Produção de alimentos e a pecuária brasileira

Como atender à demanda mundial de alimentos com a desaceleração populacional e da produção pecuária no País foi tema de palestra na Intercorte 2017

logo_Intercorte“Nós, produtores, precisamos assumir esta responsabilidade e agirmos ou perderemos para concorrência, que vai assumir este mercado se nada for feito”. Foram com estas palavras que Alberto Pessina, presidente da Associação Nacional da Pecuária Intensiva (ASSOCON), finalizou sua participação no segundo dia da Intercorte, em São Paulo. Pessina refletiu sobre a produção de alimentos e a pecuária brasileira.

Ao falar sobre o aumento da população mundial para 2050 e o consequente aumento de renda, ele apontou, com isso, um maior interesse por alimentos de qualidade e a carne insere-se nesta lógica. Falou sobre o aumento de investimentos em países ditos emergentes por estarem participando mais ativamente da economia e também de países importadores de alimento. “Outro fator relevante a ser considerado é que as terras agricultáveis no mundo já estão praticamente esgotadas e o Brasil tem muita vantagem nisso”, disse.

Apesar disso, Pessina apontou que o crescimento da produtividade do País, de 2000 a 2015, foi inferior à da América Latina (de 0.6). “O crescimento da produtividade está diretamente ligado ao crescimento do PIB. Não podemos nos esquecer também que houve uma desaceleração da população e que, no futuro, podemos ter problema com falta de mão de obra”, disse. “O Brasil é um dos países menos competitivos do mundo, além de muito burocrático”, completou. Equidade de gênero; educação, digitalização; automação; acesso ao capital e infraestrutura foram alguns dos fatores listados por ele para que esta produtividade se desenvolva conforme se espera.

Pecuária

Na sequência, Pessina mostrou um fenômeno de desaceleração do rebanho nos últimos anos, principalmente nas regiões Sul e Sudeste. “Como atender à demanda mundial?”, questionou.
De acordo com ele, as causas desta desaceleração são a incorporação de novas áreas para a atividade (questões ambientais e preço de terra); logística; baixa qualidade das instituições (falta de união do setor); dificuldades na obtenção de crédito; educação; êxodo rural e implantação de novas tecnologias.

 

 

 

 

 

 

Estudo sobre sistemas agroflorestais na produção de alimentos deve subsidiar regulamentação de leis no Brasil

Iniciada há cinco anos pela Embrapa Agropecuária Oeste, pesquisa envolve parte dos estados de Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná

sistemas agroflorestais

Muito tem se falado dos diversos benefícios proporcionados pelos sistemas agroflorestais (SAFs), que reúnem no mesmo ambiente, e de forma simultânea, cultivos de espécies de árvores nativas ou exóticas madeiráveis, frutíferas, oleaginosas, medicinais e outras. Mas pouco se fala sobre o potencial destas na produção de alimentos. “O que temos observado ao longo destes cinco anos de estudo na região (que envolve parte do Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná) é que além das imensuráveis benesses ambientais, os SAFs beneficiam também a produção de alimentos e aumentam a renda dos produtores que os implementaram em suas propriedades”, pontua Milton Parron Padovan, pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, que coordena o projeto de pesquisa “Sistemas agroflorestais biodiversos: produção de alimentos, geração de renda e recuperação ambiental”.

De acordo com Padovan, a pesquisa deve gerar dados para subsidiar políticas públicas de incentivo aos sistemas agroflorestais. “Não há hoje dados oficiais relativos a isso, o que dificulta qualquer tipo de apoio ou estímulo aos SAFs”, diz. “O que temos observado é que os produtores que adotam os SAFs são predominantemente os que têm área de pequeno a médio porte e que já participaram de algum projeto ligado ao Ministério do Desenvolvimento Agrário; que participam de cursos, seminários e palestras a respeito do tema”, informa.

Milton Padovan

Milton Parron Padovan, pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste

“Adotar os sistemas agroflorestais é uma quebra de paradigma. Os que fazem isso enxergam que há caminhos de autossustentação de bases ecológicas com processos naturais fortalecidos. São pessoas que querem ter mais autonomia ambiental e de produção e enxergam a importância da diversidade de produção”, completa.

Segundo o pesquisador qualquer produtor pode transformar sua propriedade seguindo os princípios dos sistemas agroflorestais. “Claro que os caminhos serão diferentes para cada um. O produtor, por exemplo, que trabalha sob o regime de monocultura terá mais dificuldades, levará mais tempo e terá de investir mais porque passará de um sistema totalmente artificial em favor dos processos naturais. Além disso, o entorno, a paisagem local pode ou não favorecer essa mudança”, explica.

Para o especialista, é preciso que políticas públicas incentivem a implantação dos SAFs por meio de benefícios, de rotulagem diferenciada para produtos produzidos a partir deste sistema. “Por que no final, qual é a diferença entre um alimento produzido por sistemas agroflorestais e um em monocultura? O produtor que investiu para transformar sua área perde muito”, diz. “É preciso fazer com que as leis estimulem a agroindústria, as cooperativas para agregar valor ao produto in natura desses produtores.

“Temos um grande desafio pela frente que envolve quebra de paradigma, muito estudo, aprimoramento do processo de extensão rural, renovação da grade curricular de Universidades, e claro, bases legais para subsidiar mecanismos de incentivo aos produtores”, ressalta Padovan.

Autossustentabilidade

sistemas agroflorestais INos sistemas agroflorestais pesquisados pela Embrapa, houve aumento expressivo da diversidade vegetal, eficiente processo de ciclagem de nutrientes, aumento da diversidade de inimigos naturais, aumento de polinizadores, aumento de organismos no solo, presença da fauna silvestre no sistema, produção local de grande quantidade de materiais orgânicos para o solo, melhoramento na infiltração de água no solo, manutenção da umidade do solo por mais tempo, supressão da erosão do solo, recuperação de nascentes, recuperação da fertilidade do solo, aumento da matéria orgânica do solo, supressão de uso de adubos químicos sintéticos, supressão do uso de agrotóxicos, produção de alimentos diversificados sem resíduos químicos, além da manutenção da família no campo com qualidade de vida.

 

Processo de monitoramento e rastreabilidade de alimentos avança no Brasil

Experiências bem-sucedidas foram registradas em Santa Catarina; sistema de produção integrada agropecuário será implantado em outros estados

Redação*

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Parceria estabelecida entre o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) para ampliar o acesso do agricultor a boas práticas de produção integrada agropecuária (PI Brasil) tem apresentado avanços.

Com o objetivo de reduzir custos de produção, com vantagens para o consumidor e o abastecimento de alimentos mais saudáveis, livres de resíduos que ofereçam riscos à saúde, a cooperação entre governo e o setor deverá expandir o Programa de Rastreabilidade e Monitoramento de Alimentos (Rama).

De acordo com o Mapa, houve experiência piloto bem-sucedida em Santa Catarina, em mais de 30 grandes redes de supermercados. O Rama será implantado no Rio Grande do Sul e no Paraná. As centrais de abastecimento de São Paulo (Ceagesp) e a de Minas Gerais (Ceasa Minas) também deverão estimular seus fornecedores a produzir alimentos mais seguros e com rastreabilidade.

O Rama monitora e rastreia resíduos de agrotóxicos utilizados desde a produção até o ponto de venda de frutas, legumes e verduras para garantir que resquícios de defensivos agrícolas não estejam acima de níveis que ofereçam risco à saúde humana.

Agricultores irão receber treinamento para fornecer produtos com maior valor agregado e varejistas para vender alimentos seguros.

A PI Brasil, que respalda o selo oficial “Brasil Certificado” é um Sistema de Produção capaz de produzir comida segura para o consumo, com menor impacto ambiental, maior responsabilidade social e rastreabilidade garantida, assegurando que a procedência do alimento é conhecida. Na Europa, por exemplo, mais de 90% das frutas, legumes e verduras são produzidos neste sistema integrado.

*Com informações do Mapa