Comunicação e organização da cadeia são grandes desafios da pecuária no Brasil

Além dos já conhecidos pelo setor, estes são os dois maiores gargalos que a atividade precisa enfrentar para se desenvolver, de acordo com especialistas

Intercorte 2017Para discutir os desafios da pecuária brasileira e o desenvolvimento sustentável e também comemorar seus 10 anos, o Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS) reuniu no segundo dia (16) da Intercorte 2017 – etapa São Paulo – especialistas, pesquisadores e representantes de instituições do setor. Ao fazer um balanço do ano, os painelistas falaram a respeito dos impactos da crise vivenciada pela atividade e a imagem da carne brasileira no mercado internacional, além da importância do relacionamento entre os elos da cadeia. “Este foi um ano atípico. Temos um futuro aparentemente muito bom pela frente”, disse Sérgio de Zen, do CEPEA (Centro de Pesquisas Econômicas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ).

“Temos tecnologia de sobra pra isso; é só olhar os dados de 1999 a 2015 que apontam um decréscimo de 12% a 15% na área de pastagem no País, enquanto o incremento de produtividade foi de 230%”, destacou Cleber Soares, pesquisador da Embrapa. Para ele, o maior gargalo a ser enfrentado pelo setor, além dos já conhecidos, é a organização da cadeia. “Estamos descolados da economia digital e o GTPS tem papel fundamental neste desafio”, disse. O pesquisador enxerga a comunicação como fator crucial neste processo. “A sociedade não nos reconhece. Apenas 23% dos brasileiros veem ligação entre ciência e tecnologia e produção de alimentos”, lamentou.

“Mesmo com a pecuária atropelada pelas crises deste ano, é possível afirmar que a imagem do agro obteve uma melhora sensível”, afirmou Coriolano Xavier, pesquisador do Núcleo de Estudos do Agronegócio, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Para Xavier, que apontou a pesquisa Plant Project – JH/B2F – Bridge Research – A percepção do campo na cidade, divulgada no último 8/11, durante a HSM Expo 2017, como referência, apesar de dados bastante positivos, o estudo mostra também que 60% dos entrevistados não souberam dizer qual é a grande vocação do Brasil. “Precisamos ser mais assertivos em nossa comunicação. Há muito espaço ainda para o agro crescer com isso e sermos reconhecidos como a grande vocação do Brasil”, disse.

 

 

 

 

 

Boa governança e consistência são essenciais para a captação de recursos externos

Receita é dada por Fernando de Queiroz, da Minerva Foods, em painel sobre Mercado de Capitais e Dívida no seminário AgriFinance, organizado pela consultoria Datagro e pela XP Investimentos, nesta quarta-feira (08)

Agrifinance Minerva

Queiroz: “Construímos um histórico de credibilidade com os investidores”

“O setor de proteína animal no Brasil está hoje bastante consolidado, apesar de ainda haver desafios, consequência de certos artifícios usados até há pouco tempo. Agora a eficiência e a boa gestão voltam a predominar e fazer a diferença”, afirmou, “alfinetando” a concorrência, Fernando Galletti de Queiroz, CEO da empresa de proteína animal Minerva Foods, no AgriFinance, nesta quarta-feira em São Paulo. O executivo lembrou que o Brasil importava carne até o início dos anos 2000 e atualmente é o maior exportador mundial do produto.

Empresa de capital aberto, com capacidade de abate de mais de 26 mil cabeças por dia e forte presença na América do Sul – em locais como Argentina, Uruguai, Colômbia e Paraguai, onde diversas unidades foram adquiridas neste ano da JBS -, a Minerva exporta atualmente para 100 países, sendo as principais regiões compradoras o Sudeste Asiático e, em segundo lugar, Oriente Médio. As vendas externas representam cerca de 60% das receitas do grupo.

Para Queiroz, credibilidade é muito importante para os negócios e para as captações externas de bonds. “Construímos um histórico com os investidores, usando sempre uma comunicação muito clara, indicando o que faríamos e onde pretendíamos chegar”, revelou o executivo, indicando a boa governança, a existência de fortes controles e a diversificação geográfica como fator de sucesso do grupo.

“Nós, da América Latina, somos imbatíveis na produção de soft commodities, mas precisamos mostrar que temos boa governança para obtermos mais investimentos e explorarmos melhor essa nossa vocação natural”, ensinou, pedindo, como os demais participantes do evento, regras mais estáveis e menor interferência governamental nos negócios. Segundo Queiroz, a Minerva ainda possui outro diferencial, que é o selo IFC1, do Banco Mundial, que atesta governança e sustentabilidade.

Por falar em sustentabilidade e boa governança, a Minerva não foi incluída nas acusações de corrupção de fiscais do Ministério da Agricultura e gerentes de frigoríficos, na Operação Carne Fraca, da Polícia Federal, em março deste ano. Questionado sobre os green bonds, o executivo disse que até agora a empresa não captou os títulos verdes, pelo fato deles ainda não terem se mostrado tão atraentes, mas que “estão no nosso radar”.

(1) Sigla de International Finance Corporation, um braço do Banco Mundial.

Projetos universitários em sustentabilidade são homenageados por sua relevância

Em sua 9ª edição, Prêmio Odebrecht para o Desenvolvimento Sustentável avaliou 261 trabalhos, dos quais cinco foram reconhecidos

premiados - odebrecht

“Apesar de todas as dificuldades por que passa a empresa, mantivemos nosso compromisso com a geração futura”. Foi com essas palavras que Juliana Baiard, líder da Odebrecht Transport, abriu a 9ª edição do Prêmio Odebrecht para o Desenvolvimento Sustentável, que aconteceu na noite de ontem (25), no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, reunindo estudantes, professores, representantes de Universidades, amigos e familiares. “Este projeto vai de encontro aos 17 objetivos do Desenvolvimento Sustentável definidos pela ONU”, completou.

Com 1025 alunos inscritos nas áreas de Engenharia, Agronomia e Arquitetura, de 182 entidades de ensino em todo o país, foram avaliados 261 trabalhos, número recorde. “Há um interesse crescente de jovens. Começamos com 38 projetos e hoje alcançamos 261 trabalhos inscritos. Outro fator é que há professores em Universidades que conhecem o prêmio e têm interesse em fomentar isso, em fazer com que alunos participem cada vez mais porque isso agrega experiência, valor ao currículo, destaque na carreira”, diz Sérgio Leão, diretor de Sustentabilidade da Odebrecht. “E os alunos querem ser reconhecidos por trazerem uma contribuição útil à sociedade”, observa.

“Queremos repensar o Prêmio para sua décima edição, em uma perspectiva mais ampla, na medida em que os alunos estão trabalhando em rede, trabalham colaborativamente e debatem de forma mais ativa os problemas globais. Como é que o Prêmio pode caminhar com isso?”, questiona. “Estamos fazendo um balanço e estudando a melhor fórmula de seguir”, disse.

Convidado a falar sobre o tema “Os jovens e o futuro da sustentabilidade”, Georg Kell, fundador do Pacto Global da ONU, destacou três fatores, que para ele, são fundamentais neste processo. “As mudanças tecnológicas estão transformando a forma como as pessoas se movem, vivem e se comunicam; o consumo é cada vez maior e mais exigente e a Terra passa por um nível de estresse alto, está pagando o preço na eficiência de seus recursos e, por isso, o ambiente nacional torna-se ainda mais precioso e, em terceiro lugar, mas não menos importante, a governança vai determinar como as pessoas lidam com o poder individualmente. O poder de escolha gera fragmentação e radicalização. Esta é uma tendência universal e irreversível”, disse.

“Cada um tem o poder de ser protagonista e o futuro pode ser muito promissor se tivermos em mente que os valores importam. É primordial que pensemos que o que nos conecta é sempre mais forte do que o que nos divide”, finalizou.

Premiados

Os grandes vencedores da noite - alunos de Engenharia Mecatrônica, da USP

Os grandes vencedores da noite – alunos de Engenharia Mecatrônica, da USP

Com cinco trabalhos reconhecidos e homenageados, a empresa anunciou o grande vencedor da noite. Desenvolvido pelos alunos de Engenharia Mecatrônica, da Universidade de São Paulo (USP), Fernando Antonio Torres Velloso da Silva Neto, Henrique Oliveira Martins e Fernando Paes Lopes criaram um protótipo de seletora de mudas de cana-de-açúcar. “Atualmente, você tem uma sala com diversas pessoas que ficam olhando muda por muda e dizendo se elas estão boas ou não para plantio. O que a gente fez foi construir uma máquina baseada em câmeras que filmam as mudas e conseguem identificar, usando alguns algoritmos de visão computacional e de inteligência artificial, que apontam quais delas estão aptas ou não para o plantio”, explica Fernando Paes Lopes. “Em um estudo inicial, obtivemos um nível de assertividade de 87%”, diz.

“Sem dúvida, esta premiação é um grande incentivo pra gente”, disse o Profº Dr. Eduardo de Senzi Zancul, orientador do trabalho, em agradecimento aos alunos e à Universidade durante a cerimônia.

Esta foi a quinta vez que a USP foi nomeada a grande vencedora da premiação.

Com o estudo “Usinas hidrelétricas e mortandade de peixes: desenvolvimento de tecnologia para estudo e mitigação do impacto visando à sustentabilidade no setor elétrico”, a Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ/MG) também foi contemplada. “Quando nos inscrevemos, tínhamos alguma expectativa, mas não esperávamos ser um dos vencedores porque foram mais de 200 inscritos. Foi uma surpresa muito agradável saber que éramos um dos finalistas. Foi muito bacana ver o reconhecimento do nosso trabalho e estamos muito felizes em poder compartilhar esse conhecimento e sendo homenageados por isso”, disse Lázara Rodrigues de Oliveira Fonseca, aluna de Engenharia de Telecomunicações.

Também fez parte do projeto, os estudantes Gustavo Luz Carvalho, da Engenharia Civil, Deysiane Silva Martins, da Engenharia Química e Sarah Santana Menezes, da Engenharia Civil.

O uso de material plástico oriundo de embalagens descartadas como parte do concreto preparado para a produção de lajotas foi o trabalho apresentado pela Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS). “Nós demos um destino diferente para o plástico que iria para um aterro sanitário, por exemplo”, disse Bárbara Pinto do Nascimento, estudante de Engenharia Ambiental. “Além desta questão, chegamos a um produto que possui maior durabilidade e menor absorção dos que estão no mercado”, explica.

Um modelo de janela desenvolvido com um sistema de venezianas que protege contra o calor do sol e ainda permite a ventilação do ambiente foi o trabalho apresentado pelo aluno de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). “Em relação ao modelo de janela mais utilizado em Vitória, conseguimos reduzir em até 36% o consumo de energia”, disse.

Um conversor de energia que utiliza ondas do mar para gerar energia e água dessalinizada para abastecimento e irrigação foi o que propuseram os alunos de Engenharia Naval da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Lucas Osório de Castro Portes e Alexander Kataoka Ishikawa. “Em regiões onde os recursos hídricos são escassos ou ainda onde existe carência de rede elétrica, este modelo de usina de energia das ondas pode garantir água e energia para o consumo da população. Este é o maior propósito do trabalho”, disse Ishikawa.

O valor total da premiação, de R$ 300 mil, foi dividido entre os autores, orientadores e Universidades, que ganham R$ 20 mil cada.

Além do Brasil, o Prêmio também foi realizado em Angola, Argentina, Estados Unidos, México, Panamá, República Dominicana e Venezuela.