Nitrogênio para o trigo: eficiência acima de tudo

Diego Guterres*

Diego GuterresA agricultura é uma atividade altamente suscetível ao clima, e o trigo nas últimas semanas sofreu com essa instabilidade, com baixos volumes de chuvas, além de geadas recentes. Grande parte das lavouras está em fase de desenvolvimento vegetativo e algumas já chegaram ao início da floração, momentos onde podem ser mais afetadas por dificuldades hídricas. Com cenários pouco favoráveis, como garantir uma boa nutrição das plantas para um produto final melhor?
Nesse sentido, o agricultor deve optar sempre por fertilizantes nitrogenados de altas tecnologia e eficiência agronômica com o objetivo de maximizar a produtividade. Sabemos que o nitrogênio (N) é o nutriente absorvido e exportado pelos grãos de trigo em maior quantidade, 1,7kg e 1,4kg, respectivamente, para cada saco produzido e que suas funções estão diretamente ligadas à qualidade e à produtividade da cultura.
O principal fertilizante nitrogenado consumido é a ureia, uma fonte que tem a função de levar nitrogênio às plantas, mas é altamente vulnerável às perdas de N na forma de gás amônia, durante sua reação no solo, dependendo das condições do ambiente.
No inverno, tal efeito até poderia ser reduzido, devido as situações de alta umidade do solo e de baixas temperaturas, contudo, como observamos, temos passado por períodos com menos chuvas. Pesquisas indicam perdas de 20% do N, aproximadamente, quando aplicado no inverno, em situações de orvalho abundante e estiagem após aplicação. Uma tática que muitos agricultores adotam é a aplicação após as chuvas, mas, ainda assim as perdas ocorrem.
Uma excelente estratégia de manejo da adubação nitrogenada do trigo é o uso de fertilizantes à base de nitrato de amônio, os quais apresentam perdas insignificantes de N por volatilização, independentemente das condições ambientais. Então, esses fertilizantes podem ser aplicados antes da chuva, sem riscos de perdas independente do tempo decorrido entre a aplicação e a chuva.
Quando chove, o nitrogênio infiltra no solo e é aproveitado pelas plantas. Eles entregam outros benefícios importantes que, conjugados, podem potencializar consideravelmente a Eficiência de Uso do Nitrogênio (EUN). Por ser uma fonte balanceada (N-nítrico e N-amoniacal), o equilíbrio das formas nitrogenadas promove maior enraizamento, menor acidificação da rizosfera, menos imobilização de nitrogênio pela microbiota, absorção sinérgica de outros cátions e ânions, o que leva a uma nutrição mais equilibrada e potencializada.
Os resultados em lavouras demonstrativas apontam incremento de 6,3 sc/ha (10,9%) com essa tecnologia posicionada na adubação de base e de cobertura, em comparação com fertilizantes convencionais. O correto manejo da fertilização nitrogenada no trigo pode proporcionar consideráveis incrementos em produtividade, portanto, quem planeja uma lavoura deve seguir as recomendações da cultura respeitando o conceito do Manejo 4C: dose, fonte, momento e local corretos.

*é Engenheiro Agrônomo e Especialista líder nas culturas de Trigo e Soja da Yara Brasil

Nutrição do trigo: desenvolvimento radicular é fundamental para altas produtividades

Diego Guterres*

Diego GuterresA definição do alto potencial produtivo de uma cultura começa no estabelecimento, que é o momento de assentamento da lavoura. Muitos fatores podem impactar esta etapa, interferindo positivamente no desenvolvimento e na produtividade na lavoura. Um manejo nutricional que favoreça o crescimento inicial das raízes de trigo pode fazer toda a diferença a favor do desempenho da triticultura.

Um fator fundamental para o trigo é a máxima redução de alumínio tóxico do solo, pois esse elemento pode danificar os tecidos radiculares, que são responsáveis pela formação da primeira raiz da planta, causando sérios problemas como menor desenvolvimento radicular. Nesse sentido, deve-se realizar um intenso trabalho de correção da acidez aplicando calcário, para eliminação do efeito desse nutriente na camada explorada pelas raízes. Também é necessário dar preferência a fertilizantes com baixo potencial de acidificação do solo, principalmente com fontes de nitrogênio e de enxofre.

O nitrogênio é, sem dúvidas, o nutriente mais importante para a produtividade e qualidade de grãos de trigo, já desde o início do desenvolvimento da planta. Dependendo da forma do elemento encontrado, a planta pode ter diversas maneiras de aproveitamento. A presença de nitrogênio na forma amoniacal favorece o crescimento das raízes, levando a maior produção de citocininas, hormônio responsável pelo crescimento e pela arquitetura do sistema radicular.

Por outro lado, se a cultura anterior for uma gramínea com palhada de alta relação, como o milho, podemos ter imobilização de nitrogênio pela microbiota do solo. Por isso, a aplicação equilibrada deste nutriente nas formas combinadas (nítrica e amoniacal) se encaixa perfeitamente para a produtividade da lavoura.

Outro elemento fundamental para o desenvolvimento radicular é o fósforo, importante na transferência de energia da célula, na respiração e na fotossíntese. A disponibilidade do elemento nas fases iniciais também é essencial para a recuperação do efeito subletal de temperatura baixa, razão pela qual se recomenda sempre o uso de uma dose de fósforo no sulco da semeadura, mesmo que o solo tenha alta concentração desse nutriente.

Já o potássio, por sua vez, atua no controle das concentrações de sais nos tecidos ou nas células, o que determina a pressão de água interna celular, forçando a célula a se expandir. A carência de potássio, portanto, no início do desenvolvimento, pode retardar o crescimento radicular. Vários motivos, principalmente a questão operacional, têm levado parte dos agricultores a optar pela aplicação de toda a dose de potássio em superfície. Para isso, o primeiro aspecto a ser considerado é a disponibilidade do nutriente no solo. A aplicação do elemento deve ser feita obrigatoriamente próximo ao sulco de semeadura, a não ser que a disponibilidade de potássio no solo seja alta. Mesmo assim, a temperatura elevada do solo pode dificultar o processo de absorção do potássio pelo solo.

Em trabalhos de campo, uma equipe de agrônomos observou um incremento médio de 6,9 sc/ha em comparação da aplicação de fertilizante NPK (com as duas formas de nitrogênio) em relação a produtos convencionais na adubação de base do trigo. Por fim, em micronutrientes, o zinco merece grande destaque para o estabelecimento da lavoura de trigo. Dentre as suas funções, destaca-se a importância na síntese de triptofano, aminoácido precursor das auxinas, hormônios que regulam o crescimento das plantas. Porém, vários fatores podem provocar indisponibilidade desse nutriente, como a elevada alcalinidade e aplicação de altas doses de fósforo no sulco da semeadura.

Nesse contexto, o ótimo estabelecimento da lavoura de trigo é fundamental para lavouras produtivas, lucrativas e de menor risco. Plantas com maior desenvolvimento radicular suportam melhor os períodos de estiagem, sofrendo muito menos estresse. Esse é um dos aspectos do manejo da lavoura e parte importante do programa nutricional desenvolvido para a triticultura, que envolve a combinação de produtos que auxiliam o produtor a escolher a melhor fonte de nutrientes, aplicação na dose, época e local corretos para elevar os níveis de produtividade e proporcionar um produto final melhor e de mais qualidade.

*Diego Guterres é engenheiro agrônomo e especialista nas culturas de Trigo e Soja da Yara Brasil

 

Brasil é capaz de produzir além de sua demanda doméstica de trigo

O pãozinho do café-da-manhã deve estar garantido, mostra estudo de duas unidades da Embrapa. Novas fronteiras para o cereal devem render quase 25 milhões de toneladas, o dobro do nosso atual consumo interno, possibilitando ao País até passar a exportar o alimento

Redação*

Morguefile

Estudo conduzido por pesquisadores da Embrapa Trigo, no Rio Grande do Sul, e Embrapa Gestão Territorial, em São Paulo, mostra que, somente no Centro-Oeste, as novas fronteiras para o trigo poderiam resultar em 24,9 milhões de toneladas do cereal, volume que representa o dobro do atual consumo interno. Isso faria o País passar de importador a exportador de trigo.

O Brasil produz cerca de metade das 11 milhões de toneladas de trigo que consome, sendo que 70% desse volume é destinado à panificação, o que torna os resultados estratégicos para traçar alternativas ao abastecimento do cereal. “É importante que o País conheça seu potencial produtivo para delinear e mapear alternativas à importação de trigo”, ressalta, em nota, o pesquisador Cláudio Spadotto, gerente-geral da Embrapa Gestão Territorial.

Hoje o Brasil importa entre 5 e 6 milhões de toneladas de trigo anualmente, provenientes principalmente da Argentina, favorecida pelos acordos bilaterais do Mercado Comum do Sul (Mercosul). A partir do resultado do estudo, os pesquisadores acreditam que essa situação pode mudar e o País se tornar inclusive autossuficiente em trigo. “Contamos com tecnologia e área, mas é fundamental o apoio de políticas públicas que assegurem o crescimento desta produção”, afirma o chefe-geral da Embrapa Trigo, pesquisador Sergio Dotto.

Em 2015, o Brasil cultivou 2,5 milhões de hectares com trigo, uma produção de 5,5 milhões de toneladas. A região Sul responde por cerca de 89% do total produzido, o Sudeste, por 9%, e o Centro-Oeste, por 2%. De acordo com o analista da Embrapa Gestão Territorial Rafael Mingoti, a diferenciação na produção é fortemente condicionada pelas características edafoclimáticas do território, pela existência de cultivares adaptadas a essas características e pela existência de moinhos e estruturas de armazenagem do grão. “Reconhecer e analisar tais diferenças vai servir de subsídio à formulação de políticas públicas direcionadas ao fomento da cultura do trigo no Brasil”, afirma Mingoti.

Regionalização da produção

maparegioestrigoPara desenvolvimento do estudo as áreas de produção de trigo foram divididas em quatro regiões homogêneas, definidas a partir de variáveis de precipitação, quantidade de frio e calor em momentos específicos da cultura, altitude e histórico de rendimento de grãos. A projeção de expansão da área de cultivo do trigo, considerando todas as regiões homogêneas, partiu de cenários criados com base em associações de fatores como área de cultivo no verão (soja e milho), áreas aptas à cultura de inverno e otimização de áreas que historicamente já foram ocupadas pelo trigo.

A estimativa baseou-se na média de rendimentos, volume de produção e área colhida no período 2010-2012 em cada região. Como a região 4 apresenta tanto a produção em sistema de sequeiro, quanto irrigado, foi considerado o rendimento médio do trigo em sistema de sequeiro, por estado, no período de 2011 a 2013, resultando em 2.400 kg/ha.

Como resultado, foram desenvolvidos quatro cenários possíveis, o Cenário 1 projeta que o trigo possa ocupar 1/3 da área de soja e milho (verão 1ª safra) no inverno. Potencial de produção de 14 milhões de toneladas de trigo. Já o Cenário 2 considera que o cereal ocupe 10% da área com cultivos de soja e milho no verão (1ª safra). Potencial de 5,9 milhões de toneladas. O Cenário 3 repete resultados da máxima produção histórica de trigo para cada município do País entre os anos de 1990 e 2012. Potencial de 11,3 milhões de toneladas.

Por fim, o Cenário 4 traça uma combinação entre os cenários 1 e 3 adotando o maior valor obtido em cada um deles: a produção oriunda entre 1/3 da área de soja e milho ou o da produção histórica nos municípios. Considerado o mais otimista, o Cenário 4 apresenta potencial de produção de 22 milhões de toneladas de trigo.

Em outra análise, para a Região 4 foram consideradas as áreas com altitude maior que 800m e com declividade menor do que 12%, na avaliação geral, nessa região está o grande espaço de crescimento do trigo no Brasil, com potencial de quase 25 milhões de hectares. Atualmente, existem cultivos de trigo em apenas 200 mil hectares nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, além da Bahia.

O estudo aponta, ainda, que as áreas potenciais para o aumento da produção de trigo na Região 4 concentram-se em locais específicos das unidades federativas brasileiras, com destaque para: leste do Estado de Goiás, oeste da Bahia, leste e sul de Minas Gerais e, em menor proporção, sul de Goiás, norte de Minas Gerais e centro da Bahia.

* com informações da Embrapa.