Adoção do sistema ILPF atinge 11,5 milhões de hectares, mostra pesquisa

Nos últimos cinco anos, 10% dos pecuaristas adotaram o sistema; entre os produtores de grãos o crescimento tem sido de 1% a cada cinco anos. Com isso, Brasil já atingiu uma das metas para 2030 do Acordo de Paris, sobre mudanças climáticas

Redação*

Capa-Cris

Menos de um ano após a assinatura do Acordo de Paris para combate às mudanças climáticas e nas vésperas da 22a Conferência do Clima da ONU, em Marrakesh, no Marrocos, a Embrapa Mio Ambiente divulga os resultados de uma pesquisa feita pelo Kleffmann Group, que mostra evolução na adoção de práticas de agricultura de baixo carbono no País: 11,5 milhões de hectares é a área com algum tipo de adoção de sistema Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). O resultado surpreendeu positivamente, já que mostra que mais do que duplicamos uma das metas internacionais estabelecidas durante a Conferência do Clima de Paris (COP21), em dezembro do ano passado, quando o Brasil se comprometeu a incorporar 5 milhões de hectares com ILPF até 2030.

A pesquisa foi patrocinada pela Rede de Fomento de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, uma parceria público-privada formada pela Cocamar, Dow AgroScience, John Deere, Parker, Syngenta e a Embrapa, com acompanhamento técnico da Embrapa Meio Ambiente, que fica em Jaguariúna (SP), e demonstrou grande adesão do setor agropecuário brasileiro ao uso de sistemas de (ILPF) no Brasil. Os estados que se destacam em área de adoção são Mato Grosso do Sul, com 2 milhões de hectares; Mato Grosso, com 1,5 milhão; Rio Grande do Sul, 1,4 milhão, destacando-se também como o estado com maior número de propriedades participantes de alguma das modalidades; Minas Gerais, um milhão; e Santa Catarina, com 680 mil hectares.

Entre os produtores rurais com atuação predominante na pecuária e que adotam a prática, 83% utilizam o sistema de integração lavoura-pecuária – ILP, (9% ILPF, 7% IPF ou integração pecuária-floresta) e entre os produtores de grãos, 99% adotam o sistema integração lavoura-pecuária – ILP (0,4% ILPF e 0,2% ILF). Para os pecuaristas, os principais fatores motivadores para a adoção do sistema foram a redução de impactos ambientais, entendida como uma preocupação de adequar ambientalmente a atividade diante das pressões da sociedade e dos mercados, e seu interesse na recuperação das pastagens, um dos benefícios do sistema.

Os resultados mostram um alto nível de adoção tecnológica com consequentes benefícios associados à melhoria da eficiência dos sistemas produtivos e de sua capacidade adaptativa aos possíveis efeitos negativos da mudança do clima. Esse esforço contribui para o cumprimento das metas assumidas de forma voluntária pelo Brasil perante a Organização das Nações Unidas (ONU) na COP-15 e revisadas em Paris, na COP-21.

O compromisso brasileiro é de diminuir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) de 36,1% a 38,9% até 2020, tendo como base as emissões de 2005. O acordo foi incorporado na Política Nacional sobre Mudanças no Clima (Lei nº 12.187/2009), por meio dos Planos Setoriais de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas. No setor agropecuário, os compromissos foram estabelecidos pelo “Plano Setorial de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura”, também denominado Plano ABC.

Para a pesquisa, foram realizadas 7.909 entrevistas, compreendendo 3.105 pecuaristas de leite e corte em todos os estados; 2.958 produtores de soja nos estados da Bahia, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Piauí, Paraná, Rondônia, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Tocantins; e 1.846 produtores de milho nos estados da Bahia, Goiás, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

Saiba mais

  • O Plano ABC estabeleceu mudança progressiva na trajetória de emissões de gases de efeito estufa via adoção de tecnologias capazes de promover a redução da intensidade de emissões de gases de efeito estufa ou o incremento de remoções. Um dos investimentos é no sistema de produção integrada, como o sistema ILPF, cujo objetivo estabelecido foi a ampliação em 4 milhões de hectares no nível de adoção deste sistema até 2020, representando um potencial de estoque entre 18 e 22 milhões t CO2eq.
  • A ratificação do Acordo de Paris sobre Mudança do Clima pelo governo brasileiro, em 2016, fortaleceu ações do referido Plano, incluindo em sua “Contribuição Nacionalmente Determinada (INDC)” o incremento de mais 5 milhões de hectares com sistemas ILPF, totalizando nove milhões de hectares até 2030.
  • ILPF é uma estratégia que contempla os componentes lavoura, pecuária e silvicultura em rotação, consórcio ou sucessão, na mesma área, bem como as suas variações. Integram essa estratégia diversos sistemas de produção e tecnologias associadas atuando em sinergia proporcionando não apenas ganhos na produção e produtividade, mas também benefícios ambientais e sociais.
  • Carbono em solo agrícola é sinônimo de fertilidade.
  • A manutenção da fertilidade em solos tropicais é um desafio que envolve um processo continuado de planejamento e gestão. Uma gestão estruturada e de longo prazo fomentando a manutenção da fertilidade em solos tropicais irá potencializar benefícios estruturais.
  • A mudança do clima pode impor novos desafios para o setor agrícola, em função da vulnerabilidade do setor. Apenas com investimentos em ciência e tecnologia será possível dispor de alternativas para contrabalancear possíveis impactos negativos.
  • Ganho em resiliência e a disponibilidade de opções tecnológicas são estratégias-chave para assegurar a competitividade do setor agrícola em um mercado extremamente competitivo e desafiador.

* com informações da Embrapa.

Na COP-21, a defesa dos biocombustíveis e demais energias limpas para enfrentar as mudanças climáticas

Fontes de energia renováveis – como o etanol, a eólica e a solar – contribuem para reduzir as emissões dos gases do efeito estufa, que contribuem para o aquecimento global. Governo brasileiro propõe meta ambiciosa, de incremento de sua adoção, mas indústria da cana-de-açúcar cobra a implementação de políticas públicas que garantam o retorno do investimento por parte das empresas

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Incremento de energias renováveis, como a eólica, também está na proposta brasileira para redução dos gases do efeito estufa

Nesta quarta-feira (2/12), Bliss Blaker, presidente da Aliança Global de Combustíveis Renováveis (GRFA, em inglês), entidade dedicada a promover políticas favoráveis aos biocombustíveis no âmbito internacional, conclamou líderes mundiais que participam da 21ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-21), que vai até 11 de dezembro em Paris, para sinalizar o apoio aos biocombustíveis como uma das ferramentas de combate às mudanças climáticas.

“Esta Conferência é uma oportunidade real para líderes mundiais reconhecerem o papel que os combustíveis renováveis têm desempenhado, e que continuarão desepenhando, na transição para uma economia global de baixo carbono”, disse Baker. “Os problemas climáticos vão aumentar e os biocombustíveis representam, no curto e médio prazos, uma solução de baixo custo na redução do uso de petróleo e das emissões de gases de efeito estufa (GEEs) no setor de transportes”, acrescentou.

Até o momento, 36 países já reconheceram a oportunidade apresentada pelos biocombustíveis na redução das emissões de GEEs e combate às mudanças climáticas, e os incluíram em suas Contribuições Nacionalmente Determinadas Pretendidas (INDC, em inglês). Estudos têm mostrado que a maioria dos biocombustíveis, como o etanol, provaram sua capacidade de reduzir os gases nocivos de GEEs de 40% a 90% na comparação com os combustíveis fósseis em todo o mundo.

“Dada a significativa contribuição dos biocombustíveis na redução das emissões globais de GEEs atualmente, acreditamos que os participantes da COP 21 devem estar atentos para uma maior utilização dos combustíveis renováveis por meio da adoção de políticas de apoio, particularmente para biocombustíveis avançados”, concluiu Baker.

UNICA defende diferenciais da cana e cobra políticas públicas na COP-21

Canavial-Ed-300x246A União da Industria de Cana-de-Açúcar (UNICA), que também é membro da GRFA, divulga, nos eventos e em seu estande no pavilhão principal da COP-21, os benefícios sociais, econômicos e ambientais decorrentes da produção sustentável da cana no Brasil, cuja matriz energética é considerada uma das mais limpas do planeta, justamente graças à colaboração do etanol e da bioeletricidade na redução das emissões de gases do efeito estufa. “A cana ocupa 16% da nossa matriz energética, ou seja, é a segunda fonte renovável mais usada no País, junto com a hidroeletricidade. Por conta deste diferencial, o Brasil está muito acima da média mundial de 13,2% no uso de energias limpas e renováveis”, ressalta, por meio de nota, a presidente da UNICA, Elizabeth Farina, que está na capital francesa.

Especificamente sobre o etanol, um dos vídeos irá mostrar os resultados positivos obtidos após 12 anos de uso do biocombustível em carros flex, que atualmente correspondem a 68% da frota de veículos leves em circulação no Brasil. De março de 2003 – ano de implementação da tecnologia no País – até maio de 2015, ao abastecer seu automóvel bicombustível, os brasileiros evitaram a emissão de mais de 300 milhões de toneladas de CO2. O valor corresponde aproximadamente ao que a Polônia libera por ano (317 milhões de toneladas de CO2), ou à soma do que emitiramArgentina (190 milhões t), Peru (53,1 milhões t), Equador (35,7 milhões t), Uruguai (7,8 milhões t) e Paraguai (5,3 milhões t) em um ano.

Em relação à geração de eletricidade renovável por meio da queima do bagaço da cana, um dos vídeos demonstra o imenso potencial adormecido nos canaviais brasileiros. Somente em 2014, o volume de energia ofertado para a rede foi equivalente a ter abastecido quase 10 milhões de residências no País, evitando a emissão de aproximadamente 8,3 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera.

Considerada uma das metas mais ambiciosas apresentadas na COP-21, a INDC brasileira contempla os produtos derivados da cana em diversos pontos, como a participação de 18% de biocombustíveis até 2030. Também prevê um aumento de 10% para 23% no uso de energias renováveis (solar, eólica e biomassa) exclusivamente na matriz elétrica. De forma geral, nos próximos 10 anos o Brasil deverá cortar 37% das suas emissões de GEEs – com base nos níveis de 2005 -, com reais possibilidades de ampliar esta redução para 43% até 2030.

Na opinião da presidente da UNICA, embora a proposta reafirme a importância estratégica do etanol e da bioeletricidade para a “descarbonização” da matriz energética nacional, ainda falta ao País a adoção de políticas públicas que assegurem um novo ciclo de crescimento do segmento. “O mercado de etanol, por exemplo, terá um papel fundamental para que o Brasil atinja essas metas. Entretanto, para isso, o governo brasileiro precisa iniciar imediatamente um plano de longo prazo para que o setor volte a investir com segurança”, explica Farina.

Segundo um estudo feito recentemente pelo Agroicone, uma das alternativas para incentivar o retorno dos investimentos na indústria canavieira seria o aumento da Contribuições de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) que incide sobre a gasolina, passando dos atuais R$ 0,10/litro para R$ 0,60/litro. Na prática, essa medida ajudaria a diminuir em 1,14 bilhão de toneladas as emissões de CO2 de 2015 a 2030, evitando um adicional de emissões de GEE de 571 milhões de toneladas de CO2. O volume é equivalente a quase três vezes o total emitido pelo uso de combustíveis fósseis no setor de transporte brasileiro em 2012.

* com informações da assessoria da UNICA 

Avicultura e eventos climáticos

Para pesquisadora da Embrapa é preciso que haja um trabalho conjunto de instituições de pesquisa, universidades e da iniciativa privada para o desenvolvimento de estratégias que amenizem o impacto de eventos climáticos nesse setor

Redação*

avicultura_MorguefileNa tentativa de amenizar ou mitigar os efeitos das mudanças climáticas no setor da avicultura, cientistas começam a pesquisar soluções como aclimatação, melhoramento genético e tecnologias relacionadas à infraestrutura das granjas. “Mudanças climáticas poderão afetar a produção animal, com a diminuição da produção de grãos e por consequência de ração; provocar situações de estresse em virtude de altas temperaturas, além de facilitar o aparecimento de novas zoonoses, para o caso de população confinada em granjas”, explica Magda Lima, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente (SP).

Ainda segundo a pesquisadora, “há necessidade de mais estudos e levantamentos sobre as regiões sujeitas a temperaturas diárias extremas cujas condições sejam críticas para esta atividade”. Até o momento, somente pesquisadores da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Campinas (Feagri/Unicamp) no Estado de São Paulo realizaram um estudo que apontou que temperaturas diárias acima de 32°C são extremas para a atividade e que as médias registradas das temperaturas mínimas são bons indicadores de risco.

“Somos o primeiro produtor mundial nesse setor e estamos altamente capacitados para darmos respostas rápidas a esses riscos, mas é preciso que haja um trabalho conjunto de instituições de pesquisa, universidades e da iniciativa privada para o desenvolvimento de estratégias que amenizem o impacto de eventos climáticos”, diz Magda.