Mapa suspende exportação de carne de frango da BRF à União Europeia

Ministério afirma que tomou a medida preventivamente

Redação*

frangoII_MorguefileEm comunicado a seus acionistas, na última sexta-feira (16), a BRF confirmou que teve parte de suas exportações de carne de frango para a União Europeia suspensas pelo Ministério da Agricultura a partir desta data.

Em nota, o Ministério afirma que adotou a medida preventivamente e que uma missão técnica seguirá para a Europa na próxima semana e deve prestar todos os esclarecimentos necessários paras as autoridades sanitárias locais.

A Associação Brasileira de Proteína Animal comentou a decisão do Ministério e afirmou que o caso envolve apenas divergências sobre critérios de classificação de produtos exportados em relação à bactéria Salmonella spp e que isso, em termos práticos, não traz risco à saúde pública.

A Associação argumenta ainda que o Brasil exporta carne de frango para a Europa há mais de dez anos e que nunca houve qualquer registro de problemas de saúde pública relacionados à carne brasileira. Por isso, não haveria motivos concretos para o embargo. O Brasil é o maior exportador de carne de frango do mundo.

*Com informações da Agência Brasil

 

União Europeia e Hong Kong pedem explicações sobre irregularidades divulgadas pela Carne Fraca

De acordo com a PF, cinco laboratórios fraudavam os resultados dos exames laboratoriais, omitindo a presença de salmonela na carne de aves comercializada

Redação*

frangoA suspeita de que laboratórios particulares registrados no Serviço de Inspeção Federal (SIF), do Ministério da Agricultura, fraudaram os resultados de análises laboratoriais de aves cuja carne era vendida para consumo humano no Brasil e no exterior, motivou a União Europeia e Hong Kong a pedir explicações às autoridades brasileiras.

As suspeitas de irregularidades vieram a público nesta segunda-feira (5), com a deflagração da terceira fase da Operação Carne Fraca, da Polícia Federal (PF). Segundo as investigações da PF e do próprio ministério, cinco laboratórios fraudavam os resultados dos exames laboratoriais, omitindo a presença da Salmonella spp, uma bactéria que pode causar intoxicações alimentares (gastroenterites) e outras complicações.

A União Europeia acionou o Ministério da Agricultura na segunda-feira (5) à noite, pedindo esclarecimentos a respeito da possível presença da bactéria na carne de aves exportada para o mercado europeu. Além disso, poucas horas após a deflagração da operação policial no Brasil, as autoridades de segurança alimentar europeias já haviam incluído no Sistema de Alerta Rápido para Alimentos (o chamado RASFF – Food and Feed Safety Alerts) um alerta sobre a possível presença da Salmonella em carne de frango congelado produzido no Brasil.

Segundo informações disponíveis no próprio site de acesso ao sistema, as notificações permitem o rápido compartilhamento de informações entre todos os países-membros do bloco, para que, quando necessário, o produto sob suspeita seja recolhido das prateleiras, minimizando os riscos à segurança alimentar e ao bem-estar dos consumidores europeus.

O Centro de Segurança Alimentar de Hong Kong também informou em seu site que está investigando se os produtos sob suspeita foram importados e que estava contactando as autoridades brasileiras para obter mais informações sobre o ocorrido e só de posse das informações necessárias adotaria qualquer medida.

Procurada, a assessoria do Ministério da Agricultura confirmou apenas que a pasta já recebeu o pedido de informações da comunidade europeia. Em nota divulgada segunda-feira (5), o ministério lembrou que a operação era um desdobramento do trabalho iniciado antes de março de 2017, quando foi deflagrada a primeira fase da Operação Carne Fraca. E que, desde então, muitas mudanças foram adotadas para garantir as melhores condições higiênico-sanitárias dos produtos brasileiros.

Entre as medidas adotadas em função das suspeitas de alteração dos resultados de análises laboratoriais estão a suspensão de algumas unidades frigoríficas e a inclusão de outras no chamado Regime Especial de Fiscalização. Além disso, os laboratórios alvos da operação tiveram seu credenciamento junto ao Serviço de Inspeção Federal suspensos até pelo menos a conclusão das investigações, que poderão resultar no cancelamento definitivo do credenciamento.

Exportações

O Ministério da Agricultura também suspendeu ontem (5) as exportações dos frigoríficos investigados na terceira fase da Operação Carne Fraca para 11 países e a União Europeia. Os países são África do Sul, Argélia, Coreia do Sul, Israel, Irã, Macedônia, Maurício, Tadjiquistão, Suíça, Ucrânia e Vietnã, que, a exemplo da União Europeia, exigem requisitos sanitários específicos de controle e tipificação de Salmonella spp, que a pasta, apesar das medidas anunciadas, afirma ser “comum, principalmente em carne de aves, pois faz parte da flora intestinal desses animais”. De acordo com o Ministério da Agricultura, quando cozida ou frita, a carne não oferece risco.

Estão sendo investigadas quatro plantas industriais da BRF, uma das maiores empresas do setor de alimentos no mundo e dona das marcas Sadia, Perdigão e Qualy. Das unidades investigadas, duas são de frango – uma fica em Rio Verde (GO) e outra em Carambei (PR) – e uma de perus, localizada em Mineiros (GO). Além dessas, a PF também investiga uma fábrica de rações da empresa em Chapecó (SC).

Em nota, a BRF também alegou que nenhuma das frentes de investigação da Polícia Federal diz respeito a algo que possa causar dano à saúde pública. Em relação às acusações da ex-funcionária da empresa Adriana Marques Carvalho, que afirmou ter sido pressionada por superiores para alterar resultados de análises laboratoriais, a empresa se limitou a informar que a profissional foi desligada da empresa em julho de 2014 e ingressou com ação trabalhista contra a empresa.

“As acusações da ex-funcionária foram tomadas com seriedade pela companhia, e medidas técnicas e administrativas foram implementadas para aprimorar seus procedimentos internos”, diz a empresa.

ABPA

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) informa que apoia as investigações em relação às possíveis fraudes em análises laboratoriais, pontuadas na “Operação Trapaça”, terceira fase da Operação Carne Fraca.

“Como nas etapas anteriores, a ABPA, em nome de toda a cadeia produtiva, defende o correto levantamento de problemas e a exemplar punição aos envolvidos. É importante, entretanto, que os erros do passado não se tornem recorrentes: são situações ainda em investigação e pontuais, não uma situação generalizada.

Vale ressaltar que os fatos que agora ganham notoriedade já vêm sendo amplamente investigados e resolvidos pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), conforme informado pela própria pasta ministerial. Ao mesmo tempo, há um esforço contínuo do Poder Público e da Iniciativa Privada pela transparência no processo produtivo. Programas de compliance foram estruturados e aplicados pelas diversas organizações envolvidas, como é o caso do Programa Agro Mais Integridade, do MAPA. O fato de auditores fiscais do ministério participarem desta Operação atesta a efetividade destes programas.

Ao consumidor, é importante esclarecer: não há riscos! A investigação se relaciona com as análises de presença do grupo de Salmonella spp, que são destruídas durante o cozimento dos alimentos”, conclui o posicionamento da entidade.

*Com informações da Agência Brasil e da ABPA.

Transparência e boas histórias

Por Coriolano Xavier*

23.03.2012 - ANDEF Fotos: Tatiana FerroTrês meses e três potentes torpedos impactaram a percepção dos consumidores em relação ao mercado de carne. Primeiro, em meados de março, foi o impacto da “operação carne fraca” (razoavelmente bem arrefecido em curto tempo). Depois, foi a vez da delação premiada dos irmãos Batista, que também impactou esse mercado, pois eles representam o maior grupo empresarial de proteína animal do planeta. Por fim, veio a proibição das importações de carne bovina brasileira in natura, pelos Estados Unidos, por conta de questões sanitárias. Que balanço se pode fazer agora, pensando no comportamento do consumidor, estratégias de marketing e defesa do setor?

As pessoas vão parar de comer carne? Claro que não. Mas a tendência é acontecer alguma movimentação no mercado, em função desses episódios. Por exemplo: em pesquisa divulgada em maio¹ e realizada antes da bomba da delação, 37% das pessoas disseram ter reduzido em algum grau o seu consumo de carne, no período imediatamente posterior à divulgação da “carne fraca”. Uma fatia menor, de 7%, afirmou ter parado de consumir e 16% informaram ter trocado de marca. São movimentações de mercado normais, algumas temporais, diante de impactos naconfiabilidade de marcas ou categorias de produtos. No mundo de hoje multimidiático, não poderia ser diferente.

Para além dos aspectos racionais que decidem a compra dos alimentos (qualidade, segurança, nutrição), ou dos clássicos quesitos de preço e sabor, a alimentação é uma sensação e um sentimento pessoal, o que confere ao alimento uma dimensão emocional de compra muito forte. Alimentação é sobrevivência; damos alimentos a nossas crianças, por exemplo. Alimento também é saúde. Também é um dado sociocultural extremamente relevante e está presente em celebrações e tradições culturais de todo o tipo, aqui no Brasil e no mundo inteiro. Por isso, existe um fio condutor essencial, e de natureza emocional, na percepção dos alimentos, que é a confiança. Quebrar esse elo significa romper um padrão decisório de compra e isso pode estar acontecendo agora, em alguma medida.

Quando cresce o grau de ceticismo em um mercado, abrem-se oportunidades para mobilidade entre categorias e marcas. Na semana da delação dos Batista, por exemplo, observou-se aumento de R$ 2,5 bilhões no valor da BRF (uma concorrente), depois de dois anos de queda, em que seu valor recuou mais de R$ 20 bilhões. Em tese, essa marca pode ter agora uma chance para retomar parte da participação de mercado que perdeu nos últimos três anos. Por outro lado, o gigante brasileiro da carne (JBS) tende a adotar uma atitude menos agressiva em marketing e mais conservadora em finanças, abrindo um flanco para os competidores, principalmente no pequeno varejo, que em geral trabalha com apenas duas marcas.

Hora boa, por exemplo, para a emergência de frigoríficos menores, ou de qualidade diferenciada, no mercado de carne bovina. O mesmo vale para a carne suína fresca, setor que vem fazendo um trabalho mercadológico notável, para mudança de conceito entre os consumidores, e pode ter agora um impulso extra. Uma coisa, entretanto, precisa ficar clara: para aproveitar essas oportunidades é essencial explosão e agilidade de distribuição, qualidade e, principalmente, dois fatores chave na gestão de produtos em mercados com crise de confiabilidade: transparência nas ações e uma narrativa de marketing forte.

Se o desafio for todo um setor – seja a carne ou outros alimentos – lembro aqui o depoimento de uma mãe, durante uma pesquisa, falando algo mais ou menos assim: “se tem notícia de um problema e não entendo direito, paro de consumir até ver que tudo bem; com dúvida, não vou dar para meu filho”. De novo àqueles dois pontos chave: ser transparente e contar boas histórias. O importante a essa altura é não se perder a perspectiva evolutiva do setor, pois há pecuaristas, suinocultores e avicultores desenvolvendo um excepcional trabalho em eficiência zootécnica, produção sustentável, segurança do produto e marketing responsável. Eles são futuro. Padrões de referência para construir uma ponte com a sociedade e os consumidores.

(1)     “Efeito Carne Fraca”, Revista Exame, ed. 1.138, pesquisa Dunnhumby.

*Vice-Presidente de Comunicação do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), Professor do Núcleo de Estudos do Agronegócio da ESPM.