A Fina Pele do Planeta

Por Antonio Roque Dechen*

file0001829350120Inicialmente, gostaria de lembrar dos cuidados que tomamos com a nossa pele: usamos protetor solar, chapéus, camisas com mangas longas; no verão e nas praias usamos protetor solar e cremes de toda ordem e tomamos todos os cuidados com a hidratação. Por sorte, quando exageramos na quantidade de sol ocorrendo as queimaduras e perda da pele, nosso organismo tem a capacidade de regeneração dos tecidos.

O filme da organização Conservation International, (https://www.youtube.com/watch?v=Woc62TCZTdo&list=PL5WqtuU6JrnU4_kKFldcKW-4qBVyrfnsh) ao ressaltar a importância do solo, faz uma analogia muito interessante comparando o solo, ou melhor, a camada fértil do mesmo, denominando-a de “Fina Pele do Planeta”. Nós, profissionais da área agronômica, ressaltamos a importância da relação solo, planta e atmosfera e temos inclusive nos cursos de agronomia disciplinas e livros com este nome.

Todos os profissionais das áreas de ciências agrárias realçam a importância dessa relação, destacam normalmente as plantas que podem variar de pequenas espécies de hortaliças e flores até as plantações de espécies florestais que podem atingir alturas de 20 a 30 metros e cuidamos do solo, principalmente no que denominamos de camada arável (0 a 20 ou 30 cm).

Consideramos essa camada superficial dos solos como sendo a que é explorada pelo sistema radicular das plantas, a que retém a umidade e é a camada fértil do solo, na qual o sistema radicular das plantas se desenvolve e onde fazemos a aplicação dos nutrientes.

Quando nos referimos a essa camada de 0 a 30cm, podemos até considerar que é uma grande camada se tomarmos como referência a altura de uma pessoa de 1,80m por exemplo, mas nos esquecemos que não é a nossa altura e nem o nosso horizonte de visão a referência que devemos considerar. Temos que relacionar esta camada superficial do solo, com o seu contexto, ou seja, o “planeta terra”. Esse é o referencial e, quando assim fazemos, tomamos consciência da real espessura da camada de solo que reveste o planeta, que tem o diâmetro de 12.742 km, ou seja, 12.742.000 metros ou 1.274.200.000 cm. Dentre desse escopo, os 30 cm superficiais podem realmente ser considerados a “Fina Pele do Planeta”.

Essa fina pele do planeta nas regiões em que as condições climáticas são favoráveis possibilitam a produção de alimentos que nos garantem a vida.

É necessário que todos tenham consciência dessa necessidade da conservação dos solos, pois não vivemos sem os alimentos nossos de cada dia. Norman Borlaug, Nobel da Paz de 1970, dizia: não se constrói a paz em estômagos vazios.

Conservar o solo é preservar a vida. Cuidemos, pois da Fina Pele do Planeta.

*Presidente do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), Professor Titular do Departamento de Ciência do Solo da ESALQ/USP, Presidente da Fundação Agrisus e Membro do Conselho do Agronegócio (COSAG-FIESP).

Quase um terço dos solos do mundo está degradado, mostra estudo

Estudo coordenado pela FAO/ONU aponta que ameaças como compactação, desequilíbrio de nutrientes e perda de matéria orgânica comprometem 30% das terras do planeta

Redação*

Claudio CapecheA exploração da terra para a produção de alimentos, fibras, energia, ou em busca de minérios tem um preço e 600 pesquisadores, de 60 países, reunidos pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) pretendiam ter uma ideia desse estrago e o resultado do estudo é agora publicado no livro Status of the world’s soil resouces (Situação dos recursos do solo no mundo, em tradução livre para o português). Ele aponta uma perspectiva global sobre as condições atuais do solo, seu papel na prestação de serviços ecossistêmicos, como produção de água e sequestro de carbono, bem como sobre as ameaças à sua contribuição para a produção desses serviços.

O objetivo é entender e diagnosticar o problema, para basear recomendações técnicas e políticas públicas, para a recuperação dos solos. “As ameaças têm a mesma origem: a exploração cada vez maior da terra por parte do ser humano, geralmente combinada com as mudanças climáticas”, afirma em comunicado Miguel Taboada, diretor do Departamento de Solos do argentino Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (INTA).

Para a pesquisadora da Embrapa Solos Maria de Lourdes Mendonça Santos Brefin, membro do comitê editorial e coordenadora da publicação para a América Latina e Caribe, a perspectiva é de que a situação pode piorar se não houver ações concretas que envolvam indivíduos, setor privado, governos e organizações internacionais. “A principal conclusão do livro não é boa. O índice de degradação no mundo é alto e provocado principalmente por erosão, compactação, perda de matéria orgânica e desequilíbrio de nutrientes”, revela.

Perdas agrícolas 

A erosão em solos agrícolas leva a uma perda anual de 0,3% da produção. Se o problema continuar nesse ritmo, uma redução total de mais de 10% poderá acontecer até 2050, quando a ONU estima que a população do planeta deverá ultrapassar 9 bilhões de pessoas. A erosão em solo agrícola e de pastagem intensiva varia entre cem a mil vezes a taxa de erosão natural e o custo anual de fertilizantes para substituir os nutrientes perdidos pela erosão chega a US $ 150 bilhões.

Outro problema que ameaça o solo é sua compactação, que pode reduzir em até 60% os rendimentos mundiais das culturas agrícolas. “No mundo, a compactação tem degradado uma área estimada de 680.000 km2 de solo, ou cerca de 4% da área total de terras”, revela Lourdes, que também compôs o grupo de 27 especialistas do Painel Técnico Intergovernamental do Solo (ITPS) da Organização das Nações Unidas.

Para os pesquisadores, o maior obstáculo para melhorar a produção de alimentos e as funções do solo em muitas paisagens degradadas reside na falta de nutrientes, especialmente nitrogênio e fósforo, além dos insumos orgânicos, e da perda de biodiversidade do solo, ameaçada pela intensificação do seu uso e aplicação indiscriminada de agroquímicos.

Pesquisa e legislação 

Para interromper a degradação do solo, os pesquisadores recomendam focar em quatro pilares definidos pela União Europeia: aumento do conhecimento, pesquisa, integração da proteção do solo na legislação existente e uma nova lei. Para eles, os instrumentos legais precisam ser reforçados pelo aumento das atividades de conscientização e educação, assim como é preciso reforçar o investimento em pesquisa e tecnologias de recuperação e manejo sustentável da terra.

A publicação recomenda oito técnicas para evitar a degradação do solo: minimizar o revolvimento, adotando, quando possível o plantio direto; aumentar e manter uma camada protetora orgânica na superfície do solo, usando grãos de cobertura e resíduos desses grãos; cultivo de uma grande variedade de espécies de plantas – anuais e perenes − em associações, sequências e rotações que podem incluir árvores, arbustos, pastos e grãos; usar espécies bem adaptadas para resistir aos estresses bióticos e abióticos e com boa qualidade nutricional, plantadas no período apropriado; aumentar a nutrição dos grãos e a função do solo, usando rotação de grãos e uso criterioso de fertilizantes; assegurar o manejo integrado de pestes, doenças e sementes usando práticas apropriadas e pesticidas de baixo risco quando necessário; gerenciamento correto do uso da água e, por último, reduzir o tráfego de máquinas, a fim de evitar a compactação.

Ações no Brasil

Uma importante ação estratégica, segundo Maria de Lourdes Mendonça, é a implementação do Programa Nacional de Solos do Brasil (Pronasolos) – liderado pela Embrapa Solos e que reúne um grupo de especialistas, da própria Embrapa, de universidades, e do IBGE, entre outros – visando a criar instrumentos para a governança dos solos no Brasil. Para a pesquisadora, o Pronasolos possibilitará a construção e a gestão de uma infraestrutura de dados de solos unificada, a formação e o resgate de competências em pedologia, o fortalecimento das instituições envolvidas e uma estratégia eficiente de transferência de tecnologias. Para implementá-lo, a Embrapa Solos procura parceiros privados para implantar o programa.

O documento elaborado pelos membros do projeto prevê a inclusão do Pronasolos no Plano Plurianual do Ministério da Agricultura e Abastecimento (Mapa), com recursos diretos por meio de uma Fundação e contratação, pela Embrapa, de equipe mínima permanente de pedólogos. O programa ainda será incluído na nova Lei de Conservação de Solos e Água.

* com informações da Embrapa Solos. Foto: Claudio Capeche

Por uma pecuária mais eficiente

Dos 180 milhões de hectares ocupados por pastagens, estima-se que mais da metade encontra-se em algum estágio de degradação

gado-nelores-ag133-300x178Com a crise hídrica que assola o País, mais especificamente esse ano na região sudeste, muito se falou sobre mau uso da água e de como fazer para preservá-la e economizá-la. Mas pouco ou nada foi dito sobre a importância da proteção do solo como uma das soluções para o problema. “Nós não podemos fazer chover, mas podemos preparar o solo de maneira adequada para receber a água quando vier”, diz Aluísio Granato de Andrade, engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Solos.

Hoje, a maior parte das terras utilizadas na agropecuária no Brasil está ocupada com pastagens, cerca de 180 milhões de hectares, dos quais estima-se que mais da metade encontra-se em algum estágio de degradação. “Grande parte dos pecuaristas não enxerga a pastagem como uma cultura; não vê necessidade em adubá-la, em nutri-la. E isso ao longo dos anos vai provocando um enfraquecimento do solo. Sem falar nas queimadas ainda adotadas como práticas de manejo”, explica Andrade.

Apenas 10% das pastagens brasileiras adotam sistemas pastoris menos impactantes, como pousio, rotações e Integração Lavoura Pecuária (ILP). “Temos áreas degradadas pela atividade em todos os biomas brasileiros. Só no Cerrado, por exemplo, são 32 milhões de hectares em que a qualidade do pasto está abaixo do esperado”, diz o pesquisador.

Essas pastagens degradadas, além de possuírem baixa capacidade de produtividade (produção de carne e leite), podem levar a perdas de mais de 100 toneladas de solo por hectare ao ano, segundo dados da Embrapa. “Infelizmente muitos produtores ainda têm uma visão imediatista da atividade e, por isso, exploram a área até o seu esgotamento. E quando isso acontece, abre-se nova área e assim forma-se um ciclo vicioso totalmente degradante e de desvalorização da propriedade rural”, explica.

“Para recuperar essas áreas e reinseri-las ao sistema é fundamental que seja realizado um mapeamento dessa pastagem degradada, uma avaliação dos níveis de danificação dessas terras e a seleção da tecnologia adequada a cada uma delas”, diz Andrade. “Temos tecnologia para reverter o quadro”, completa.

Ainda segundo o cientista, existem projetos importantes no Brasil para trabalhar essa questão. Um deles refere-se ao Plano ABC, com ênfase em uma economia de baixa emissão de carbono na agricultura. “Mas na minha opinião, falta conexão entre a assistência técnica e a orientação de práticas mais sustentáveis. Para conseguir crédito, o produtor deveria também ser educado e posteriormente fiscalizado em relação a essas práticas”, diz Andrade.

“É preciso que façamos uma campanha contra a erosão do solo e também fazer com que os produtores adotem um manejo mais conservacionista; que tenham a visão de um gestor do solo e do ambiente”, anseia o pesquisador.

Degradação das terras

Segundo a Embrapa Solos, atualmente, as principais causas da degradação das pastagens são o excesso de lotação e manejo adequado, a falta de correção e adubação na formação, aliada à falta de reposição dos nutrientes pela adubação de manutenção e a utilização de espécie ou cultivar inadequada, não adaptada ao clima, solo e objetivo da produção.