Parceria entre empresas e Universidade estimula o desenvolvimento da cultura de palma de óleo no Pará

Criado em 2016, Grupo de Estudos NUTRI PALMA tem melhorado a qualificação de jovens profissionais da região

palma de óleo

Uma parceria que reúne empresas, técnicos, especialistas e a Universidade vem apresentando seus primeiros resultados na região do Pará. Trata-se do Programa NUTRI PALMA – um convênio entre a Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), Yara Fertilizantes e Dendê do Pará S/A – Denpasa, entre outras empresas.

Com objetivo de desenvolver conhecimento específico para a palma de óleo e estudar as melhores formas de nutrir a cultura, o projeto consiste em reuniões mensais e atividades de pesquisa científica, além de visitas técnicas em lavouras. “Até iniciarmos os trabalhos, havia pesquisas pontuais relativas à palma de óleo, mas que ficavam restritas à biblioteca da Universidade. Com a criação do grupo de estudos, conseguimos dar maior atenção à cultura dentro do meio acadêmico e, claro, de capacitar alunos para disputar vagas em empresas do setor”, diz o prof. Dr. Mário Lopes, coordenador do Grupo.

“A palma de óleo é uma cultura industrial de grande importância para economia do Pará. Somos o principal polo produtivo do País; 90% do que é produzido aqui no Brasil sai do Pará, o restante é da Bahia”, explica Eduardo Saldanha, especialista agronômico da Yara, empresa fomentadora do NUTRI PALMA. “Embora seja mais conhecido pelo seu uso culinário, o óleo de palma é muito utilizado nas indústrias alimentícia, cosmética, farmacêutica, de lubrificantes e de biocombustíveis”, completa.

De acordo com a Associação Brasileira de Produtores de Óleo de Palma (ABRAPALMA), a palma fornece quase um terço da produção global de óleos vegetais. Malásia e Indonésia são responsáveis por 85% da produção mundial. Ainda segundo a entidade, o Brasil produz cerca de 350 mil toneladas de óleo de palma, volume insuficiente para abastecer o mercado interno.

“Este grupo vem para preencher uma lacuna, já que não há estudos aprofundados sobre a cultura no Brasil. Buscamos referência de experiências em outros países produtores como Indonésia, Malásia, Colômbia e Equador”, diz Saldanha.

Resultados

grupo Nutripalma_alunos

Atrás – Wendy Medeiros, Eduardo Nunes, Rafael Androcheski e Marcilene Machado. À frente, Sheyla Costa e Vivian Rocha, alunos da UFRA e participantes do NUTRI PALMA

Criado há pouco mais de um ano, o Grupo de Estudos NUTRI PALMA já vem colhendo frutos de suas ações. “Como professor, devo dizer que o principal resultado se refere ao comportamento dos alunos. Neste primeiro ano, avançamos muito mais do que imaginávamos. Houve um grande interesse não só pelos alunos de Agronomia como também de outros cursos”, disse Lopes.

“Outro aspecto importante do projeto é relativo à socialização do conhecimento sobre a palma de óleo. Hoje temos maior interação entre as empresas do setor para solucionar problemas comuns a todas elas”, destacou o professor. “Isso sem contar também a participação expressiva de produtores em nossas reuniões”, disse.

“O interesse pelo grupo é tamanho que para o final de abril, devemos criar um novo, o Nutrigrão, direcionado à nutrição e à fertilização de grãos”, conta Lopes.

Oportunidade

“Se não fosse pelo projeto, certamente não teria dado este passo em minha carreira profissional”, diz Vivian Rocha, recém-formada em Engenharia Agronômica pela UFRA e uma das primeiras alunas a dar o pontapé inicial ao grupo.

Vivian foi convidada a participar de um processo seletivo para o Programa de Trainee da Biopalma da Amazônia, outra empresa participante da parceria. “Mesmo sendo o maior estado produtor, temos aqui uma carência de profissionais especializados e, com o Nutripalma, isso está mudando”, empolga-se Vivian.

Sheyla Costa_UFBA

Sheyla Costa, em um dos laboratórios da UFRA

“Nunca imaginei que um grupo de estudos iniciado por quatro alunos tomaria essa proporção, chamaria tanto a atenção das empresas”, confessa Sheyla Costa, assim como Vivian, recém-formada em Engenharia Agronômica pela UFRA e também trainee na mesma companhia. “É muito gratificante sair da Universidade com a chance de aplicar o que discutimos no programa”, diz.

 

Agroquímicos e alimentos saudáveis

Por José Otavio Menten*

jose-otavio-menten_1Em 25 de novembro de 2016 a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) do Ministério da Saúde, divulgou relatório, com 246 páginas, do PARA (Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos) com os resultados da análise de resíduos em 12.051 amostras coletadas em 2013, 2014 e 2015 em 27 estados e DF, de 25 alimentos de amplo consumo.

99% das amostras estavam livres de resíduos que representam risco agudo para a saúde dos consumidores. Isto significa que as pessoas podem consumir frutas e hortaliças sem se preocupar com resíduos de produtos fitossanitários, ou seja, a qualidade dos alimentos produzidos no Brasil é aceitável quanto as contaminações químicas. Esta informação deve ser amplamente divulgada para que contribua com o aumento do consumo de alimentos de origem vegetal, importante para saúde da população. O consumo regular de frutas/legumes e verduras está associado a um menor risco de contrair certos tipos de câncer e outras doenças crônicas. Alimentos in natura, de origem vegetal, devem ser a base de uma nutrição equilibrada. Recomenda-se que, antes do consumo, os vegetais sejam higienizados e que se dê preferência para produtos rotulados ou certificados, com identificação do produtor.

Em edições anteriores, a Anvisa realizava a comunicação dos resultados de maneira inadequada, com base em metodologia que desestimulava o consumo de frutas e hortaliças, além de prejudicar os pequenos produtores que não conseguiam comercializar a produção ou obtinham preços menores devido a redução da demanda. O PARA foi iniciado em 2001, baseado em coletas de amostras de alimentos no mercado varejista e encaminhamento a laboratórios públicos e privados credenciados para detecção de resíduos de produtos fitossanitários. As quantidades presentes eram comparadas com os LMRs (Limites Máximos de Resíduos), estabelecidos com bases agronômicas. Neste período de 15 anos foram analisadas mais de 30.000 amostras de 25 alimentos. Os resultados eram divulgados destacando a presença de qualquer quantidade de produtos fitossanitários em culturas não autorizadas, além dos casos em que os LMRs eram superiores aos estabelecidos na legislação nacional. A maior parte das irregularidades era devida aos resíduos de produtos não autorizados para a cultura considerada, independente da quantidade. Desta forma, as notícias que eram divulgadas pela mídia, com grande destaque, davam a impressão que nossos alimentos eram inadequados para o consumo, principalmente morango, pimentão etc. Se a interpretação dos resultados nos anos anteriores fosse realizada da maneira atual, os resultados indicariam uma segurança alimentar (alimentos seguros) aceitável em termos de resíduos de fitossanitários.

A nova metodologia adotada pela Anvisa é baseada na avaliação e comunicação do risco dietético em conformidade com padrões internacionais. Os resultados obtidos são comparados com a DRfA (Dose de Referência Aguda), que é a quantidade estimada do resíduo de produto fitossanitário presente nos alimentos que pode ser ingerido durante um período de até 24 horas, sem causar efeito(s) adverso(s) à saúde; este valor é expresso em mg do produto por kg de peso corpóreo do consumidor. De acordo com esta metodologia, 99% das amostras não apresentaram risco de causar intoxicações que podem ocorrer dentro de um período de 24 horas após o consumo. Este procedimento vem sendo adotado na Europa, EUA, Canadá etc. Foram avaliadas hortaliças (abobrinha, alface, batata, beterraba, cebola, cenoura, couve, pepino, pimentão, repolho e tomate), frutas (abacaxi, banana, goiaba, laranja, maçã, mamão, manga, morango e uva) e cereais / leguminosas / raízes (arroz, feijão, mandioca, milho e trigo).

Foram pesquisados 232 ingredientes ativos de fitossanitários e detectados 134. Os produtos mais frequentes foram acefato, carbendazim e cloropirifós; destes, acefato foi submetido a reavaliação e a decisão tomada em 2013 foi pela sua manutenção, com restrições. Se fosse feita a comunicação baseado em irregularidades, como no passado, 80,3 % das amostras estavam em conformidade (42,0% sem resíduos e 38,3% com resíduos abaixo do LMR). Das 19,7% das amostras com inconformidades, 16,7% seriam as que apresentaram resíduos abaixo do LMR, mas que não eram autorizados para a cultura. Apenas 3,01% das amostras estavam insatisfatórias, de acordo com o LMR (1,33% com produtos autorizados, porém acima do LMR, e 1,68% de amostras com produtos não autorizados e acima do LMR). Este era o quadro aproximado das avaliações anteriores do PARA. Ou seja, nunca houve motivo para alarme! Nos últimos cinco anos as CSFIs (Culturas com Suporte Fitossanitário Insuficiente ou minor crops) tiveram 900 novos LMRs de ingredientes ativos de relativa baixa toxicidade estabelecidos, regularizando a utilização de diversos produtos fitossanitários. Entretanto, ainda há muito trabalho a ser realizado nesta área.

As contaminações que mais preocuparam foram na laranja, com carbofuran (11% das amostras), e no abacaxi, com carbendazim (5% das amostras). Entretanto, deve-se ressaltar que as análises são realizadas com o alimento inteiro, incluindo a casca, que não é comestível. Interessante que as análises sejam realizadas após a eliminação da casca, o que deve reduzir a possibilidade de contaminação. Para minimizar problemas como estes, há necessidade do setor público (regulador) intensificar ações de educação sanitária, principalmente assistência técnica e extensão rural, e de fiscalização. O Programa de Produção Integrada do Mapa deve ser retomado com o mesmo vigor que já exibiu. Outro ponto importante é a implantação de mais programas de monitoramento de resíduos.

Deve-se destacar que o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) desenvolve o PNCRC (Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes), Vegetal e Animal. Trata-se de programa semelhante ao PARA, porém com rastreabilidade, e que avalia não apenas resíduos de produtos fitossanitários, mas também as quantidades de micotoxinas (aflatoxinas, ocratoxinas, desoxinivalenol, fumonisinas, zearelona) e contaminações microbianas, como Salmonella.

O setor privado (regulado) também pode contribuir para aprimorar, ainda mais, a qualidade dos alimentos produzidos no Brasil. Ações de educação sanitária, em especial referente a treinamentos quanto ao uso correto e seguro de produtos fitossanitários (uso racional/ boas práticas agrícolas) devem ser intensificados. Também deve haver maior empenho das indústrias no registro de produtos fitossanitários para culturas de baixo valor econômico (minor crops) e ampliação da rastreabilidade e certificação de produtores rurais.

O fato de apenas 1% das amostras apresentarem risco de intoxicação aguda merece ser comemorado e amplamente divulgado. Devemos parabenizar os agricultores brasileiros que produzem alimentos saudáveis para a mesa da população brasileira e de outros países que importam nossos alimentos. Mas temos que continuar investindo em educação, pesquisa, desenvolvimento e inovação e assistência técnica e extensão rural.

 *Diretor Financeiro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), Vice-Presidente da Associação Brasileira de Educação Agrícola Superior (ABEAS), Eng. Agrônomo, Mestre e Doutor em Agronomia e Professor Associado da ESALQ/USP. 

O ouro negro

Em São Paulo, representantes de regiões produtoras de cacau no Brasil e no mundo reuniram-se para discutir a importância da cultura para a cadeia produtiva

cacau

De grande exportador na década de 1990 à posição de importador e sexto produtor do mundo. Quem acompanha de perto o agronegócio, sabe que estamos falando da cultura do cacau no Brasil. Muito exaltado na literatura brasileira, principalmente na obra do baiano Jorge Amado, o fruto passou por um ciclo que foi do auge à derrocada, tendo enfrentado, inclusive o maior problema fitopatológico do estado da Bahia, a vassoura-de-bruxa – atestado juridicamente em 2006 como um ato criminoso de ação humana.

“Hoje representamos somente 5% da oferta global; na década de 80 chegou a 24%. Estamos equiparados ao Equador, o que para nós é um demérito em termos de produção”, disse Luiz Carlos Corrêa Carvalho, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), no Fórum “A importância do cacau no agronegócio”, promovido pelo jornal O Estado de S. Paulo na manhã desta quinta-feira (10), em São Paulo.

“Como um representante da indústria, trago uma meta de ampliação para os próximos cinco anos – um incremento de 100 mil toneladas de cacau. Quem está acostumado a outras commodities como soja e milho, por exemplo, pode achar o número irrisório, mas para terem uma ideia do quanto isso representa, equivale a 1 bilhão de reais em renda bruta. Temos uma oportunidade incrível nas mãos e temos a obrigação de valorizar os benefícios desta cultura, que além de riqueza, nos traz vantagens sociais porque é totalmente dependente de mão de obra; e ambientais, visto que o cacaueiro tem sido usado para a recuperação de áreas degradadas com grande êxito”, disse Eduardo Bastos, diretor executivo da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC).

Além da Bahia, líder em produção de cacau, o Pará vem ganhando destaque e promete ultrapassar o estado nordestino neste ranking. Nos últimos cinco anos, a produção cacaueira do Pará cresceu de 60 mil toneladas ao ano para 115 mil toneladas anuais, número que corresponde a 42% da produção nacional. Houve também uma expansão de 38% da área cultivada desde 2011, quando foi lançado o Programa de Desenvolvimento da Cacauicultura no Pará (Prodecacau). “De 2011 pra cá, geramos uma renda de R$ 600 milhões. Dentro do Programa, temos o objetivo de alcançarmos 240 mil toneladas de cacau até 2023”, disse Hildegardo Nunes, secretário da Agricultura do Estado do Pará. “Para competirmos em pé de igualdade com outros países, é preciso investimento em mecanização e igualdade em relação à mão de obra”, completou.

A produção de cacau divide-se entre a África, com 73%; a América Latina com 17% e a Ásia e a Oceania com 10%. “Só a Costa do Marfim responde a quase 40% da produção global”, disse Eduardo Bastos. “Noventa e cinco por cento da produção total é proveniente de 5 milhões de produtores. A área média dos produtores é de 3,5 hectares, o que mostra o quanto esta cultura é representativa da agricultura familiar”, completou.

Floresta de chocolate

Durante todo o evento, falou-se do cacauzeiro como um grande aliado na recuperação de áreas degradadas. “Precisamos ter uma nova visão sobre isso. É preciso pagar o produtor preservador. No Sul da Bahia, o cacau é produzido em áreas de altíssima biodiversidade. Quanto vale isso? Não estamos medindo? É nisso que precisamos pensar também”, refletiu Eduardo Athayde, do WorldWatch Institute.