comercial externa, capacitação profissional, formação de líderes, etc.. Para o ex-ministro, falta uma estratégia de Estado para o agronegócio, que envolva os poderes executivo, legislativo e judiciário. “Não é uma coisa de governo, tem que ser de Estado.”

Em sua fala, Rodrigues reiterou o chamado da OCDE para que o Brasil aumente sua produção agropecuária em 40% nos próximos dez anos, a fim de se posicionar como protagonista na oferta mundial de alimentos. “A segurança alimentar é a única chance de paz no mundo, e ser campeão da segurança alimentar é ser o campeão mundial da paz.”