Produtividade e competitividade no campo

O desenvolvimento de tecnologias e a qualificação da mão de obra ainda como desafios para o Brasil ganhar lugar de destaque

Pulverizador 4630“Precisamos trabalhar para que as universidades tenham a capacidade de transformar o país, não só na formação de pesquisadores mas também de profissionais que contribuam com a nossa realidade. A integração entre empresas e universidades e exergar-se como integrante das cadeias de valor têm extrema importância neste processo”. O apelo foi feito pelo chefe do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, Kepler Euclides Filho, no painel que discutiu “Produtividade e Competitividade no Campo”. O debate fez parte do segundo dia do Congresso de Inovação 2017 – Megatendências 2050, que nesta edição trouxe como tema “A cidade e o campo inteligentes, para uma melhor qualidade de vida”.

O painel também contou com a participação de Silvio Furtado, diretor de Vendas da ZF América do Sul; Francisco Maturro, vice-presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag); Alex Foessel, diretor do Centro Latino-Americano de Inovação Tecnológica da John Deere e a mediação de Christian Lohbauer, diretor de Assuntos Corporativos e Governamentais da Bayer.

“O Brasil pode ser muito mais do que um exportador de commodities com a responsabilidade da produção de alimentos para 2050. Há cadeias gigantescas do agronegócio que fazem independente do Estado. São exemplos as produções de frangos em Santa Catarina, estendida também para parte do Centro-Oeste e de suco de laranja, que colocam o país como o maior exportador do mundo”, disse Christian Lohbauer.

Ao falar sobre as vantagens do Brasil em fazer uma agricultura tropical, Alex Foessel, da John Deere, ressaltou nossa capacidade de desenvolvimento tecnológico. “Precisamos fazer com que a tecnologia tenha a mesma velocidade do campo”, disse. “Se pensarmos no sistema Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF), conseguimos 5 safras, numa propriedade, por exemplo, que plante soja, milho, crie gado e ainda produz palhada. Nenhum outro país no mundo consegue isso”, completou Francisco Maturro.

“Creio que hoje o maior problema do campo é a mão de obra. E isso deve-se ao êxodo rural e também à falta de especialização das pessoas”, afirmou Silvio Furtado. “Ouço muito que os veículos autônomos estão tirando empregos. Mas posso afirmar que eles garantem conforto, segurança e melhores manuseio do campo e de produtividade. Estão se esquecendo de que, para produzir toda essa tecnologia, precisamos de gente. E gente qualificada nas mais diversas áreas do conhecimento”, completou.

 

 

 

 

Novas tecnologias vão causar uma revolução exponencial no campo brasileiro

Se em diversas metrópoles, como São Paulo, Paris e Londres, empresas como o Uber e o Airbnb estão provocando discussões sobre como a tecnologia está alterando os negócios, no campo ela também terá grande impacto e será responsável por mais ganhos de produtividade, e até por mudar o perfil do produtor e do trabalhador rural e dos cursos de agronomia

Forum Exame - Tangari

Para Luiz Tângari Pereira (foto), fundador e presidente da start up Strider, o próximo salto de produtividade do agronegócio vai se dar via tecnologia da informação. A declaração foi feita no Fórum Agronegócio Exame, realizado na manhã desta segunda-feira (26), em São Paulo, em painel intitulado “5 Start ups do agronegócio mostram como as novas tecnologias podem transformar a agricultura brasileira”.

Para Tângari, isso hoje já é possível, inclusive no Brasil, com a internet tendo chegado às fazendas, as mídias sociais como forma de comunicação também no campo, e as novas gerações, acostumadas a essas tecnologias, no comando – ou se preparando para tal – dos negócios da família. “O produtor rural já está acostumado com inovações na genética, nos defensivos, nas máquinas, mas não na informação, o que vai ser determinante para se ganhar eficiência operacional”, diz, dando exemplo de usos de sistemas oferecidos pela empresa para calcular incidência de pragas, por exemplo, para tomada de decisão mais rápida e precisa sobre seu controle.

drones_divulgação EsalqOutras aplicações de tecnologias que já estão sendo adotadas por algumas empresas do agro são a rastreabilidade do campo à mesa do consumidor, mostrando a origem, a forma como o alimento foi produzido e suas certificações, o que agrega valor à produção; o uso de agentes biológicos no combate a pragas, o que pode ser associado ao controle químico e à biotecnologia com bastante eficiência; os drones (foto à esquerda), em associação aos sistemas de agricultura de precisão; e um ambiente digital e customizado para as transações de commodities.

Mão de obra

As modernas máquinas agrícolas e os sistemas de agricultura de precisão já à disposição do agricultor brasileiro só não são mais eficientes, em função do alto turn over no nosso campo, que está por volta de 30%. A revelação é do presidente da John Deere Brasil, Paulo Herrmann, para quem o trabalhador brasileiro tem boa capacidade de aprendizado, mas há muita rotatividade e perda de mão de obra para empregos urbanos, o que encarece os investimentos em capacitação.

Precária infraestrutura de telecomunicações em diversas regiões brasileiras, dificultando a transmissão de dados, e a inadequada legislação trabalhista brasileira são outros desafios a serem vencidos, de acordo com Herrmann. “É preciso reter a mão de obra – ou seja, o conhecimento – no campo e, para isso, rever a nossa legislação trabalhista é fundamental”, determina.

“Nenhum país agrícola no mundo conseguiu implantar estrutura trabalhista tão complexa e onerosa quanto o Brasil. E mesmo assim nosso agronegócio conseguiu se desenvolver como nenhum outro”, afirmou Guilherme Junqueira, presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB). Para ele, é necessário fazer, no entanto, algumas adaptações na legislação, sob risco de não se conseguir atrair gente para trabalhar no campo.

Quanto à revolução causada no campo pelas novas tecnologias, ele acredita que elas serão “impressionantes e exponenciais” e que levarão a uma alteração no perfil dos players. “Só 20% dos produtores que hoje atuam no campo devem restar daqui a uns 20 anos”, acredita, fazendo analogia com a disputa Uber x taxistas.

Para acompanhar tudo isso, as faculdades de agronomia deverão se adaptar e oferecer mais cursos de gestão de pessoas, administração de estoques e recursos.