Derrubando o mito de que os transgênicos geram superplantas daninhas

Culturas tolerantes a herbicidas servem para facilitar o controle de espécies invasoras, e não o contrário

por Leandro Vargas*

Leandro VargasEm 2018, celebram-se vinte anos da adoção de transgênicos no Brasil. O primeiro OGM plantado oficialmente no Brasil foi a soja transgênica tolerante ao herbicida glifosato, aprovada pela CTNBio em 1998. De lá para cá, apesar de um sem número de benefícios relatados por produtores e da ausência absoluta de registros de problemas de saúde ou ambientais causados por esta soja, muitos críticos a essa tecnologia repetem uma crítica infundada: os transgênicos, a exemplo da soja tolerante a herbicida, gerariam superplantas daninhas resistentes aos próprios herbicidas.

Por mais contraproducente que possa parecer, essa afirmação é usada, muitas vezes, para colocar a transgenia em dúvida. A população urbana, distante dos desafios do campo, muitas vezes “compra” essas narrativas equivocadas. Para derrubar esse mito, nada melhor do que informação técnico-científica documentada e, principalmente, a história.

Preparado? Então, vamos lá. O leitor que acompanha a agricultura nacional já ouviu falar no termo “resistência”. A palavra pode ser empregada em diversos contextos, mas, para efeito deste artigo, considere que resistência é a habilidade de uma planta daninha sobreviver e se reproduzir mesmo após a aplicação de uma dose letal de herbicida.

“Mas, como?”, você pode se perguntar. Acontece que, entre as plantas, há grande variabilidade genética, e algumas, raríssimas, naturalmente apresentam a resistência. Se, safra após safra, o agricultor usa sempre o mesmo mecanismo de controle, em algumas gerações terá eliminado todas as plantas sensíveis e selecionado as resistentes, que, com o passar dos anos, podem se tornar maioria.

Esse fenômeno é um grave problema para a agricultura e pode acarretar prejuízo para o produtor. Uma das principais consequências da resistência de plantas daninhas a herbicidas é o aumento dos custos de controle.

Vamos dar exemplos para ficar mais fácil avaliar o tamanho do problema. Entre 1993 – quando foi registrado o primeiro caso de resistência no Brasil, cinco anos antes da aprovação do primeiro transgênico – e 2003, o custo médio do controle de plantas daninhas em áreas em que este problema não tinha sido detectado era de R$ 62. Nas lavouras em que havia resistência, houve necessidade de aplicação de mais herbicidas, e isso elevou o custo médio do controle para R$ 285, um incremento de mais de 350%. Este aumento vertiginoso fez os produtores de soja convencional, à época, considerarem insustentável a continuidade da lavoura da oleaginosa.

Portanto, quando do lançamento da soja tolerante ao herbicida glifosato, algumas regiões do País, especialmente o Sul e parte do Cerrado, tinham graves problemas com plantas daninhas resistentes a um mecanismo de ação de herbicidas muito usados na cultura de soja, os chamados inibidores da ALS (que impedem a síntese dos aminoácidos ramificados, com interrupção da síntese proteica e, por consequência, do crescimento celular). A entrada da soja GM tornou possível usar o glifosato na cultura. Esta tecnologia foi muito interessante para resolver ou minimizar os problemas agronômicos relacionados à resistência, e não para causá-los ou piorá-los.

Entretanto, o uso de qualquer mecanismo de controle de maneira inadequada, com dosagens erradas, e a adoção repetida do mesmo herbicida ou de um produto com o mesmo princípio ativo, várias vezes no ano, durante vários anos, podem acabar selecionando espécies resistentes. Esse processo não tem relação com o fato de uma cultura ser transgênica ou não.

Nesse cenário, é imperativo que o problema da resistência seja enfrentado com planejamento e uso do Manejo Integrado de Plantas Daninhas (MIPD), que consiste no emprego associado dos diversos métodos de controle, amparados por estudos agronômicos, econômicos, ecológicos e sociais. Portanto, não são as culturas tolerantes a herbicidas que criam as plantas resistentes, mas o uso inadequado de tecnologias pode selecioná-las. Como vimos, os mitos plantados não resistem a uma boa dose de informação.

*Engenheiro agrônomo, doutor em Fitotecnia e pesquisador da Embrapa Trigo e Conselheiro do CIB

A nova realidade do manejo de plantas daninhas no cultivo de cana-de-açúcar

Pedro Jacob Christoffoleti*

Divulgação Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) a safra 2016/2017 de cana-de-açúcar produzida pelo Brasil deverá chegar a 691 milhões de toneladas, com um aumento de 3,8% em relação à safra anterior, quando foram colhidas 665,6 milhões de toneladas. Esta será a maior safra já colhida no país.

Apesar dos números bastante promissores, um problema cresce e já está gerando quedas na produtividade, podendo se agravar ainda mais em um futuro próximo. A mudança de colheita manual – e, consequentemente, queima de palha da cana – para a colheita mecanizada, definida pelo Protocolo Agroambiental para acontecer até 2017, apesar de muito benéfica pelo ponto de vista ambiental, traz uma nova realidade para o agricultor se adaptar quando se fala em manejo da alteração da dinâmica populacional de plantas daninhas nos canaviais.

O fim das queimadas foi um avanço nos impactos ambientais causados pelo cultivo, mas abriu espaço para incremento das plantas daninhas da classe das folhas largas, como mamona, mucuna, merremias, cordas-de-viola, bucha, entre outras, que raramente eram vistas nos canaviais.

Essas ervas, se não combatidas da forma correta, podem rapidamente infestar as áreas cultivadas de cana e causar sérias consequências. A primeira delas é operacional. Elas dificultam a operação das colheitadeiras, que precisa ser paralisada até que seja feita a limpeza. Esse tempo perdido gera grandes prejuízos ao produtor, já que o custo desse tipo de equipamento é alto e cada minuto perdido interfere no prazo para realizar a colheita.

A segunda é a influência da erva na qualidade industrial da matéria prima enviada para a indústria. A mistura da cana-de-açúcar com as plantas daninhas feitas na hora da colheita mecanizada diminui o teor de sacarose e pureza do extrato final, diminuindo a qualidade do produto que o agricultor tem em sua lavoura e, consequentemente, o rendimento tecnológico. Com isso, as usinas passam a pagar menos, gerando ainda mais prejuízo para o produtor.

Outro fator de risco causado é a queda de produtividade, comum em todas as lavouras cujo controle das folhas largas foi inadequado durante os tratos culturais. Atualmente, as “reboleiras” – como são chamadas os focos de ervas no meio do canavial – podem causar redução no resultado da safra 2016/2017 na maioria das unidades de produção de cana do país.

O desconhecimento dos produtores de cana das infestações que ocorrem no interior do canavial já desenvolvido – uma vez que é difícil observar quando em fase final de colheita – faz com que este problema seja negligenciado, uma acomodação do agricultor em prevenir um futuro risco. É preciso antever para o problema já mesmo na hora do plantio para que estas folhas largas não infestem o canavial e tomem proporções que dificultem o controle.

Para enfrentar este novo desafio, os produtores de cana-de-açúcar precisam se preparar para fazer o manejo das plantas daninhas folhas largas de difícil controle da forma correta até o fechamento do canavial. Após isso, a dificuldade aumenta, pois só se consegue fazer o controle com aplicação aérea de herbicidas específicos utilizando avião ou até helicóptero, representando alto custo.

O intercâmbio de informações com agricultores que trabalham com outras culturas também é importante. Produtores de soja, algodão ou milho já enfrentam este problema há anos e podem passar experiências importantes no combate e na forma de se fazer o manejo preventivo.

O setor canavieiro já enfrenta graves crises ao longo dos últimos anos e precisa se precaver para não enfrentar outra no futuro. A nova realidade da colheita mecanizada trará grandes benefícios para todos, mas como qualquer mudança gera uma fase de adaptação. Aqueles que se planejarem e se preparem para a mudança devem sair mais fortes e ilesos.

*Pesquisador da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP) e integrante do Wolf Team da UPL Brasil.

É preciso pensar a resistência de plantas daninhas aos herbicidas

Por Luciano Zanotto*

Luciano Zanotto IIDados da consultoria Sparks Companies Inc. mostram que a resistência de plantas daninhas aos herbicidas aumenta 6,2% ao ano. Se usarmos este número, que parece baixo e sem importância quando isolado, para uma rápida estimativa do futuro, teremos um dado alarmante: até 2025 a resistência aos herbicidas será 55,8% maior.

Atualmente, estes 6,2% afeta a produtividade em 20% no plantio de soja e 22% na produção de milho, por exemplo. Neste cenário, o que será da agricultura no País daqui a dez anos, se não brecarmos esta resistência?

Segundo a Sparks, 93% dos agricultores entendem que a resistência de plantas daninhas será um problema no futuro. Mas entender que será um problema não quer dizer compreender o problema ou como ele pode ser combatido. Hoje em dia o herbicida é usado incessantemente, sem estudos aprofundados sobre o motivo da sua queda de eficácia e nem como combater a crescente resistência das plantas daninhas.

São situações distintas, mas outras pragas como a ferrugem asiática na soja ou o bicudo no algodão precisam ser levadas em conta na situação das plantas daninhas. Fugiram do controle porque foram subestimadas.

Surtos com plantas daninhas já são uma realidade em países vizinhos, como na Argentina, e podem chegar até o Brasil. Outros casos esporádicos devem funcionar como alertas. No ano passado, foram encontradas pela primeira vez no Mato Grosso plantas de Amaranthus palmeri. Esta é a principal erva daninha encontrada, até então, nos Estados Unidos e que possui um alto grau de agressividade.

Todos estes fatos são sinais e não deveriam ser ignorados. Aguardar um problema maior acontecer para combatê-lo é ‘brincar com fogo’. Em alguns casos ele pode ser vencido ao remediar a causa, mas em outros não, causando surtos que, como consequência, derrubam a produtividade e rentabilidade das lavouras.

Um manejo proativo, onde o produtor invista em planejamento a longo prazo, utilizando técnicas de rotação de culturas, manejo pós-colheita, uso de coberturas vegetais e capacitando os agricultores para a dosagem correta do herbicida, uso de pré-emergentes e sementes certificadas são algumas maneiras de evitar que, em um futuro próximo, o campo seja alvo de plantas daninhas ainda mais resistentes.

O tempo para criar uma solução tecnológica é muito maior do que a expansão do problema. São anos para a criação de novos produtos de combate, enquanto o surto começa de forma silenciosa até tomar conta das plantações. Por este motivo é importante prevenir, criar formas de antever e diminuir os riscos de contaminação das lavouras.

Em conjunto com o planejamento é preciso novas soluções tecnológicas. A única forma de se chegar a isso é investir no conhecimento. É essencial a criação de um Mapa de Plantas Daninhas para conhecermos quais e como são estes inimigos e dar subsídio para os cientistas aprofundarem as pesquisas de desenvolvimento de novas técnicas. Somente os pesquisadores munidos de informação podem fazer a diferença nesta batalha contra as plantas daninhas. São eles que darão o norte para seguirmos.

É preciso entender todo o cenário para pensar nas soluções e agir. Um exemplo disso foi o desenvolvimento do Wolf Team, da UPL, que reuniu especialistas renomados de todas as regiões do Brasil e de diferentes culturas – soja, milho, cana-de-açúcar, arroz e pastagem – para criar estratégias em busca de um futuro mais seguro e produtivo para o campo. A união de estudiosos com experiência de climas, culturas e solos distintos em busca de uma solução conjunta traz um cenário muito mais completo do momento atual e de como ele pode ser transformado.

Dar evidência para as pesquisas científicas é o caminho para chegarmos a novos métodos de controle.  Pode ser tarde demais para as lavouras se aguardarmos a resistência de plantas daninhas aos herbicidas ser crítica como as perspectivas mostradas nos dados. O problema já existe, em menor grau, e deve ser tratado como uma oportunidade para mudar.

*Engenheiro Agrônomo formado pela Universidade Federal do Paraná e Gerente de Produtos Herbicidas da UPL Brasil.