Os benefícios dos citros à saúde vão além da proteção contra resfriados, apontam estudos

Resultados de pesquisas apresentados em simpósio internacional em São Paulo mostram que as frutas cítricas, especialmente a laranja, contêm compostos químicos naturais que podem ajudar a prevenir e controlar importantes problemas, desde os cardiovasculares até o câncer e o mal de Alzheimer. 

Por Regina de A. Pimentel*

Fundecitrus Divulgação

Dr. Rubens Feberbaum, pediatra: “suco é alimento e contém os benefícios nutricionais da fruta”

Pesquisadores científicos e médicos, entre outros especialistas, reunidos no I Simpósio Internacional de Compostos Bioativos de Citros e Benefícios à Saúde, realizado em São Paulo em 22 e 23 de março, tiveram a oportunidade de conhecer e discutir os resultados dos mais recentes estudos sobre os efeitos positivos das frutas cítricas, com destaque para a laranja, na saúde de adultos e crianças. Entre esses efeitos, ainda a serem comprovados com mais pesquisas, estariam a prevenção e o controle de doenças cardiovasculares e de alguns cânceres, melhora das funções cognitivas e até redução dos efeitos do Mal de Alzheimer.

O evento foi promovido pelo Centro de Pesquisa em Alimentos (Food Research Center – FoRC), sediado na Universidade de São Paulo (USP), com apoio do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), do International Life Sciences Institute (ILSI) e da Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR). Justificando a importância do evento, a Profa. Bernadette D. G. Melo Franco, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP (FCF-USP) e diretora do FoRC, diz que o mercado de citros é bastante importante para o Brasil “e um potencial a ser explorado, pois há componentes nessas frutas que precisam ser melhor compreendidos pela ciência para o benefício da população”.

É preciso conhecer melhor as nossas frutas, sendo que a laranja é a grande fruta brasileira, pela sua importância econômica, social e para a  nutrição humana”, explica, por sua vez, Franco M. Lajolo, bioquímico, também professor da FCF-USP e organizador do simpósio. “A laranja é a grande fonte de bioativos da dieta; merece ser estudada e aprofundada”, acrescenta.

Vanguarda

É justamente na área de bioativos que se concentra a vanguarda da ciência de citros no mundo. Bioativos são compostos químicos que atuam sobre um organismo vivo. Eles se diferenciam dos nutrientes por não serem fundamentais para o funcionamento do corpo, mas podem ter grande influência na saúde. Os polifenóis são bioativos vegetais, fazem parte do sistema de defesa das plantas e, dentre eles, estão os flavonóides, por exemplo, responsáveis pelas cores de frutas e legumes.

Segundo Lajolo, o simpósio trouxe uma amostra das ideias mais novas e dos resultados mais concretos na área. Pesquisadores da Espanha, Reino Unido, França e Brasil apresentaram painéis sobre evidências dos efeitos e do potencial dos polifenóis da laranja na saúde, no combate a inflamações, dos efeitos do consumo do suco de laranja na atividade e ambiente intestinal, na prevenção de doenças cardiovasculares e no restabelecimento após infarto do miocárdio; além da importância dos citros na alimentação e na nutrição infantil.

Pesquisa de David Vauzour, da Universidade de East Anglia, do Reino Unido, e do ILSI, apontou que bioativos cítricos ajudam a melhorar a memória e até a retardar problemas como o mal de Alzheimer e o envelhecimento dos neurônios.

Já Thomas Ong, coordenador do Grupo de Bioativos do FoRC, apresentou trabalho sobre o efeito positivo do consumo de bioativos dos citros durante o início da vida da pessoa, desde a fase no útero, e até mesmo antes, pelo pai e mãe antes de conceberem.

No campo da engenharia genética, Leandro Peña, pesquisador do Fundecitrus, de Araraquara/SP, e de centros de pesquisas da Espanha, apresentou experimentos sobre o enriquecimento genômico de cítricos com bioativos. Seu trabalho busca desenvolver híbridos que tenham características mais adequadas às necessidades e preferências da população, para atender às demandas e oportunidades da cadeia produtiva de citros, incluindo o setor de sucos.

Consumo infantil 

Em painel sobre a laranja na nutrição infantil, Rubens Feferbaum, médico pediatra, nutrólogo, citricultor e professor da Faculdade de Medicina da USP (FM-USP), recomendou o consumo de frutas cítricas por crianças, “como parte de uma dieta adequada e dentro de um consumo de açúcares equilibrado”.

Nessa questão dos açúcares do suco de laranja, o médico esclareceu: “suco é alimento; para hidratar, deve ser água”. Segundo ele, crianças acima de dois anos devem ingerir de 180 a 200 ml; e crianças em idade escolar e adolescentes, de 240 a 300 ml de suco, uma vez ao dia.

O suco pasteurizado, não concentrado, 100% integral, sem adição de açúcares, “deve conservar praticamente as propriedades e benefícios de um suco fresco e 100% puro”, acredita o nutrólogo. Assim, se for mais prático, as pessoas podem trocar o espremido pelo suco pronto sem problemas, na opinião de Feberbaum, que alertou as indústrias para a possibilidade do enriquecimento dos sucos com fibras, bioativos e micronutrientes, a exemplo do que já faz a indústria do leite.

Para os adultos, a nutricionista Silvia Maria Franciscato Cozzolino, do Departamentos de Alimentos e Nutrição Experimental da FCF-USP, foi categórica: “Eu recomendo o consumo diário de, pelo menos, uma porção de laranja ou outro cítrico, ou de um copo de suco uma vez ao dia — de preferência a fruta, por causa das fibras”.

Açúcar natural

Na opinião dos especialistas presentes, o simpósio veio confirmar que os cítricos são grandes alimentos, em especial a laranja, uma das frutas mais consumidas no mundo por seu paladar e acessibilidade. Para Lajolo, da USP, a laranja reúne muitas vitaminas e minerais e pode ser consumida por todos, adultos e crianças.

Ele afirma não ter fundo científico o mito de que a frutose da fruta faz mal, um vez que seu açúcar é natural e não adicionado. “É um alimento nutricionalmente muito bom, que tem essa possibilidade de ter outras ações no organismo, o que a gente está revelando com os bioativos”, diz.

* Jornalista

Foto: Divulgação/Fundecitrus

O bem que o leite faz

Por Roberta Züge* 

roberta-zuge_editadaO desenvolvimento humano, em especial o incremento da capacidade cognitiva, ou seja, a capacidade de adquirir conhecimento, está intimamente ligado aos fatores nutricionais. Os humanos, para deixarem de serem nômades, precisaram desenvolver técnicas de domesticação dos animais e da agricultura. Um dos grandes destaques para facilitar a vida destes humanos, foi a utilização, como alimento, do leite de bovinos. Este, de alto valor nutricional, de fácil ingestão e que poderia ser retirado nas proximidades de suas moradias.

O leite, além de conter significativas concentrações de proteína, gordura e carboidrato, possui também sais minerais e vitaminas lipossolúveis e hidrossolúveis. É considerado um dos alimentos mais completos.

leite composicao

Uma pesquisa publicada no periódico científico Practical Neurology, intitulada “Milk, chocolate and Nobel prizes”, em tradução livre “Leite, chocolate e prêmios Nobel”, realizada pelo Gloucester Royal Hospital, do Reino Unido, identificou que os países que consomem mais leite, per capita, venceram mais prêmios Nobel, em relação ao proporcional total da população.

Foram estudados 22 países ganhadores de prêmios e os dados de consumo de lácteos per capita. A Suécia é o país com o maior número de premiações em relação ao número de habitantes, e, também, o país que consome a maior quantidade de leite por indivíduo, chegando a 340 quilos por ano. Em último lugar, entre os 22 países estudados, está a China, com o menor número de premiados em relação à população, e, apresenta o menor consumo de leite entre os avaliados, não ultrapassando os 25 quilos ao ano, por pessoa (artigo completo http://pn.bmj.com/content/13/1/63). Umas das explicações seria a alta concentração de vitamina D no leite. A vitamina D tem alta correlação com cognição. Sendo grande parte desses países com baixa incidência solar, a ingestão de vitamina D se torna mais importante ainda.

Quando se restringe a ingestão de lácteos, há uma dificuldade em atingir o valor de necessidade diária. De acordo com o National Institutes of Health, 1994, a recomendação é que adultos consumam diariamente, ao menos, 5g de vitamina D. Consumir três copos (de 200 ml) de leite supre quase 50% da necessidade diária de vitamina D. Substituir o leite por outros extratos vegetais deve ser uma recomendação muito restrita e sob intensa orientação médica.

A Sociedade Europeia de Hepatologia e Nutrição (ESOGHAN), em 2006, recomendou que a fórmula a base de soja fosse utilizada apenas em situações específicas, devido às possíveis desvantagens nutricionais e pelo alto conteúdo de fitatos, alumínio e fitoestrógenos.

Estudo da Unifesp identificou que a “telarca precoce” (desenvolvimento das mamas antes da puberdade) em uma criança de menos de 5 anos estava associada a ingestão de fitoestrógenos. Além do desenvolvimento de mamas, outros exames, como níveis hormonais e ultrassom pélvico, eram compatíveis com puberdade precoce periférica. A criança ingeria muitos alimentos baseados em soja (> 40 mg fitoestrógenos/dia). Entre os diversos componentes da soja, há o fitoestrógenos, com destaque da genisteína e daidzeína. A concentração destes pode ser 13.000 a 22.000 vezes maior em crianças alimentadas somente com fórmulas baseadas em soja, que as demais alimentadas com leite.

Após a mudança da alimentação da criança, cessou o desenvolvimento puberal, e, posteriormente, a paciente, então com oito anos de idade, continuou a se desenvolver com idades óssea e cronológica compatíveis. Os pesquisadores enfatizaram que, neste caso, a puberdade precoce esteve fortemente relacionada à ingestão excessiva de soja e de outros alimentos ricos em fitoestrógenos, que atuaram como desreguladores endócrinos.

Sistematicamente são criados modismos na alimentação. Hoje, inclusive pela abundância e facilidade de aquisição, o consumidor pode exigir novos critérios ou refugar alimentos consagrados. O ovo por muito tempo foi o vilão e tinha como sua parceira a manteiga. Estudos atuais demostraram que substituir a manteiga por margarina duplica as chances de problemas cardíacos. Artigos recentes demonstraram que o alto consumo de ovos, quando comparado com baixo consumo, resultou em discreta redução do risco de doença cardiovascular e mortalidade cardíaca. Os dois vilões foram alçados a mocinhos.

Diversas tentativas foram e, continuam sendo realizadas, com o intuito de substituir o leite como a bebida mais nutritiva. Os extratos vegetais – que sonham em ser leite um dia –, precisam receber diversos aditivos para conter parte dos ingredientes do leite. Ou seja, passam por processos industriais de enriquecimento, que nem sempre conseguem ter a absorção dos nutrientes como o do leite no organismo. Tudo isto encarece o produto e ainda pode ser deletéria ao organismo. Substituir o leite, um alimento de alto valor nutricional e de preço muito acessível, é uma missão praticamente impossível, assim, utilizar ações de marketing difamando o leite, infelizmente, tem acontecido.

No entanto, já existem muitos estudos científicos que demonstram que a substituição do leite por extratos vegetais não deve ser feita apenas por escolhas pessoais ou modismos, e sim somente sob recomendação médica. Caso contrário, mais cedo ou mais tarde, o organismo pode cobrar essa conta.   

* Médica Veterinária Doutora pela Universidade de São Paulo (USP), é membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), vice-presidente do Sindicato dos Médicos Veterinários do Paraná (SINDIVET) e sócia da Ceres Qualidade.

Fundação Cargill seleciona nove projetos voltados à alimentação

Instituições receberão aporte financeiro e de gestão para o edital 2018

Redação*

alimentacao_saudavel_fund julitaNove instituições de sete cidades brasileiras receberão apoio financeiro e de gestão da Fundação Cargill para projetos voltados à alimentação, que têm como prioridade saúde, segurança, sustentabilidade e acessibilidade. O Edital 2018 contemplará iniciativas de Barreiras/BA, Chapecó/SC, Goiânia/GO, Itapira/SP, Santarém/PA, Santos/SP e São Paulo/SP.

De acordo com a Fundação Cargill, foram inscritos 168 projetos de 141 instituições em 14 estados brasileiros. Os programas foram selecionados levando em consideração aspectos como planejamento e gestão, impacto e relevância, poder de transformação, potencial de inovação e sustentabilidade.

Conheça um pouco dos projetos contemplados nesta edição.

Barreiras/BA

O Projeto Frutos do Cerrado, do Instituto Avançado de Ensino Superior de Barreiras, receberá apoio para iniciar uma pesquisa de um fruto sazonal da região, o cajuí. Com ela, pretende-se entender e mapear a viabilidade econômica e as propriedades nutricionais do fruto, além de treinar agricultores locais para produzirem o cajuí.

Chapecó/SC

A Viver Ações Sociais receberá verba para equipar uma cozinha experimental que servirá para qualificar 240 profissionais que vivem em vulnerabilidade social. Por meio do projeto Pão para VIVER, os cursos de massas, panificação e confeitaria, ministrados em parceria com o Sebrae e o Senac, atenderão a demanda crescente por profissionais de panificação na região e fomentará o empreendedorismo da comunidade.

Goiânia/GO

O Programa de Educação Alimentar e Nutricional desenvolvido pela Universidade Federal de Goiás (UFG), é voltado para tratamento e prevenção de doenças cardiovasculares de 200 crianças de Santo Antônio de Goiás. Por meio de atividades para conscientizar as famílias dos alunos sobre a importância da alimentação adequada e oficinas que visam melhorar a qualidade da merenda escolar de escolas municipais e aumentar o consumo de cascas, folhas, talos e sementes a partir do aproveitamento integral do alimento, o projeto quer reduzir em 50% a prevalência dos fatores de risco cardiovasculares, em um período de 12 meses; aumentar em 50% o consumo de diário de frutas e hortaliças e reduzir em 50% o consumo diário de alimentos ricos em açúcar, entre outros.

Itapira/SP

O Projeto Comer na Escola Serve para quê?, da Instituição Avisa Lá, receberá apoio para a formação de profissionais responsáveis pelas merendas. Serão realizadas também atividades com as crianças com o objetivo de incluir hábitos mais saudáveis em suas rotinas.

Santarém/PA

O Projeto Alto Arapiuns de Segurança Alimentar e Conservação Ambiental do Aerocuble de Voo e Vela CTA tem como objetivo melhorar a geração adicional de renda dos integrantes das comunidades ribeirinhas na bacia de afluentes do rio Arapiuns.

Santos/SP

A Cozinha Experimental do Lar das Moças Cegas receberá móveis, equipamentos e utensílios para o ensino e a fabricação de pães, massas e doces para o Projeto Padaria Inclusiva, que visa a formação de 250 pessoas com deficiência visual como mão de obra especializada para o mercado de trabalho.

São Paulo/SP

Em São Paulo, foram selecionados três projetos. Um deles é o Bota na Mesa, desenvolvido pela Fundação Getúlio Vargas, que quer incluir agricultura familiar nas cadeias de alimento em grandes centros urbanos.

A Fazenda Aquapônica Urbana, da Associação Reciclázaro, visa implementar duas novas técnicas de produção de alimento em meio urbano com a utilização da aquaponia vertical e aeroponia – combinação de peixes e plantas.

O outro selecionado foi o Sabores e Conexões, da ONG Arrastão Movimento de Promoção Humana. A iniciativa quer capacitar jovens e adultos para a criação de negócios na área de alimentação, acessíveis às comunidades de baixa renda, usando ferramentas de negócio e tecnologia.

*Com informações da assessoria de imprensa