Quanto leite devemos dar às bezerras?

Por Alexandre Pedroso*

Imagem_rebanho_2Está ficando cada vez mais comum o fornecimento de quantidades elevadas de leite para as bezerras na fase inicial de suas vidas, mas isso pode ser um “tiro no pé”. Diversos trabalhos de pesquisa, realizados na última década no Canadá e EUA, mostraram que fornecer mais leite do que os tradicionais quatro litros por dia para as bezerras na fase de aleitamento resultam em maior peso ao desmame, e pode ocasionar maior produção de leite na primeira lactação desses animais. Com a divulgação desses resultados, essa prática passou a ser utilizada como rotina em muitas fazendas no Brasil, onde é comum aleitar as bezerras com oito litros ou mais por dia.

No entanto, essa prática pode não produzir os resultados esperados, o que tem sido cada vez mais notado em fazendas brasileiras. Certamente, as bezerras que consomem mais leite na fase de aleitamento serão desmamadas com peso maior do que as que recebem quantidades moderadas, mas isso não garante que se beneficiarão disso na fase adulta.  É claro que o aleitamento adequado é fundamental para a saúde e bom desenvolvimento da bezerra, mas é preciso entender que fornecer leite em grandes quantidades nos primeiros meses de vida do animal não garante que essa bezerra se torne uma vaca mais produtiva e eficiente.

Após o desmame, as bezerras passam a receber apenas alimentação sólida, a qual deve ter sido introduzida durante a fase de aleitamento. Quanto maior a quantidade de leite recebida na fase de aleitamento, menor será a quantidade ingerida de ração inicial nesse período. Se o consumo da ração inicial for insuficiente, o desenvolvimento do sistema digestivo será retardado, e com isso as bezerras podem sofrer bastante depois da desmama, perdendo todo o benefício de tomar muito leite na fase anterior.

O momento da desmama é um período bastante estressante para a bezerra, pois ela passa a não ter mais acesso ao seu alimento preferido, que é o leite. A partir daí todos os nutrientes que ela precisa serão fornecidos pela alimentação sólida, e para que o animal continue saudável e se desenvolvendo bem após a desmama é fundamental que a ingestão de alimentos seja consistente nesse período. Quanto maior o consumo de ração inicial na época da desmama, melhor será o desempenho da bezerra depois da desmama, por isso não se deve correr o risco de que o fornecimento excessivo de leite possa prejudicar essa ingestão de ração.

No Brasil Central – com foco em SP, MG e GO – a mortalidade de bezerras pós-desmama é muito alta, girando entre 8-11%. Em grande parte, isso se deve à ocorrência de tristeza parasitária bovina, doença transmitida pelos carrapatos que acomete 100% dos rebanhos dessas regiões. Se o consumo de ração inicial não for satisfatório na desmama, muito provavelmente o consumo de alimentos na transição pós-desmama também será insatisfatório. Com consumo inadequado de alimentos, e consequente ingestão insuficiente de nutrientes, o sistema imune do animal é prejudicado, o que fará com que a bezerra fique muito mais vulnerável à ocorrência de doenças, como a tristeza.

Hoje, nossa recomendação técnica é que no momento da desmama as bezerras estejam consumindo pelo menos 1,5-2,0 kg de ração inicial por dia. Isso é fundamental para que o rúmen se desenvolva adequadamente, o que por sua vez é indispensável para que os animais estejam saudáveis e se desenvolvam bem pós-desmama. Para tal, fornecer a elas quantidade muito elevada de leite pode ser um desafio. Dependendo do sistema, pode ser mais interessante limitar o fornecimento de leite para que o consumo da ração inicial seja maximizado. Seis litros de leite por dia, associados ao fornecimento de uma ração inicial de alta qualidade e bom manejo sanitário dos animais, é mais do que suficiente para garantir o bom desenvolvimento das bezerras. A meta para a desmama é que bezerras de raças grandes atinjam pelo menos o dobro do peso ao nascimento e que atinjam cerca de 100 kg de peso aos 90 dias de vida.

Outro aspecto fundamental da criação de bezerras, ao qual muitas vezes não se dá a devida atenção nas fazendas, é o fornecimento de água. É imprescindível que as bezerras tenham acesso irrestrito à água fresca e limpa, desde os primeiros dias de vida. Ainda existe a crença de que pelo fato de beber leite a bezerra não precisa tanto de água, mas isso não é verdade. Baixo consumo de água vai levar a menor consumo de ração inicial, que é o principal fator responsável pelo desenvolvimento funcional do rúmen.

Em resumo, para que as bezerras leiteiras se tornem vacas produtivas é fundamental que na fase de aleitamento, além de serem adequadamente colostradas, recebam quantidade adequada de leite, sem excessos, e que tenham acesso irrestrito à  água e ração inicial de alta qualidade. Monitorar o consumo dessa ração é imprescindível, pois no momento da desmama as bezerras devem ingerir pelo menos 1,5-2,0 kg da ração ao dia. Com isso, elas terão uma transição pós-desmama mais tranquila e poderão se desenvolver bem e com saúde. 

*Consultor Técnico de Bovinos de Leite da Cargill Nutrição Animal

Carne do Pantanal ganha protocolo de certificação

Criado pela ABPO, procedimento é o primeiro no Brasil a incluir conservação ambiental em selo de raças bovinas

Expedição WWF-Brasil - Pantanal

A Associação Brasileira de Produtores Orgânicos (ABPO) e o WWF-Brasil uniram-se para anunciar o “Protocolo de Carne Sustentável”, que quer garantir origem e rastreabilidade de animais em toda cadeia produtiva da região pantaneira e a padronização de seus processos. “Este protocolo é uma sistematização do modelo tradicional do pantaneiro, que ocupa a região há mais de 200 anos com pecuária. Este trabalho permitiu que 82% do Pantanal fosse preservado”, disse Eduardo Afonso de Cruzeto, diretor financeiro da ABPO. “O pantaneiro é o grande responsável pela preservação da maior área úmida do planeta. Ele soube adaptar sua atividade ao ciclo das águas, de cheia e vazante, que caracteriza o bioma. Isso por si só já é sustentável”, acrescentou Júlio César Sampaio, coordenador do Programa Cerrado Pantanal do WWF-Brasil.Expedição WWF-Brasil - Pantanal

“Nós temos o sonho de levar a carne pantaneira ao maior número de consumidores. E também de fazer com que isso seja mais rentável para o produtor. Somos uma gestora de processo de negócios”, disse Leonardo Leite de Barros, presidente da ABPO. De acordo com ele, todos os associados (18 membros e 22 propriedades) hoje são capazes de cumprir o protocolo que estabelece a adoção de boas práticas produtivas como ajuste de lotação de pastagens para evitar compactação, perda de nutrientes e desequilíbrio do solo; a não utilização de produtos químicos no solo; utilização de pastagens nativas do Pantanal; proteção de recursos hídricos e recuperação de áreas degradadas, por exemplo. Além da preocupação com o bem-estar animal durante todo o processo, os bois têm identificação individual, com informações com o ano em que nasceu, raça, fazenda, tipo de nutrição e intervenções. O procedimento é o primeiro no país a inserir a conservação ambiental em certificação de raças bovinas.

Expedição WWF-Brasil - PantanalPara Jorge Antônio Ferreira de Lara, chefe geral da Embrapa Pantanal, é possível expandir o modelo de produção de carne do Pantanal para outras regiões. “Não terá o mesmo encanto, mas é praticável. No Cerrado, por exemplo, que teve metade de sua área desmatada pelo cultivo de soja, milho, algodão etc, onde a carga residual de insumos no solo é alta, não se conseguirá produzir algo com a mesma qualidade e exuberância”, explica. “Para o pantaneiro, produzir carne sustentável é algo natural;o bioma determinou isso”, disse o pesquisador.

Mercado

A comercialização do produto certificado por este protocolo será feita, inicialmente, pela Korin, alimentos orgânicos. “Até que o preço do frango orgânico se tornasse mais acessível ao consumidor, passaram-se cerca de 15 anos. Acredito que com a carne não será muito diferente”, disse Reginaldo Morikawa, diretor geral da Korin. Para ele, a carne produzida no Pantanal deve seguir os mesmos passos da produção de algumas frutas, associadas a determinadas regiões do Brasil, como o melão de Mossoró/RN. “As pessoas são bem intencionadas, mas não têm dinheiro, por enquanto, para pagar o preço”, completa.

A empresa, que tem no mercado produtos com os selos “orgânico” e “sustentável”, iniciou a produção de carne em 2015 com 5 toneladas por mês. “Começamos testando com 22 animais. Hoje, produzimos em torno de 100 toneladas por mês. A expectativa é dobrar esse volume em dois anos”, anseia o diretor.

O “Protocolo de carne sustentável” é auditado pelo Instituto Biodinâmico (IBD) e fiscalizado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), sob a responsabilidade da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

 

 

 

Cai produtividade na pecuária

De acordo com a Agroconsult, realizadora do Rally da Safra, redução nos investimentos em tecnologia e cenário político-econômico refletiram no resultado

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André Pessoa (esq.) e Maurício Nogueira, da Agroconsult, durante coletiva de imprensa

“Este foi um ano de muitas emoções, do ponto de vista dos acontecimentos que afetaram a cadeia e a produção de carne brasileiras. Havia sim preocupação, mas a dinâmica que o Rally proporcionou como um fórum de debate foi bastante interessante”. Foi assim que André Pessoa, sócio-diretor da Agroconsult, abriu a coletiva de encerramento do Rally da Pecuária. “Podemos dizer que melhoramos em qualidade. O nível de discussão e a disposição dos pecuaristas em responder aos questionários foram superiores ao de anos anteriores”, completou Maurício Nogueira, coordenador da expedição e sócio da Agroconsult, realizadora do Rally.

De acordo com Nogueira, a redução de investimento em tecnologia provocou uma queda de 18% na produtividade, que passou de 10,6@/ha/a para 8,9 @/ha/a. “Essa queda já era prevista e foi fruto de uma decisão incorreta do produtor de segurar investimentos no pacote tecnológico; a queda na receita foi muito maior do que a economia que fez”, explicou o coordenador.

A estimativa pré-Rally de que haveria aumento do peso médio do animal estocado em 2017 se confirmou; o que deverá elevar a oferta no mercado. O peso médio saiu de 9,8 @/cabeça no ano passado para 10,7 @/cabeça.

Ainda segundo Nogueira, o confinamento deverá ser superior ao ano passado. “Pela atratividade do preço do milho e pela necessidade do produtor em segurar mais animais por hectare”, disse. “Temos de pensar também que um diferencial do Brasil é que temos a possibilidade de criar vaca com alta tecnologia e a pasto”.

Pastagem

“Há uma exclusão muito acelerada na pecuária. O pecuarista que não consegue cuidar da pastagem está sumindo”, disse Nogueira.

Os dados da Agroconsult mostram que há no País cerca de 165 milhões de hectares de pastagem, dos quais 50% em processo de degradação. Deste total, 3% estão degradados. “O que o produtor precisa entender é que pastos ruins custam mais caro”. De acordo com o coordenador do Rally, pastos com qualidade 2 (que estão em processo de degradação, mas ainda têm capim), correspondem a 11% da área total e custam cerca de R$ 1479/ha. Já áreas consideradas degradadas custam em torno de R$ 3043/ha para serem recuperadas.