Refúgio estruturado, um aliado das tecnologias Bt

Por Ana Paula Maranhão*

Ana Paula MaranhãoO potencial brasileiro para o agronegócio é reconhecido internacionalmente. O clima favorável que temos por aqui, somado ao know-how que é passado de pai para filho em famílias de agricultores e às novas tecnologias de agricultura digital, impulsionam a produção e melhoram os resultados a cada safra. Para consultores e especialistas, são esses resultados que têm contribuído para segurar a economia e o PIB do Brasil. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a agropecuária brasileira cresceu 15,2% no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período em 2016.

Dentre as culturas que mais cresceram, o milho, ao lado da soja, ocupa posição de destaque na expansão da atividade agrícola no Brasil. Com a proximidade da safrinha de milho, chega o momento de discutir práticas de Manejo Integrado de Pragas (MIP), a fim de reduzir possíveis danos econômicos e maximizar a produtividade na lavoura, sobretudo para as tecnologias Bt.

Sabe-se que insetos resistentes podem estar presentes na população antes da utilização de quaisquer métodos de controle. Por isso, é extremamente importante que boas práticas sejam adotadas para evitar a proliferação de insetos resistentes à tecnologia Bt. No Brasil, o MIP deve ocorrer de forma sistemática, adotando-se estratégias efetivas de controle de pragas no sistema produtivo das culturas de milho (o mesmo vale para soja e algodão).

Preservar a tecnologia Bt é uma responsabilidade de todos e deve ser compartilhada por cada elo da cadeia produtora de grãos e fibras. Isso significa que toda vez que um desses elos faz a sua parte, e, principalmente, fomenta as boas práticas do MIP, contribui para retardar a seleção de insetos resistentes. O aumento de insetos resistentes pode ocasionar grandes prejuízos financeiros e, principalmente, colocar em risco a longevidade e eficiência das biotecnologias.

Alguns pilares que compõem o MIP são essenciais para o manejo do milho em estágios iniciais da cultura. É o caso do refúgio estruturado. Com este método, é possível retardar a seleção de insetos resistentes ao manter uma população de pragas susceptíveis/sensíveis às proteínas Bt, para que ela possa acasalar com indivíduos resistentes e transmitir a suscetibilidade do Bt a gerações futuras.

Assim, torna-se possível prolongar a longevidade das tecnologias para que elas possam auxiliar nos altos índices de produtividade por mais tempo. Mas como isso é feito na prática? Para milho, recomenda-se que 10% da área total de plantio seja destinada ao refúgio (milho não Bt), com distância máxima de 800 metros entre culturas Bt e não Bt.

A evolução da resistência de pragas é o maior desafio para o uso de culturas que expressam proteínas Bt. Sem as práticas de Manejo Integrado de Pragas, essa tecnologia pode sofrer redução em sua eficácia e, consequentemente, na produtividade das lavouras. Assim, o plantio de refúgio estruturado é a principal ferramenta para evitar que isso aconteça e, para preservar os benefícios e facilidades trazidos pelo uso de biotecnologias. É essencial que essa boa prática seja feita de maneira correta, uma vez que estas tecnologias contribuem diretamente para o modelo de agricultura que temos hoje.

*é engenheira agrônoma, formada pela Universidade Federal de Lavras (UFLA) e gerente de Proteção a Biotecnologias e Estratégias de Refúgio da Monsanto.

Registro de produtos fitossanitários no Brasil: necessidade de agilização

Por José Otavio Menten*

jose-otavio-menten_1O manejo das pragas agrícolas (organismos nocivos às plantas cultivadas que causam 42% de danos à produção) deve sempre seguir o MIP (manejo integrado de pragas), que significa a utilização simultânea ou sequencial de todas as alternativas de controle disponíveis. Entretanto, em quase todos os cultivos, a utilização de produtos fitossanitários é indispensável. Dai a necessidade do mercado oferecer cada vez mais alternativas para o agricultor poder optar por aqueles que ofereçam mais vantagens, seja pela eficiência, relação custo benefício, redução da possibilidade de seleção de linhagens resistentes de pragas, apresentar melhores características ambientais ou toxicológicas etc. Atualmente, além dos produtos fitossanitários químicos ou sintéticos, também estão disponíveis os biológicos: fungos, bactérias, vírus, nematóides, insetos e ácaros que tem ação contra as pragas agrícolas por serem parasitas/parasitóides, predadores, competidores, produzirem metabólitos prejudiciais às pragas, estimularem mecanismos de defesa nas plantas etc. Há ainda os semioquímicos (feromônios e aleloquímicos) e os produtos a base de extratos naturais.

Todos estes produtos, para serem utilizados, devem ser registrados. Este processo envolve a apresentação de estudos agronômicos ao MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Meio Ambiente), ambientais ao IBAMA e toxicológicos à ANVISA. Apenas os produtos que sejam eficientes e não apresentem problemas ao ambiente e a saúde das pessoas obtém o registro, emitido pelo MAPA. É fundamental que o processo seja ágil e mantenha o rigor para que as novas tecnologias sejam disponibilizadas aos produtores rurais o mais breve possível, contribuindo com a sustentabilidade e competitividade da agricultura brasileira. Para os biológicos, semioquímicos e a base de extratos vegetais o registro é diferenciado, com base em normativas específicas. Produtos com uso aprovado para agricultura orgânica também dispõem de procedimento específico, mais simplificado.

Embora haja concordância sobre as vantagens da utilização de produtos mais modernos, com características mais amigáveis, este tem sido um dos principais gargalos do agro brasileiro: a morosidade do processo de registro. Enquanto em outros países as inovações já estão no campo, no Brasil podem levar mais de cinco anos para a emissão do registro. Em 2016 foram registrados 277 novos produtos no Brasil. Recorde! Isto representou aumento de quase 100% em relação aos registros de 2015. Destaque para os produtos biológicos: foram aprovados 38 novos produtos, representando aumento de 65% em relação a 2015. Entretanto centenas de produtos estão aguardando a conclusão dos estudos e a emissão do registro. Várias sugestões tem sido apresentadas para aprimorar o processo. Existe, inclusive, um Projeto de Lei em tramitação no Congresso Nacional que tem como um dos principais objetivos introduzir modificações que proporcionem mais agilidade no registro de produtos fitossanitários no Brasil. É tempo de medidas serem tomadas com urgência!

*Diretor Financeiro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), Vice-Presidente da Associação Brasileira de Educação Agrícola Superior (ABEAS) e Professor Associado da ESALQ/USP.

Setor de defensivos biológicos deve crescer em torno de 20% ao ano no Brasil

A estimativa é da Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCBio) para os próximos anos. Crescimento é maior que o de defensivos químicos. Pressão por sustentabilidade, maior resistência das pragas a alguns agrotóxicos, e processo de lançamento menos caro e ágil são razões para expansão

praga_lavoura_MorguefileEm 2012, as lavouras brasileiras de algodão, soja, sorgo, milho, tomate e de algumas frutíferas sofreram perdas bilionárias por conta da ação de uma nova praga – a lagarta Helicoverpa armigera. Somente no oeste baiano, na safra 2012/2013 de grãos e fibras, as perdas econômicas foram estimadas em 2 bilhões de reais. No início deste ano, medidas adotadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), como a autorização de importação de novos agrotóxicos, o vazio sanitário, o uso de tecnologias que inibissem ou eliminassem as populações da praga e ainda a liberação de agentes de controle biológico, foram algumas das ações do plano de supressão da lagarta, em estados que estavam sob condição de emergência fitossanitária.

Diante de tamanho estrago ambiental e também econômico, viu-se a necessidade de buscar soluções mais eficazes e com foco em uma agricultura sustentável, visto que a oferta de novas moléculas de defensivos químicos, além de limitada, é altamente custosa (em torno de US$ 250 milhões) e demorada (mais de dois anos), em função das exigências do nosso processo regulatório. Não à toa, as projeções de vendas da Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCBio) para esse setor no Brasil indicam um crescimento anual de 15% a 20% nos próximos anos. “Além do alto custo de desenvolvimento de novos defensivos químicos, há também maior demanda da sociedade e dos órgãos reguladores pela produção de alimentos com menos ou nenhum resíduo”, disse em coletiva de imprensa, Pedro Faria Jr., presidente da ABCBio.

O crescimento no setor de defensivos biológicos não ocorre somente no Brasil. Ainda de acordo com a ABCBio, o crescimento global foi de 16% no último ano, contra 3% dos defensivos químicos. Europa, América do Norte e Austrália lideram o uso de controle biológico. “A tendência aqui é de que os defensivos biológicos sejam usados juntamente aos defensivos químicos”, disse Ari Gitz, integrante do Conselho da ABCBio.

Uma outra vantagem do uso de defensivos biológicos em relação ao químico é que desde 2014 podem ser registrados por alvo, ou seja, para o combate a determinada praga ou doença, e, portanto, seu uso é permitido para todas as culturas.

Mesmo registrando crescimento do setor e com projeção de maior adoção de agentes biológicos de controle por parte dos agricultores, a ABCBio reconhece que há muito a se fazer. “Não vamos avançar sem pesquisa e desenvolvimento. Evoluímos, mas o investimento econômico nos defensivos químicos ainda é muito maior”, afirmou Pedro Faria Jr.

“O produtor que entender a importância e a vantagem da adoção do manejo integrado de pragas (MIP) terá um custo menor de produção e uma previsibilidade de produtividade muito maior”, completou Gustavo Herrmann, vice-presidente da ABCBio.