Insatisfação nacional 

Por Coriolano Xavier*

23.03.2012 - ANDEF Fotos: Tatiana FerroO descontentamento com a infraestrutura do país está na boca de todo mundo, seja na cidade ou no campo. No caso do agro, que movimenta 65% da safra pelo modal rodoviário, os problemas de infraestrutura e logística são velhos conhecidos e tiram o sono de muitos produtores.

E não é para menos, basta ver um exemplo: exportar milho via porto de Santos, tirando os grãos do Norte de Mato Grosso, o maior produtor do cereal, é algo inviável hoje, pois o valor do produto no mercado internacional (US$ 200/tonelada) não viabiliza o custo do frete até o porto, que ronda a casa dos US$ 80/tonelada. Quem faz o alerta é Edeon Vaz, diretor executivo do Movimento Pró-Logística e membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), lembrando ainda que melhorias na infraestrutura poderiam beneficiar também o abastecimento interno de produtos com produção geograficamente concentrada, como o arroz, que é produzido em maior quantidade no Sul.

O campo se organiza e protesta há tempo contra esse estado de coisas, que causa sérios prejuízos, alimenta desperdícios e provoca erosão na competitividade de produtores e do país. Mas agora se sabe que a infraestrutura também está na lista das preocupações dos brasileiros dos grandes centros urbanos.

Levantamento realizado em 28 países pelo Instituto Ipsos¹, empresa internacional de pesquisa, para medir o grau de satisfação das pessoas com a infraestrutura existente nos países onde vivem, revela que 60% dos brasileiros estão insatisfeitos com as condições de nossa infraestrutura.  Somos os mais descontentes. Os menos insatisfeitos são os japoneses (15%). Quanto ao objeto desse descontentamento, aqui no Brasil, a rede de rodovias lidera em respostas negativas (71%), seguida por banda larga (63%), energia (61%), serviços de saneamento (57%) e aeroportos (53%).

A questão estratégica da infraestrutura não está mais restrita a segmentos da sociedade ou demandas setoriais específicas. É preocupação geral, questão de política pública.

E, para ilustrar a dimensão do problema, a história recente dos investimentos brasileiros em construção e manutenção de estradas é eloquente. De acordo com a Confederação Nacional dos Transportes (CNT), em 2011 o governo investiu R$ 11,2 bilhões nas estradas e depois recuou 35% até 2016, investindo R$ 8,6 bilhões, mesmo nível de 2008. Em 2017, talvez os recursos nem alcancem esse valor. Enquanto isso, o agro viveu fase dourada de 2005 a 2014 e em 2017 chegou ao recorde de 238 milhões de toneladas de grãos, sempre intensificando sua demanda logística.

Segundo a CNT, seria preciso investir cerca de R$ 300 bilhões na infraestrutura rodoviária, para deixá-la adequada à demanda nacional de transporte. Para as lideranças do agro, o momento talvez seja uma oportunidade para somar forças com a cidade e construir uma proposta buscando queimar etapas na recuperação e ampliação de nossa malha viária, uma demanda que aparentemente é de toda a sociedade. Clima para isso parece existir: pela pesquisa, a maioria dos brasileiros consultados (76%) percebe a infraestrutura como um fator essencial para o desenvolvimento.

(1)     Divulgação: Exame, ed. 1.149, ano 51, novembro de 2017.

(*) Vice-Presidente de Comunicação do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e Professor do Núcleo de Estudos do Agronegócio da ESPM.

Logística e infraestrutura no agro

Desafios e como fazer para minimizá-los sem o investimento do governo federal foram o cerne da discussão promovida pela CNA e realizada pelo Estadão, em fórum em São Paulo

debate_EstadãoPara discutir logística e infraestrutura no agronegócio, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) em parceria com o Estadão reuniu em São Paulo representantes do governo, da indústria e do transporte. O debate, dividido em duas partes, falou sobre os desafios para o escoamento da produção agropecuária e as novas fronteiras agrícolas. “Nos últimos 50 anos, o Brasil teve uma performance espetacular no agronegócio; passamos de importador para a posição de segundo maior exportador. Mas, de 2003 a 2013, nosso custo de produção quadruplicou e a logística está sufocando o desenvolvimento do setor”, disse Luiz Antônio Fayet, consultor para Logística e Infra-Estrutura da CNA. “Não é novidade nossos problemas portuários, a urgência de total reformulação das ferrovias. Nas rodovias avançamos mais, mas ainda é preciso ampliar licitações. A nossa política de navegação está subjugada com sérios problemas de segurança”, disse.

“Os investimentos federais declinaram muito. O Estado deixou de investir”, lamentou Fábio Trigueirinho, secretário executivo da Abiove. “Temos um modelo vertical da malha ferroviária direcionado à mineração; de monopólio. E monopólio não tem compromisso com nada”, disse Luis Baldez, presidente executivo da Associação Nacional dos Usuários do Transporte de Carga (UNUT).

Os debatedores ressaltaram a importância de investimento da iniciativa privada na expansão de rodovias. “Precisamos ter em mente que pedágio é um negócio mas que traz benefícios principalmente num momento como este. O direito de ir e vir é pessoal, mas para ser transportado de avião, por exemplo, é preciso pagar. Assim como os serviços de água e luz, que você paga o que usa”, disse César Borges, presidente executivo da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR).

“O que é preciso deixar claro é que o setor produtivo não é contra o pedágio, e sim contra a bitributação. Por que temos de pagar CIDE, IPVA e impostos? Além disso, o pedágio precisa refletir os ganhos de produtividade e as condições da rodovia”, ressaltou Edeon Vaz Ferreira, diretor executivo do Movimento Pró-Logística.

De acordo com os convidados, além do potencial de crescimento dos corredores nas regiões Norte e Centro-Oeste, os problemas de logística do País poderiam ser minimizados se houvesse maior agregação de valor dos produtos agropecuários e se o governo federal enxergasse a questão como prioridade de investimentos. “Estamos reavaliando os modelos de concessão no Brasil para uma compensação de tarifas de acordo com o nível de investimento da rodovia e o serviço prestado por ela”, disse Adailton Dias, diretor de Planejamento da Empresa de Planejamento e Logística (EPL).